Programa inédito promove a reintegração entre jovens em situação de rua e suas famílias

Adolescentes e crianças que vivem nas ruas constituem um dos problemas mais graves dos grandes centros urbanos de todo o mundo. Na cidade de São Paulo, o assunto vem sendo priorizado pela Prefeitura, que criou o Programa Equilíbrio, cujo objetivo principal é promover a reintegração dos menores ao ambiente familiar. Para alcançar esse objetivo, o projeto inova ao voltar suas ações não apenas para os jovens, mas também para suas famílias, pois normalmente uma criança ou adolescente que vive na rua tem histórico de conflitos e de rupturas que resultaram em sua saída de casa. Também serão uniformizados os procedimentos adotados pelos diferentes órgãos municipais voltados ao atendimento destes menores, preservando as particularidades de cada instituição e os diferentes papéis que cada uma representa ao longo deste processo de reintegração sócio-familiar, mas direcionando para um mesmo objetivo.

O programa pretende promover o retorno ao ambiente familiar de forma natural e sem traumas, a partir da participação dos integrantes do núcleo familiar. O trabalho com os familiares inclui inicialmente a localização destes e, a partir desta, o convite para participarem do tratamento, que inclui desde atividades conjuntas que favoreçam a reintegração com as crianças e adolescentes, passando por atendimentos psicológicos, médicos e psiquiátricos. Caso não seja possível a volta ao lar de origem, o programa buscará fortalecer o jovem para que encontre outros pontos de apoio na comunidade.

A iniciativa do projeto foi da Subprefeitura da Sé e da Secretaria de Coordenação das Subprefeituras – que buscou auxílio da equipe do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP para estruturar o programa – e conta com a participação das Secretarias Municipais de Assistência e Desenvolvimento Social e de Saúde. De início, serão atendidos crianças e adolescentes já residentes nas seis casas de acolhida da Prefeitura – abrigos ou Centros de Referência da Criança e do Adolescente (CRECAs) – localizados na região central. O segundo passo é incentivar as crianças e jovens que estão nas ruas a aceitarem a assistência oferecida, motivando-os a irem para as casas de acolhida a medida que novas vagas forem abertas.

Além dos profissionais que atuam nos órgãos assistenciais da Prefeitura, o programa conta com uma equipe multidisciplinar específica, formada por pediatras, psiquiatras, psicólogos, fonoaudiólogo, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional e psicopedagogo.

“Esta é a primeira vez que os menores de rua da região central serão atendidos de forma clínica e especializada. De acordo com o andamento, o projeto deverá ser expandido para outras regiões da cidade, porque é inaceitável que esses jovens desperdicem suas vidas sem que tenham qualquer perspectiva ou chance de se tornarem cidadãos, como a maioria das outras pessoas”, afirma Andrea Matarazzo, Secretário de Coordenação das Subprefeituras e Subprefeito da Sé. “É a primeira vez também que temos a oportunidade de dar a estas crianças uma chance na vida, e dessa maneira podemos salvar vidas e encaminhar uma geração de pessoas que realmente precisam de apoio e ajuda”, complementa Matarazzo.

Relação de confiança

Paralelamente ao atendimento oferecido às crianças e adolescentes que estão nas casas de acolhida, a equipe do programa trabalhará em conjunto com as equipes que fazem a abordagem inicial das crianças e adolescentes que vivem nas ruas. O objetivo desta abordagem conjunta é de convencê-los a irem para os abrigos e casas de acolhida, mostrando que a vida nesses locais pode ser muito mais interessante do que um punhado de regras e proibições. A estimativa é que existam atualmente 380 jovens morando nas ruas da região central.

“Nossa proposta é obter uma relação de confiança com eles, mostrando que a equipe do Equilíbrio atua em conjunto com as casas de acolhida e que para serem ajudados, estas crianças e adolescentes precisam estar fora das ruas. Assim, buscamos despertar a vontade de serem acolhidos e buscarem novas oportunidades de vida fora das ruas”, afirma a coordenadora do programa, a psiquiatra Sandra Scivoletto, cuja experiência com jovens em situação de vulnerabilidade social inclui assessoria para a organização Médicos Sem Fronteiras, com trabalhos em campos de refugiados de Tegucigalpa (capital de Honduras) e Angola.

