O avanço no consumo – A juventude das ´baladas´

“Nossa vida é um presente de Deus, e o que fazemos com ela é o presente que damos a Deus”. (são João Bosco)

O aumento no consumo e no contrabando das drogas pode ser medido pelo número de apreensões, acidentes, crimes e prisões que, nestes últimos anos acusa percentuais elevadíssimos. Tanto os jovens da classe alta como os da periferia, se confessam usuários, a maioria inclusive na dependência e poliusuária, isto é, usando várias substâncias ao mesmo tempo ou separadamente. De acordo com pesquisas feitas pela internet e por sites de relacionamentos, como o Orkut, em maio do ano passado os entrevistados, mais da metade, têm nível superior incompleto, e confessam que usam a droga para “pirar”. Uma outra abordagem foi feita nos locais de maior consumo, como clubes, boates, discotecas e as modernas raves (festas tocadas com música eletrônica). Seria o caso de reunir os proprietários das casas noturnas para discutir medidas de prevenção que poderiam adotar, com a distribuição de panfletos informativos sobre os riscos, dicas para minimizar seus efeitos, tais como o consumo de água e a não associação com o álcool e outras drogas.

A droga em maior ascensão hoje e a mais consumida nas baladas é o ecstasy. A bala, como é chamada, foi inventada pela multinacional farmacêutica Merck, em 1914, como moderadora do apetite, mas nem chegou a ser comercializada. Até a década de 1970 ficou na gaveta, quando foi usada como coadjuvante em psicoterapias, especialmente nos Estados Unidos. Tornou-se popular em 1980, em Ibiza, na Espanha, ao ser consumida em baladas.

O MDMA (3,4 metilenodioxianfetamina), ou ecstasy, estimula a liberação da serotonina, um neurotransmissor que promove a comunicação entre os neurônios, embora outros neurotransmissores também sejam afetados: a dopamina e a noradrenalina. Seus efeitos, que podem levar à morte, caracterizam-se pelo aumento dos batimentos cardíacos e da pressão sanguínea, alterações no metabolismo, aumento da temperatura do corpo, tensão muscular, visão embaralhada, náuseas, fraqueza e suor excessivo. As respostas psicológicas incluem ansiedade, hiperatividade, confusão e depressão. Ambos os tipos podem durar dias e até semanas.

Os dados técnicos, colhidos para esclarecimento, apontam os estragos produzidos, cujos estudos e efeitos a longo prazo ainda continuam por falta de exames clínicos. Comercializada desabridamente pelos freqüentadores de altas posses, por ser bastante cara, ela constitui, atualmente, o hit das baladas.
O testemunho de um rapaz de 28 anos que se interessou em conhecer esses antros de dissolução vem a calhar. Inteligente e centrado, dotado de personalidade e com boa formação, inclusive espiritual (sem dúvida, o principal alicerce), suas observações reforçam a preocupação quanto ao avanço fatal desse caminho sem retorno. “Nas festas noturnas, generalizou-se o uso do álcool, do cigarro e da maconha, agora o ecstazy, a droga da moda e dos ricaços. São estes que sustentam o tráfico. Existem as exceções, é claro. Na minha geração, havia sempre uma preocupação com as conseqüências, um certo respeito que hoje não há. Eu percebo uma massificação de conduta que, no fundo, está indicando uma tentativa de suprir as carências. Uma fuga da realidade sem ideais e sem objetivos, destituída de algo maior, de sentimentos construtivos quanto ao amor e à constituição de uma família. O que caracteriza um usuário do ecstazy é o egocentrismo. Eles, mesmo em grupos, não se falam, não se comunicam. Manifestações, beijos ou trocas de carícias não é com eles. A impressão é a de uma completa inibição da libido. A droga não é consumida para as orgias sexuais. Agitam-se e dançam sem parar ao som de arrebentar os decibéis, mas não interagem. Porém, o que mais assusta é o consumo das meninas, cujo número equivale ou ultrapassa o dos rapazes. Na realidade, as drogas, todas elas, mesmo em pequena quantidade levam à dependência e encorajam a transgressão, a violência e o crime”.

O problema tem raízes muito profundas, envolvendo distorções psíquicas e emocionais, todo um contexto social ligado à formação familiar, à escola e aos meios de comunicação; trata-se de uma conscientização abrangente que, ao que tudo indica, o Brasil ainda não se preparou para enfrentar, pois tudo continua como antes, e cresce, no “quartel de Abrantes”. Pais, educadores, formadores de opinião, jornalistas e repórteres, todos aqueles que, de uma forma ou de outra participam de ações dentro da coletividade, precisam adotar atitudes mais condizentes e positivas com a realidade difícil que atravessamos. A conivência, o permissivismo, a omissão “light” e moderninha do “deixa estar”, o incentivo ao sexo e à transa imoderada e irresponsável, todos esses fatores vêm redundando numa situação angustiante de violência e terror, de mortes prematuras, no fundo, no fundo, a soma de uma terrível carência de valores e de sentimentos que dão sentido à vida!

No próximo segmento desta série, apontaremos uma outra face da juventude, aquela que, em tempo, adotou um outro estilo de vida e está salva da infernal condenação das drogas e da prostituição.
Myria Machado Botelho é escritora
Fonte:Jornal de Piracicaba