Sob o poder do êxtase

Do laboratório às festas

Quando agentes da Polícia Federal vasculharam prédios e condomínios de luxo da cidade do Rio de Janeiro, no fim do ano passado, ouviram as respostas-padrão dos alvos da operação: “Não sou vagabundo, sou da paz” e “Não ficarei muito tempo preso”. Repetidas por alguns dos doze acusados de tráfico presos pela polícia, quase todos jovens de classe média alta, as frases retratam bem a realidade em torno do crescente uso de drogas sintéticas. Elas estão criando um novo traficante no Brasil, o garotão classe média ou alta que vende êxtase e ácido lisérgico – LSD, que tem mais de meio século de consumo. Os chefões do pó armados até os dentes e entrincheirados em favelas agora dividem a cena do crime com adolescentes e jovens de famílias com alto poder aquisitivo, que praticam esportes, fazem faculdade, dominam outros idiomas e são craques de Internet. O fenômeno se alastrou pelas principais capitais do País. Ele está consolidando a triste classificação do Brasil como potência emergente no mercado mundial de drogas sintéticas.

O volume de apreensões de êxtase pela Polícia Federal – PF nos últimos anos mostra a escalada da droga no Brasil. O número de comprimidos apreendidos em 2001 era estatisticamente desprezível (1.900), mas em apenas três anos registrou um salto gigantesco: 81.900 unidades. Mesmo que em 2005 o total de apreensões tenha caído para 53.700 pílulas, nada indica que o problema esteja sob controle. Para a PF, isso pode ser resultado tanto do aumento da repressão ao crime como da utilização de novas rotas pelos traficantes. O representante do Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime – UNODC para o Cone Sul, Giovanni Quaglia, diz que há uma mudança de perfil no mercado mundial de êxtase. A droga parou de avançar nos principais centros produtores e consumidores – os países europeus e os Estados Unidos. Em contrapartida, novos mercados estão surgindo, principalmente nos países em desenvolvimento. “Nossa preocupação é que essa tendência continue e o Brasil vire um destino interessante, porque o mercado tradicional está saturado”, diz Quaglia.

As operações policiais feitas no Brasil para combater as drogas sintéticas mostram que jovens de classe média estão mergulhando de cabeça nesse mercado. Cerca de 90% dos presos nas operações têm esse perfil. São chamados de “traficantes playboys”, pela polícia, ou street dealers (algo como “traficantes do asfalto”), por eles mesmos. Em 2002, a PF prendeu oito integrantes de uma quadrilha formada por jovens que levavam cocaína para a Europa e a Ásia e voltavam com drogas sintéticas. Parte do bando era formada por moradores de mansões de Brasília. Nos últimos dois anos, o delegado Luiz Marcelo Xavier, da Polícia Civil fluminense, chefiou operações que prenderam traficantes de drogas sintéticas em diferentes pontos do Rio. Dos setenta presos, 90% eram estudantes universitários. Eles usavam serviços de comunicação pela Internet, como Orkut e MSN, para negociar êxtase. Ou, então, revendiam a droga em ,.raves e boates. “O traficante do morro não tem acesso a esses lugares. Por isso, o vendedor ideal é alguém que seja como os freqüentadores”, diz Xavier.

Para ele, muitos jovens são atraídos para esse tipo de crime movidos pela falsa idéia de que se trata de um tráfico limpo, ou seja, não associado à violência que cerca as drogas comercializadas em favelas, como cocaína e maconha. “Nas drogas sintéticas, as quadrilhas não disputam na arma, e sim no preço”, diz. Além disso, a droga vem se popularizando por ser de fácil circulação: não tem cheiro, é do tamanho de uma aspirina e fácil de ser “disfarçada”. Pode ser guardada, por exemplo, dentro de embalagens com pílulas de doces, o que dificulta a identificação tanto pela polícia quanto pela família. Nem mesmo a polícia conhece em detalhes o funcionamento das novas quadrilhas ou o número de pessoas envolvidas. Mas aos poucos vão se delineando as características de seus integrantes. Existe, por exemplo, a figura do atacadista, normalmente dono de negócios de fachada que opera no ramo de importação e exportação. Trata-se de pessoas que possuem contatos com laboratórios que fabricam a droga em larga escala no exterior, em geral na Holanda, o maior produtor mundial. Com o lucro das grandes encomendas que trazem para o Brasil, os atacadistas lavam o dinheiro comprando imóveis, registrados em nome de laranjas. Uma quadrilha desbaratada no ano passado pela PF na Operação Tsunami havia adquirido em três anos o equivalente a 5 milhões de reais em imóveis.

Outra forma de trazer a droga para o Brasil é fracioná-la em cargas menores, de até 400 comprimidos, por meio de encomendas postais. “Já encontramos êxtase dentro de livros e até de sapatos vindos pelo correio. Para o atacadista, esse tráfico formiguinha é interessante, pois em caso de apreensão o prejuízo não é grande”, diz o Delegado Federal Fernando Franceschini, da Coordenação de Operações Especiais em Fronteiras da Região Sul. Outra função importante na quadrilha é a do distribuidor, que compra parte da carga do atacadista e revende em lotes de no mínimo 100 comprimidos. Eles também têm a função de arregimentar revendedores, em geral jovens de classe média que vão a festas e boates repassar a droga ao consumidor final.
Fonte:Revista Veja