Ela explica que a falta de perspectiva é a maior barreira para o trabalho de assistência. “Eu conheço a maioria das crianças e adolescentes que estão nas ruas da região central e tenho boa relação com eles, mas não é fácil mostrar para quem não tem qualquer perspectiva, e muitas vezes está drogado, que a ida para um abrigo não tem intenção punitiva”, explica Sandra. “Ao contrário, o objetivo é oferecer um novo projeto de vida, com oportunidades reais, para que esta pessoa se torne cidadã, com os mesmos direitos e deveres de qualquer outra”, esclarece a psiquiatra. O programa oferecerá não apenas o atendimento às crianças e suas famílias, mas buscará também preparar as crianças e adolescentes para retomarem os estudos, ingressarem em cursos profissionalizantes e coloca-las em programas de estágio, como o Aprendiz, e de Primeiro Emprego. “É importante que a criança e o jovem percebam que seus sonhos não só serão respeitados, mas que terão ajuda de pessoas que estarão ao lado delas, nas suas dificuldades, e as apoiarão nas suas batalhas para atingirem seus objetivos. A grande maioria destas crianças não pôde receber este apoio dos pais e muitas têm grande dificuldade de confiar em outra pessoa. Este é o maior obstáculo para convencê-las a deixarem as ruas” relata Sandra.

De acordo com a coordenadora do programa, em novembro de 2005 ela começou a estabelecer contatos para articular a rede de atendimento. A expectativa do Programa é atender 590 jovens em dois anos. Esse total deve-se aos 120 que já residem em abrigos, os 380 que moram em ruas e outros cerca de 90 que vivem com suas famílias, em situação especial, em abrigos da Prefeitura.

Para o secretário da Assistência e Desenvolvimento Social, Floriano Pesaro, “mais do que um programa, o Equilíbrio inova frente ao problema de crianças/adolescentes em situação de vulnerabilidade social. O objetivo é promover a integração das ações existentes e desenvolver novas e modernas estratégias de atuação com a orientação e fiscalização de profissionais especializados nesta área”.

Atuação conjunta

O grande diferencial do Programa Equilíbrio em relação a outros voltados para esta população é a somatória dos esforços das estratégias de atendimento realizadas por outras instituições municipais ou de ONGs, que serão utilizadas por todos os envolvidos, desde a hora da abordagem das crianças e adolescentes nas ruas até o momento de deixar o abrigo para voltar para casa. O trabalho inclui ainda o desenvolvimento de habilidades com as quais as crianças e jovens possam se identificar para, se for o caso, seguir profissionalmente.

Além dos profissionais de todos os órgãos municipais envolvidos, participam da iniciativa a equipe do Projeto Quixote, da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, que já atua há 10 anos na abordagem de crianças e adolescentes que vivem nas ruas de São Paulo. Outro parceiro nesta empreitada é o Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, com ampla experiência no tratamento de crianças e adolescentes, especialmente adolescentes com dependência de drogas e outras doenças psiquiátricas. Segundo a coordenadora Sandra Scivoletto, os casos mais graves de dependência serão encaminhados para tratamento especializado no Instituto.

Atividades recreativas supervisionadas

Para facilitar a reaproximação das famílias com as crianças e adolescentes que estavam nas ruas, as equipes envolvidas no Programa Equilíbrio proporcionarão esta interação utilizando recursos como atividades esportivas e culturais. Será oferecida ainda orientação, ajuda psicológica e emocional para os parentes, além de outros encaminhamentos de que possam necessitar.

O local escolhido para a realização das atividades esportivas e culturais é o Centro Esportivo Raul Tabajara, cedido pela Sub-Prefeitura da Sé especificamente para o programa. O centro será inteiramente restaurado e adaptado com recursos da Fundação Vale do Rio Doce, captados por meio da Fundação Mario Covas. A reforma, que deve começar no início de fevereiro, deve levar cerca de um mês, e oferecerá amplas condições para que os jovens e seus familiares desenvolvam atividades esportivas, culturais, de arte-terapia, teatro e música.

Locais como esse são considerados ideais para a retomada do contato com a família porque seu ambiente é “neutro”, propício para as várias atividades conjuntas. Além disso, estão sob constante supervisão da equipe especializada.

A equipe multidisciplinar do programa orientará e capacitará os educadores, que vivem o dia-a-dia com os jovens nos abrigos e casas de acolhida, pois o convívio diário com estas crianças e adolescentes é muito complexo e requer uma ação supervisionada e qualificada constantemente. Esta equipe também será responsável por supervisionar a implantação do trabalho de equipes nos CRECAs e abrigos já existentes, e ainda a abordagem feita pelos agentes de proteção Social da Central de Atendimento Permanente e de Emergência (CAPE).
Autor: Programa Equilíbrio
Fonte: OBID