Tráfico de esteróides é mais lucrativo que drogas sociais

“Sem a colaboração dos governos é impossível combater o doping de forma eficaz, pois os organismos desportivos não têm poder legal ou criminal para travar quem fabrica ou trafica dopantes ou quem está orientando os atletas”. Foi esta a mensagem deixada nesta segunda-feira, 01/10, pelos principais oradores que participaram do Dia Inaugural do Terceiro Simpósio Mundial Antidopagem da Associação Internacional das Federações de Atletismo – IAAF, que decorre em Lausana, na Suíça.

“Sabemos agora que os traficantes ganham mais dinheiro com o comércio de esteróides do que no tráfico das comuns drogas sociais. Mais dinheiro. Por quê? Em parte porque é legal. Muitos países permitem que esse tráfico ocorra e não fazem nada para impedir”, acusou David Howman, Diretor-Geral da Agência Mundial Antidopagem – AMA, organismo que “montou uma campanha para alertar os países sobre esta situação” e espera que muitos sigam o exemplo da Austrália, que controla o tráfico nas suas fronteiras.

“Este é um grande desafio para nós, porque os esteróides não são usados apenas no esporte. O domínio dos esteróides na sociedade é assustador. Muitos vão para os militares, seguranças privados e agentes das forças de segurança de elite. Muitos são usados por motivos estéticos, por aqueles que querem ser parecidos com estrelas de cinema. Só uma pequena proporção é que vai para o desporto profissional”, sublinhou.

É preciso punir “quem está por trás dos casos de doping”

E não é só na prevenção ao tráfico que os Estados podem ser decisivos. “Precisamos de mais colaboração dos governos. Só eles podem impulsionar ações legais contra atletas, químicos e quem incentiva o doping. Precisamos punir quem está por trás disto”, reforçou Lamine Diack, Secretário-Geral da IAAF. “No caso Balco – Bay Area Co-Operative Laboratory – podemos perceber que até um músico de jazz pode ser dono de um laboratório que produz dopantes”, exemplificou Diack, referindo-se a Victor Conte Jr., que fundou a Balco e montou um esquema que desenvolvia esteróides sintéticos e os distribuía, juntamente com outros dopantes, a atletas de elite.

Arne Ljungqvist, Líder da Comissão Médica do Comitê Olímpico Internacional – COI, lembrou as dificuldades que as autoridades antidoping têm para chegar às pessoas por detrás dos atletas punidos: médicos, treinadores, massagistas, dirigentes desportivos, fornecedores de dopantes, etc.

“A adoção de legislação doméstica seria uma forma de resolver isto”, disse, dando como exemplo as leis italianas, que permitiram ao Comitê Olímpico Internacional – COI e as Forças Armadas da Itália – Carabinieri, colaborarem durante os Jogos de Inverno de Turim 2006. Mas, para isso acontecer regularmente, os governos têm de ratificar a convenção contra o doping no desporto, da Organização das Nações Unidas para a Cultura e Educação – UNESCO. Contudo, após ter sido aprovada em Outubro do ano passado, apenas 17 países a implementaram. E previa-se que o tratado tivesse entrado em vigor, com as 30 ratificações necessárias, antes de Turim 2006.

David Howman enumerou o que os Estados podem fazer: “Controles antidoping, regulamentar a produção de suplementos nutricionais, dar apoio financeiro às agências, regular a produção do tráfico de dopantes, apostar na educação e na pesquisa científica”.

Algumas destas ações não podem partir de organismos desportivos, mas estes também não estão fazendo tudo o que podem no combate ao doping, considerou Ljungqvist, que também ocupa a Vice-Presidência da Federação Internacional de Atletismo. “Precisamos de mais controle. É um exagero dizer que temos um programa antidoping com apenas 20 mil testes por ano (a IAAF, segunda do ranking, com menos 3 mil testes que o futebol). E há pouquíssimo controle extra-competição no desporto profissional”.

Atletas pedem reforço das suspensões

Mas a quantidade nem sempre significa qualidade. Para Christiane Ayotte, do Laboratório de Montreal, os organismos desportivos precisam de se coordenar melhor e apostar num sistema de recolha de informações. “Não faz sentido gastarmos US$ 50 milhões em testes extra-competição a nível mundial se, como dizem alguns atletas, controlamos alguns várias vezes por semana e deixamos outros de fora”.

Para Paula Radcliffe, Campeã Mundial de maratona e recordista de distância, “atualmente, os benefícios do doping são maiores que os riscos”. A atleta britânica e o estadunidense Michael Conley – campeão olímpico do triplo salto – pediram reforço das suspensões de dois para quatro anos, em casos graves de doping.

“As sanções aos atletas têm de ser mais fortes e têm de haver sanções contra os países que registrem vários positivos num determinado período. Precisamos da ajuda dos governos para avançar com punições criminais para educar os jovens atletas”, disse Radcliffe. “O sistema tem de ser duro, mas também mais justo com os inocentes. Nós, os atletas, queremos mais testes e que cheguem a mais gente. Queremos quatro anos de suspensão para quem faz este tipo de trapaça”, insistiu Conley. “Não há satisfação se optarmos por um atalho para ganharmos. A maioria dos atletas pensa assim, mas os trapaceiros deixam-nos frustrados, mancham o esporte e afastam os patrocinadores”, completou a recordista mundial.
Autor: Sítio Publico
Fonte: OBID