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Bolívia tem de provar ao mundo que coca não é cocaína, diz Organização das Nações Unidas

O governo boliviano de Evo Morales pode enfrentar dificuldades com a comunidade internacional se não definir logo uma política antidrogas “clara e integral”, advertiu em entrevista o Diretor-Executivo do Escritório da Organização das Nações Unidas contra a Droga e o Crime – UNODC, Antonio Maria Costa.

Para ele, apesar de a erradicação do cultivo da coca em Chapare ser “satisfatória”, a plantação da folha em outros lugares do país é preocupante. Antonio Costa deu as declarações depois de concluir no fim de semana uma visita oficial, que incluiu uma passagem por Chapare na companhia de Morales, e durante a qual coletou em primeira mão informações sobre a erradicação da cultura e sobre a proposta boliviana de descriminalização da coca.

“Há uma certa frustração na comunidade internacional porque não se entende bem como vai funcionar o slogan: “Sim à coca, não à cocaína” ”, afirmou o Diretor.

Morales, que está há nove meses no cargo, lançou uma campanha internacional para que a folha de coca, um arbusto sagrado segundo a tradição dos povos andinos, seja retirada da lista de entorpecentes da Organização das Nações Unidas – ONU, mas ainda não apresentou respaldo científico para sua proposta.

Antonio Costa disse ainda que o governo boliviano não possui uma política antidrogas que conte com pleno apoio da comunidade internacional, principalmente por parte dos países doadores. “Não há uma estratégia, não há um plano de ação contra o narcotráfico, a única coisa que está clara é a ênfase na erradicação organizada das plantações de coca”. A erradicação das plantações, já alcançou 4.000 hectares em Chapare, do total de 5.000 hectares que estavam previstos para o ano, mas é praticamente nula em outras regiões, como Yungas -norte de La Paz. De acordo com ele, na área há 5.000 hectares além do permitido.

“Isso pode ser um problema bem grande, uma grande preocupação para a ONU e sobretudo para os países doadores. A Bolívia tem de tomar cuidado para não provocar uma reação negativa dos doadores”, acrescentou.
Em 1988, a Bolívia declarou legais até 12 mil hectares de cultura de coca em Yungas, para satisfazer a demanda com fins médicos e cerimoniais, e exportações limitadas para a indústria, como a de bebidas.

Costa afirmou que a Bolívia não fez grandes avanços na anunciada pesquisa científica sobre os usos legais da coca. “Não se pode trabalhar com base em hipóteses, é preciso verificar o que se diz, e é muito urgente fazer a investigação. A Bolívia tem de mostrar ao mundo que a coca não é cocaína, mas também tem de reduzir os cultivos” disse ele.

O governo de Evo Morales anunciou recentemente que a União Européia financiará e supervisionará uma investigação oficial sobre os usos da coca, como parte da campanha pela descriminalização do arbusto.

“A proposta de descriminalização feita pelo presidente Morales merece consideração, mas por enquanto é só uma proposta”, insistitu Costa.
Autor: Reuters
Fonte: OBID