Exposição à maconha durante a gravidez altera o comportamento neurológico no período neonatal

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A cada ano, aproximadamente 900.000 adolescentes ficam grávidas nos Estados Unidos. Apesar da diminuição nas taxas de gravidez na adolescência, aproximadamente 4 em 10 adolescentes ficam grávidas, pelo menos uma vez, antes dos 20 anos de idade. Em 1992, para cada 1000 mulheres entre 15 a 19 anos, havia 4 nascimentos no Japão, 8 na Holanda, 33 no Reino Unido, 41 no Canadá e 61 nos Estados Unidos. A gravidez na adolescência tem sido associada com pobreza, indivíduos solteiros, baixo nível educacional, uso do tabaco, uso de drogas, e cuidado pré-natal inadequado. Dos 3.059.402 nascimentos registrados em 2002, 23% das mães tinham idade entre 10 e 19 anos.

Estudos do Departamento de Saúde e, Abuso de Substâncias dos Estados Unidos, revelou que o abuso de drogas ilícitas durante a gestação ocorre em 3.3% das mulheres americanas sendo que 80% estão relacionados ao uso de maconha. De acordo com o Estudo Nacional Domiciliar sobre Abuso de drogas realizado nos EUA, 2.8% de mulheres grávidas usavam drogas ilícitas.A maconha é usada por 75% destas mulheres durante a gestação, e mais de 50% também usam álcool e tabaco juntamente à maconha.
No Brasil, os dados a respeito do abuso de drogas durante a gestação são escassos e focados principalmente no abuso da cocaína. Estudo brasileiro realizado em uma maternidade de São Paulo, em 1997, encontrou que dos 2173 recém nascidos avaliados, 1.4% das mães faziam uso de drogas. A maconha foi utilizada por 36% das mães.

Os efeitos no feto e no neonato provenientes do abuso de drogas materno dependem de diversos fatores, incluindo os efeitos das drogas por si só e de outras variáveis como a nutrição, o risco de doenças sexualmente transmissíveis, a qualidade do cuidado pré-natal, e outros fatores.
O objetivo deste estudo foi comparar o comportamento neurológico das crianças recém-nascidas de termo, no segundo/ terceiro dia de vida, filhas de mães adolescentes que fizeram uso de maconha durante a gravidez.

MÉTODOS

Este estudo foi realizado no Hospital Maternidade Mário de Moraes Altenfelder Silva, situado na cidade de São Paulo. Foram incluídos no estudo recém nascidos de termo filho de mães adolescentes entre 10 e 20 anos de idade, com idade gestacional entre 37 e 41 semanas. Foram excluídos neonatos com condições que pudessem interferir na avaliação neuro-comportamental como: material sorológico materno positivo para sífilis, toxoplasmose, citomegalovírus, ou HIV; uso materno de opióides sedativos e ou anti-convulsivantes 24 horas antes do parto; uso sistêmico de anestesia durante o parto; Apgar de 3 em 1 minuto ou de 7 em 5 minutos de vida; principais malformação congênita; exposição fetal ao tabaco (algum cigarro), ao álcool (mais de 1 ocasião/ mês), à cocaína, e/ou a outras drogas ilícitas; e neonatos com necessidade de monitoramento dos sinais vitais, oxigênio, incubadoras, infusão venosa, fototerapia , ou medicamentos no dia do estudo.

Recém nascidos e suas mães foram estudados por um grupo de neonatologistas, psicólogos e psiquiatras. Um neonatologista entrevistou a mãe, coletando dados relativos a suas características sóciodemográficas e obstétricas, psicólogos administraram uma entrevista clínica e diagnóstica para transtornos mentais (CIDI, Composite International Diagnostic Interview). O neonato teve uma avaliação clínica relacionada ao nascimento e ao curso clínico. Um neonatologista executou uma avaliação neuro-comportamental do neonato usando a escala (Neonatal Intensive Care Unit Network – Neurobehavioral Scale – NNNS). O NNNS avalia a integridade neurológica, função comportamental, e a presença do stress e sinais da abstinência no neonato. Durante a avaliação do NNNS, todos os examinadores eram cegos para exposição da criança a drogas durante a gravidez.

Além dos questionários, foram coletadas amostras de cabelo materno para detecção de maconha e da cocaína, assim como amostras de mecônio do neonato.

DISCUSSÃO

A elevada taxa de gravidez na adolescência verificada neste estudo (25% de todas as mulheres grávidas admitidas ao hospital) foi similar às taxas encontradas em outros estudos nacionais.
O uso de maconha nesta população de adolescentes grávidas foi de 4.6%, quase o dobro do encontrado em jovens americanas. Isto mostra que somente 1 entre 26 mães que usaram a maconha durante a gravidez revelou este fato durante a entrevista, apesar dos entrevistadores serem psicólogos treinados em aplicar questionários.

A identificação de usuários de maconha a partir de testes toxicológicos que utilizam como amostra cabelo materno, demonstram utilização da maconha por um período de 3 a 5 meses antes do parto. A contaminação do cabelo por maconha foi evitada pela lavagem rigorosa com metanol antes da análise das amostras.

A correlação entre a verificação de uso da maconha a partir do cabelo materno com os testes nas amostras de mecônio fetal foi fraca. Isto ocorreu provavelmente porque a análise do cabelo pode detectar o uso da maconha durante meses antes do parto, enquanto que a análise do mecônio foi verificada em uma única amostra coletada nos 2 primeiros dias da vida.

