Entrevista com Dr. Paulo César Pinho Ribeiro – Bebidas alcoólicas é uma ameaça


Presidente do Núcleo Científico do Departamento de Adolescência da Sociedade Brasileira de Pediatria. Médico pediatra e clínico de adolescentes, Referência Técnica em Adolescência da Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais, Preceptor do Curso de Especialização “lato sensu”em Adolescência da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, Presidente do Núcleo Científico do Departamento de Adolescência da Sociedade Brasileira de Pediatria, Coordenador das Comissões de Estudos do Comitê de Adolescência da Associação Latino-americana de Pediatria – Alape e Mestre em Ciências da Saúde da Criança e do Adolescente pela Universidade Federal de Minas Gerais.

1- Em que medida o uso de bebidas alcoólicas é uma ameaça à saúde das crianças e jovens brasileiros?

O uso de álcool, durante a gravidez, pode ser a causa de doenças no recém-nascido e na criança. A Síndrome Fetal Alcoólica, conhecida pela sigla SFA, é a mais grave delas, acarretando déficit intelectual, problemas de aprendizado e transtornos de comportamento nas crianças para o resto da vida. Os recém-nascidos, que apresentam SFA, têm sinais de irritação, mamam e dormem pouco, apresentam tremores (sintomas que lembram a síndrome de abstinência), podem apresentar anormalidades físicas (malformações congênitas), comprometimento mental, problemas de comportamento e desordens neuropsicomotoras.
Interações medicamentosas – O álcool reage negativamente com várias substâncias, podemos citar mais ou menos 150 medicamentos. Medicamentos antialérgicos, do grupo dos anti-histamínicos, têm o efeito de sonolência potencializado pelo álcool tornando a direção e a operação de máquinas ainda mais perigosas.

O acetaminofeno usado junto com o álcool pode ser prejudicial ao fígado, citando algumas dessas interações.
Bebida e dirigir veículos – a quantidade de bebida alcoólica, mesmo em pequena quantidade, compromete a capacidade de dirigir veículo. Sabemos que certas habilidades para dirigir, como o manejo do volante, ao mesmo tempo em que se presta atenção ao tráfego, pode ser prejudicado por pequenas concentrações de álcool no sangue. É importante frisar que 75% dos acidentes fatais de trânsito, muitos deles com mortes (aproximadamente 29.000 mortes/ano segundo os dados da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas) e seqüelas de deficiências múltiplas, têm como causa o álcool. No último triênio, foram gastos R$ 310 milhões relativos a internações decorrentes do uso abusivo e da dependência do álcool, segundo o Ministério da Saúde (Revista Canal Médico, edição de agosto de 1.999).

Sabemos que 18 em cada 100 brasileiros são dependentes de bebidas alcoólicas e que as pesquisas recentes mostram que o hábito de beber entre crianças e adolescentes não pára de crescer. O uso precoce do álcool, como vem acontecendo, pelos adolescentes (idade de início média de 13 anos como encontrei em minha tese de mestrado), antecipa os riscos graves à saúde: hepatite alcoólica, gastrite, síndrome de má absorção, hipertensão arterial, acidentes vasculares, cardiopatias (aumento do ventrículo esquerdo com cardiomiopatias), alguns tipos de cânceres (esôfago, boca, garganta, cordas vocais, câncer de mama nas mulheres e o risco de câncer no intestino), pancreatite e polineurite alcóolica (dor, formigamento e câimbras nos membros inferiores). É importante destacar que no caso das mulheres essas manifestações são mais precoces.
Resumindo, o uso de álcool pelas crianças e adolescentes, além dos prejuízos à saúde física, expõe crianças e adolescentes às mais variadas situações de riscos, já que a substância tem como efeito diminuição do “limiar de censura” que, somados à onipotência pubertária e sentimento de indestrutibilidade e invulnerabilidade nesta fase, faz com que muitas vezes, suas vidas sejam interrompidas ou prejudicadas pelo uso desta substância.

2- Que orientações a Sociedade Brasileira de Pediatria dá para seus associados com relação a este problema?

São inúmeras as publicações da Sociedade Brasileira de Pediatria para os seus associados. Publicações oriundas de membros participantes de seus vinte e sete departamentos. Citando algumas: Guia de atuação frente a maus-tratos na infância e adolescência; Guia de adolescência: crescer e viver com saúde; Projeto Diretrizes; Fascículos para atualização em imunização/linha vacinas; Esporte como instrumento de promoção da saúde; Escola promotora de saúde; Segurança na prática de esportes – crianças e adolescentes; Guia nacional de prevenção e tratamento do tabagismo; Temas de nutrição em pediatria e TEP comentado; Classificação internacional de doenças e agenda SBP; Curso: antimicrobianos na prática clínica pediátrica – guia prático para manejo no ambulatório; Programa de atualização em neonatologia; Correios e documentos científicos; Programa nacional de educação continuada; Asma pediátrica; Direitos da criança e do adolescente hospitalizados; Os 10 passos para a atenção hospitalar humanizada à criança e ao adolescente; Inclusão da Adolescência na residência médica de pediatria; Prevenção de acidentes na infância e adolescência; Passaporte para a segurança; Guia de defesa profissional; Pesquisa perfil do pediatra brasileiro; várias publicações de incentivo ao aleitamento materno e muitas outras.

