Método para determinação de MDMA em comprimidos de ecstasy por cromatografia – Parte I

Revista Brasileira de Ciências Farmacêuticas vol. 40, n. 1, jan./mar., 2004

Silvio Fernandes Lapachinske
Mauricio Yonamine
Regina Lucia de Moraes Moreau

INTRODUÇÃO

A 3,4-metilenodioximetanfetamina (MDMA), derivada sintética da anfetamina, foi patenteada pela Empresa farmacêutica alemã Merck em 1914, com o intuito de ser um novo moderador do apetite. Entretanto, em função de sua baixa utilidade clínica, foi praticamente ignorada pela comunidade científica até a década de 1970, quando se relatou que produzia “um estado controlável de alteração da consciência com harmonia sensual e emocional”, sugerindo que poderia ser usada como um adjuvante na psicoterapia.
No início da década de 1980, porém, a MDMA tornou- se popular como droga de uso recreacional, sendo conhecida também pelos nomes de ecstasy, “XTC”, “E”, “Adam”, “MDM” e pílula do amor. Seu uso produz elevação da auto-estima com sensação de proximidade e intimidade com as pessoas ao redor. A comunicação e a relação com as pessoas melhoram, produz-se um sentimento de euforia com aumento da energia emocional e física. Em doses excessivas, também pode produzir efeitos alucinógenos. Mortes em decorrência do abuso de ecstasy são atribuídas a distúrbios cardiorrespiratórios, hipertermia e desidratação.
Nos últimos anos, aumento considerável do consumo de ecstasy tem sido observado mundialmente. O United Nations Office for Drug Control and Crime Prevention (UNODCCP) estima que aproximadamente 4,5 milhões de pessoas (a maioria adolescentes e adultos jovens) tenham utilizado ecstasy durante a década de 1990 (United Nations Office for Drug Control and Drug Prevention, 2000). Em 2000, de acordo com a Europol, 17,4 milhões de comprimidos de ecstasy foram apreendidos nos países membros da União Européia, correspondendo a aumento de quase 50%, comparado com o ano de 1999.
No Brasil, crescentes quantidades de ecstasy também têm sido apreendidas, culminando com a derrubada do primeiro laboratório de síntese de MDMA em São Paulo, no ano de 2000.
O ecstasy é consumido por via oral em comprimidos de várias formas, cores e tamanhos, geralmente contendo um logotipo que identifica o produto. Cápsulas gelatinosas são menos freqüentes, mas também têm sido encontradas.
Essas preparações, contêm cerca de 50-150 mg de MDMA, sendo que algumas podem conter outros adulterantes como cafeína, efedrinas, paracetamol, cetamina e compostos análogos como a anfetamina, a metanfetamina, a 3,4-metilenodioxianfetamina (MDA) e a 3,4- metilenodioxietilanfetamina (MDEA).
Desta forma, a finalidade do trabalho realizado pelos autores deste estudo foi o desenvolvimento de um método analítico para quantificar a MDMA em comprimidos ou cápsulas de ecstasy, utilizando a técnica de cromatografia em fase gasosa com detector de nitrogênio/fósforo (GC/NPD). Compostos análogos e adulterantes também puderam ser identificados. Os resultados das análises de amostras de 25 diferentes lotes de apreensões realizadas em São Paulo (SP) também estão apresentados.

MATERIAL E MÉTODOS

Soluções-padrão
Soluções-padrão de anfetamina, metanfetamina, 3,4-metilenodioximetanfetamina (MDMA), 3,4-metilenodioxianfetamina (MDA), 3,4-metilenodioxietilanfetamina (MDEA), efedrina, pseudoefedrina e norefedrina, na concentração de 1 mg/mL em metanol, foram obtidas da Radian International.
Difenilamina foi obtida da Fisher Scientific (Pittsburg, EUA). Cafeína foi obtida da United States Pharmacopeia.

Amostras de comprimidos e cápsulas de ecstasy
Amostras provenientes de 25 diferentes lotes apreendidos como sendo ecstasy, no período de 1996 a 2001, foram cedidas pelo Departamento de Investigações sobre Narcóticos (DENARC) e pelos extintos Serviço Técnico de Toxicologia Forense e Núcleo de Toxicologia Forense do Instituto Médico Legal de São Paulo e encaminhadas para o Laboratório de Análises Toxicológicas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo. Uma amostra de comprimido (REF 1) e uma amostra de cápsula (REF 2), cujas concentrações de 3,4- metilenodioximetanfetamina (MDMA) foram determinadas pelo método, foram utilizadas nos ensaios de limite de detecção, limite de quantificação e precisão intra e interensaio.

Preparo das amostras
Cada comprimido foi triturado, homogeneizado e uma alíquota de 5 mg foi dissolvida em 5 mL de metanol em um tubo de centrífuga de 15 mL. No caso da amostra ser uma cápsula, o invólucro gelatinoso foi desprezado e uma alíquota de 5 mg de seu conteúdo foi utilizada. Em seguida, o tubo foi submetido a banho de ultra-som por 10 minutos e centrifugado a 300 g por 5 minutos. Do sobrenadante, 50 mL foram transferidos para um balão de 1 mL juntamente com 50 mL de solução-padrão de difenilamina (padrão interno) na concentração de 100 mg/ mL e o volume completado com metanol. Da solução final, 1 mL foi injetado no equipamento de cromatografia em fase gasosa.

Validação do método
A validação do método foi realizada pelo estabelecimento de valores de limite de detecção, limite de quantificação, linearidade, precisão intra e interensaio e especificidade para a MDMA, conforme descrito abaixo:

Limite de detecção e limite de quantificação
O limite de detecção e o limite de quantificação foram obtidos pelo método empírico, que consistiu em analisar série de alíquotas do comprimido de ecstasy (REF 1) triturado e homogeneizado, diluídas em quantidades crescentes de excipientes (lactose 48%, celulose microcristalina 48% e estearato de magnésio 4%). O limite de detecção foi a menor concentração de MDMA obtida a partir da série de diluições que apresentou coeficiente de variação (CV), que não excedeu 20% em seis replicatas. O limite de quantificação foi a menor concentração de MDMA que apresentou um coeficiente de variação (CV) que não excedeu 10% em seis replicatas.

Linearidade
O estudo de linearidade foi conduzido pela injeção de 6 concentrações da solução-padrão de MDMA em triplicata, juntamente com o padrão interno difenilamina.
As seguintes concentrações foram utilizadas: 1,5; 10; 20; 30; 40 e 50 mg/mL em metanol, correspondentes às seguintes concentrações equivalentes nos comprimidos 3,0; 20; 40; 60; 80 e 100 mg de MDMA por 100 mg de comprimido ou cápsula (3; 20; 40; 60; 80 e 100% de MDMA).

Precisão intra e interensaio
A precisão intra e interensaio foi realizada analisando-se alíquotas das amostras de comprimido (REF 1) e da cápsula (REF 2), conduzidas em sextuplicata em três dias diferentes. Os valores foram expressos pelo coeficiente de variação do método (CV).

Especificidade
A especificidade do método foi verificada utilizando compostos análogos e fármacos que poderiam estar presentes como adulterantes: anfetamina, metanfetamina, 3,4-metilenodioxianfetamina, 3,4-metilenodioxietilanfetamina, efedrina, pseudoefedrina, norefedrina e cafeína. Todas essas substâncias foram injetadas no equipamento de cromatografia em fase gasosa em solução metanólica a 10 mg/mL.

No próximo artigo apresentaremos os resultados deste interessante estudo. Confira!

Fonte:Site Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas)/Programa Álcool e Drogas (PAD) do Hospital Israelita Albert Einstein