A exposição fetal prolongada à maconha pode ocorrer se a mãe fizer uso regular da droga, isto porque o tetrahidrocanabinol – THC, cruza a barreira placentária e pode ser detectado em tecidos fetais até 30 dias depois que do uso de droga pela mãe. Uma associação negativamente fraca entre o uso da maconha e o comprimento neonatal foi relatada. Uma meta-análise de 10 estudos encontrou que o uso materno de maconha em uma freqüência de 4 ou mais vezes por dia reduziu o peso do nascimento em 131 g. Nossa análise não encontrou nenhuma diferença com relação ao peso do nascimento, comprimento e circunferência da cabeça dos neonatos de termo expostos ou não expostos a maconha. Foi observada uma redução do período de gestação de 0.8 semana e uma incidência de 25% de partos prematuros em mulheres que fumaram maconha 6 ou mais vezes por semana.

O THC ativa a transmissão mesolímbica dopaminérgica no sistema nervoso central; esta atividade durante a vida fetal pode ser relacionada à alteração neuro-comportamental nos primeiros dias da vida. Conseqüentemente, o objetivo dos autores do estudo foi estudar tais alterações neurocomportamentais nos primeiros dias da vida do neonato e relacioná-los ao uso de maconha durante a gestação. Para isto foi utilizado o NNNS. Esta escala foi desenvolvida para avaliar de modo prospectivo, os efeitos da exposição neonatal às drogas durante a gestação. Os resultados mostram que a exposição à maconha durante a gravidez esteve associada com mudanças comportamentais súbitas, especialmente em termos de excitabilidade, alerta e capacidade de perceber e responder aos estímulos. Tais alterações podem potencializar ou interferir na interação dos neonatos com suas mães.

Outros estudos também encontraram prejuízo do desempenho neuro comportamental em neonatos expostos a maconha durante o gestação.

Um estudo observou um exagerado e prolongado tempo de repostas aos estímulos externos, com reflexo motor aumentado e capacidade visual diminuída em neonatos expostos a maconha durante a gravidez. Outro estudo avaliou os efeitos do uso de drogas pelas mães durante a gestação em 107 neonatos em 2, 14, e 28 dias de vida. A exposição da maconha durante a gestação esteve associada a uma capacidade diminuída de focar e seguir estímulos externos em neonatos com 14 dias de vida, assim como, maior dificuldade em regular o estado de alerta em 28 dias.
Um estudo de 1988 mostrou que os neonatos expostos a maconha durante a gestação demonstram mais distúrbios no sono que neonatos não expostos.

Um estudo sobre os efeitos da maconha em neonatos filhos de mães jamaicanas (local onde a maconha é de uso cultural, medicinal, e religioso) não encontrou nenhuma anormalidade neuro-comportamental no terceiro dia de vida de recém nascidos expostos a maconha durante a gestação; no entanto, em 30 dias de vida, estas crianças tiveram melhor desempenho do comportamento em termos de estabilidade da autonomia e controle da excitabilidade e alerta. Os autores sugeriram que o desempenho melhorado no fim do primeiro mês de vida esteve provavelmente relacionado aos fatores ambientais, porque as usuárias de maconha na Jamaica têm status sócio-econômico e educacional melhor. Estes 3 estudos não aplicaram o NNNS, e o tratamento estatístico dos fatores de confusão variaram. Os resultados apresentados neste estudo são consistentes com a ação da maconha no sistema nervoso central durante a gestação e com as conseqüências comportamentais documentadas após o nascimento. A atividade na via dopaminérgica mesolímbica durante a vida fetal e período neonatal puderam modificar a função do sistema nervoso neste período.

Na idade escolar, crianças expostas a maconha durante a gestação têm uma prejuízo da visão espacial e diminuição da atenção e do controle dos impulsos ,especialmente na capacidade de planejar e testar hipóteses e resolver problemas. O fato de terem nascido de mães adolescentes e solteiras pode, em parte, explicar os resultados comportamentais dessa avaliação. Os resultados do NNNS provenientes de neonatos não expostos a maconha foram comparáveis aos resultados apresentados em estudos com neonatos saudáveis filhos de mães não adolescentes para as seguintes funções: atenção, alerta, resposta aos estímulos, excitabilidade, letargia, hiper e hipotonicidade.

O estudo atual apresenta importante rigor metodológico o que dá força aos achados, mas sua principal limitação é o fato de ser um estudo transversal, ou seja que avalia a amostra em um determinado período do tempo, impossibilitando a especulação sobre conseqüências neuro-comportamentais de longo prazo nos neonatos expostos a maconha no útero materno.
Apesar desta limitação, a avaliação de NNNS é uma ferramenta eficaz para identificar as mudanças relacionadas ao abuso da maconha durante a gravidez. É necessário desmitificar a concepção de que a maconha é “uma droga benigna” e educar as mulheres a respeito dos riscos e das conseqüências possíveis relacionados ao uso de maconha durante a gravidez.

MARINA CARVALHO DE MORAES BARROS
RUTH GUINSBURG
CLOVIS DE ARAÚJO PERES
SANDRO MITSUHIRO
ELISA CHALEM
RONALDO RAMOS LARANJEIRA

(J Pediatr 2006;149:781-7)
Fonte:Site Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas)/Programa Álcool e Drogas (PAD) do Hospital Israelita Albert Einstein