Impulsividade é fator de risco para abuso de drogas

A associação entre impulsividade e aumento na chance de consumo abusivo de substâncias psicoativas foi investigada em um estudo realizado por pesquisadores do Centro de Pesquisas em Álcool e Drogas (CPAD) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Associação entre impulsividade, idade do primeiro consumo de álcool e abuso de substâncias psicoativas em adolescentes de uma região do sul do Brasil, de autoria da psiquiatra Lisia von Diemen, procurou avaliar se adolescentes masculinos com consumo problemático de álcool ou de drogas são mais impulsivos do que os não usuários ou usuários não abusivos. O resultado encontrado foi positivo: os mais impulsivos têm cerca de três vezes mais chances de tornarem-se consumidores problemáticos dessas substâncias.

Uma outra informação que pode se tornar útil para mudar o curso da problemática do abuso foi a constatação de que, para cada ano mais tardio relatado de início do primeiro consumo de álcool, diminui em 15% a chance do indivíduo vir a apresentar abuso de álcool e de drogas. Isso possibilita aos profissionais da saúde o desenvolvimento de medidas preventivas dirigidas a adolescentes sob maior risco de vir a apresentar problemas com uso descontrolado de substâncias como maconha, cocaína, álcool e inalantes como cola e “loló”.

Para chegar a esses resultados foi conduzido um estudo de caso-controle com 464 adolescentes masculinos de 15 a 20 anos oriundos do município de Canoas. Foram utilizadas as escalas BIS 11 (Barratt Impulsiveness Scale), ASSIST (Alcohol Smoking and Substance Screening Test) e a seção de álcool e drogas do MINI (Mini International Neuropsychiatric Interview) para consumo e problemas com substâncias psicoativas, além de um questionário demográfico. As entrevistas foram realizadas por sete estudantes de Medicina da Ulbra que foram treinados para a tarefa.

A pesquisa também traduziu e validou para o português a escala americana BIS 11, um questionário aplicado a pacientes com o objetivo de avaliar a impulsividade, caracterizada por inquietude, não planejamento das atitudes, abandono das tarefas começadas e falta de concentração, por exemplo. Foi realizada uma primeira etapa de validação da escala com tradução para o português, adaptação à realidade brasileira e retro-tradução para o inglês. A versão original em inglês e a versão adaptada em português foram aplicadas em 18 estudantes de medicina bilíngües, com intervalo de duas semanas. Também foi realizada uma avaliação das propriedades psicométricas da escala. A tradução e adaptação foram realizadas pois não há escala validada em português para testar impulsividade.

De acordo com a autora “se os resultados encontrados forem confirmados, será possível abordar preventivamente jovens mais impulsivos e concentrar esforços na postergação da idade de início do consumo de álcool em adolescentes”. Sob orientação do psiquiatra Flavio Pechansky e com financiamento do FIPE e do CPAD, o projeto levou dois anos para ser finalizado, resultando na dissertação de mestrado da autora e na publicação de artigo na Revista Brasileira de Psiquiatria. Outro artigo está em preparo para ser submetido na revista Addiction. Lisia pretende seguir pesquisando na linha da impulsividade e do abuso de substâncias em seu doutorado.
por Larissa Junkes
Fonte:ABEAD