Abuso de medicamentos vai superar o de drogas ilícitas

O abuso de medicamentos legais com receita, em especial remédios para emagrecer, está prestes a superar o consumo de drogas ilícitas, segundo o boletim anual da Junta Internacional de Fiscalização de Estorpecentes – JIFE, publicado em Viena. Segundo o documento, o Brasil e a Argentina estão entre os países mais afetados por essa tendência, enquanto o Chile reduziu seu consumo.

“A maioria dos países não se dá conta da amplitude desse desvio e de seu abuso”, apesar da multiplicação das mortes relacionadas a elas, afirmou Philip Emafo, Presidente do órgão ligado à Organização das Nações Unidas – ONU, referindo-se aos medicamentos com receita. “As receitas legais de fentanilo (um opiáceo 80 vezes mais potente que a heroína) triplicaram desde 2000 no mundo”, declarou Emafo.

Em algumas regiões, o abuso de medicamentos com receita médica superou o de drogas ilícitas, como heroína e cocaína, principalmente na América do Norte e na Europa. Nos Estados Unidos, o abuso de analgésicos se tornou habitual entre os estudantes. Países como a Índia e a Nigéria também estão enfrentando um rápido crescimento.

A JIFE acredita que na França, um quarto das receitas de buprenorfina, um analgésico, é desviado para o mercado ilícito, e às vezes exportado. Outro fenômeno recente é o uso excessivo de anorexígenos, produtos para emagrecer, cujos perigos vão da dependência à morte.

Essas substâncias “são, atualmente, utilizadas indiscriminadamente para alimentar a obsessão pelo emagrecimento em algumas sociedades”, explicou Emafo. Os países mais afetados, em ordem decrescente, são: Brasil, Argentina, Coréia do Sul, Estados Unidos e Cingapura.

A JIFE também afirma que o Chile, a Dinamarca e a França têm “diminuído consideravelmente” o consumo dessas sustâncias devido a um controle mais restrito.

Ao mesmo tempo, o desvio de medicamentos com receita, a venda ilegal de produtos farmacêuticos, inclusive por meio da internet, continua com “a chegada ao mercado de quantidades maiores e mais variadas”. Segundo a Junta, o número de “ciberfarmácias” ilegais segue crescendo, com dezenas de milhares atuando pela internet.

Cerca de 84% delas comercializam medicamentos à base de benzodiazepinas e 68% de opiáceos, de acordo com estimativas. “Esses medicamentos podem vir de roubos, de desvios e também de vendas ilícitas por parte dos fabricantes”, destacou Efamo.

O mesmo ocorre nos países em desenvolvimento, onde, segundo a Organização Mundial da Saúde – OMS, até 50% dos medicamentos podem ser pirateados, de validade estourada ou imitações de qualidade, segurança, eficácia, origem e posologia desconhecidos”, concluiu.
Fonte: Correio Web