Como Presidente do Departamento de Adolescência da SBP tenho como proposta para a gestão 2004/2007 elaborar documento dirigido aos pediatras, documento a ser produzido com a colaboração de todos os membros dos comitês estaduais de adolescência e contribuições de profissionais de reconhecido saber na área, tratando não só das questões de prevenção, mas de apoio a estratégias que possam coibir o uso do álcool, a saber: fiscalização maior no trânsito; restrição de propaganda de álcool; aumento da taxação; restrição de veiculação de imagens de personalidades públicas bebendo; advertência sobre os riscos do álcool; campanhas à população; divulgação de dados estatísticos; proibição de patrocínio em eventos esportivos e culturais; redução do teor alcoólico nas bebidas e proibição de venda para menores de 21 anos.
Saliento a importância do pediatra na prevenção do uso de drogas, incluindo o álcool. Os pediatras, ao iniciarem esse trabalho em idade pré-púbere, na qual as crianças escutam mais os adultos, podem com as suas informações mudar o rumo da vida de muitos adolescentes. Os pais sempre recorrem aos pediatras, não só em questões envolvendo as práticas curativas e preventivas da especialidade, mas também solicitando ajuda no que diz respeito a atitudes, educação e formação de seus filhos. Durante as consultas pediátricas, os pais se mostram mais receptivos e daí o papel importante do pediatra nas práticas educativas e preventivas.

3- Que recomendações o senhor daria para os pais com relação à prevenção do uso precoce e excessivo de bebidas alcóolicas por seus filhos?

Trabalhar a prevenção é de grande importância. Entretanto, só alertar as crianças e adolescentes sobre as sérias conseqüências do uso do álcool não é suficiente. Sabemos que entre a informação que as crianças e os adolescentes recebem, a introjeção das informações e a exteriorização em ações e atitudes há um longo caminho. Há que se trabalhar a proteção interna contra o uso do álcool, o que depende da educação que recebem.
A melhor proteção interna para os filhos é a sedimentação de valores para que não sofram influências negativas pelos outros. Lembrar aos jovens que, pelo princípio da “alteridade” somos distintos do outro e podemos conviver em grupo e em sociedade, mas sem precisar agir como o grupo, principalmente em comportamento negativo.
Outra questão importante é passar corretamente aos jovens o conceito de “liberdade”, que traduzo como consciência de limites – saber até onde posso ir, sem me prejudicar ou prejudicar ao próximo. E esta questão do limite tem que se iniciar desde os primeiros momentos da vida. No dizer do Dr. Içami Tiba “a hipersolicitude dos pais, dar antes mesmo da criança pedir, somada à falta de não e ao excesso de sim, impossibilita o surgimento da disciplina, da gratidão, da religiosidade, da ética e da cidadania”.

Tenho certeza que todas as estratégias de combate ao uso de drogas, lícitas (fumo, tabaco, anorexígenos e outras) e ilícitas devem ter por base: a imposição de limites, o exercício da autoridade, a sedimentação de valores internos, a auto-estima positiva, o sentimento de pertencimento à família, o princípio da alteridade, a referência positiva dos pais, o combate à ociosidade, a proteção da escola e do esporte, a religião e a amorosidade, citando apenas algumas das ações.

4- O que precisa melhorar no sistema de saúde para que este forneça uma atenção mais efetiva e de qualidade para promover a saúde entre os jovens?

O Brasil é um país de grande extensão territorial com uma população de adolescentes e jovens que atinge, atualmente, cinqüenta milhões. Com este quantitativo fica difícil para o sistema de saúde cobrir toda esta demanda e extensão territorial.
Propostas de atenção integral ao adolescente existem desde 1974/75, propostas do Ministério da Saúde, da Sociedade Brasileira de Pediatria, das Universidades, das Secretarias Estaduais da Saúde e outras, todas abraçadas por profissionais idealistas e competentes.
No dizer de Gallagher, “a história e a evolução de medicina do adolescente mostram que a abordagem é semelhante à pediátrica e à geriátrica; generalizada e multidisciplinar, em que o médico leva em consideração o estágio de desenvolvimento, as características, as necessidades e o ambiente de seus pacientes, assim como suas doenças. Também, tornou-se evidente que a maioria dos adolescentes responde favoravelmente a médicos que os respeitem e que estejam querendo escutá-los. Felizmente, a medicina do adolescente se desenvolveu em atmosfera de cooperação entre médicos e outros profissionais de saúde que se interessavam por várias áreas da medicina. Sem essa cooperação, os médicos teriam perdido muitas oportunidades de melhorar a qualidade de assistência aos pacientes, de ensino e de pesquisa”.

Estender esta atenção integral ao adolescente e ao jovem a todo o território nacional, criar linhas-guias e protocolos de atendimento, respeitando as realidades locais e tendo um sistema de rede intersetorial reunindo todas as ações, seria o sonho realizado de todos aqueles que se dedicam ao estudo e ao atendimento de adolescentes e jovens.
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool