Dados sobre o abuso de álcool pautarão projetos de trânsito

Por não prever punição aos motoristas embriagados, o nível de rejeição esteve abaixo do esperado. Os dados vão mostrar como lidar com esse tipo de problema em benefício da segurança da população.

“Ninguém bebe só um pouco. Você dá um gole, dá outro, três, quatro e quando você bebe, prejudica. Quando eu bebo, deixo o carro parado. Até durmo dentro do carro, mas não dirijo. A maioria das pessoas não tem essa atitude, porque o álcool estimula a dirigir e achar que sempre está bem”, avalia Gustavo de Souza que participou da blitz promovida pela Prefeitura de São Paulo na sexta-feira, na Avenida Robert Kennedy, em Interlagos.

Por se tratar de uma ação educativa e de pesquisa, que não pune os motoristas embriagados, o nível de rejeição esteve abaixo do esperado. “Esperávamos uma recusa maior, mas não tivemos nenhum problema, as pessoas estão colaborando bastante”, avaliou Sergio Duailibi, médico da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas – UNIAD da Unifesp, e um dos coordenadores do estudo.

Nas “batidas” pedagógicas anteriores, realizadas em novembro do ano passado, foram avaliados 687 motoristas e apontou que cerca de 18% haviam ingerido álcool acima do aceitável, número próximo ao de outras cidades brasileiras que participam da ação, como Belo Horizonte, Diadema e Santos. Pelo Código Nacional de Trânsito, uma pessoa não pode dirigir com um nível de alcoolemia superior a 0,06 grama por litro de sangue. Além disso, 21,4% registraram níveis alcoólicos entre 0,01 e 0,05g/l. O número é alarmante, já que a pesquisa, realizada nos mesmos moldes em outros países do mundo, costuma apresentar médias entre 2% e 3% de motoristas com níveis de alcoolemia acima do permitido.

“Temos dados da Austrália, Estados Unidos, Londres, México, todos com índices muito mais baixos do que a Cidade apresenta até agora”, afirma José Florentino, secretário-executivo do Conselho Municipal de Drogas e Álcool de São Paulo – Comuda. “Acreditamos que esse número, quando chegarmos à meta de 2.500 carros da pesquisa, deverá cair, mas ainda é cedo para falar”, acrescenta.

Florentino explica que, com os dados da pesquisa, será possível ajustar as políticas públicas e promover eventuais mudanças na legislação para reverter esse número. “Gostamos de citar o caso do cinto de segurança. No início, ninguém gostava, mas, quando começou a multar, todo mundo passou a usar. Isso vai ter de acontecer também em relação à bebida alcoólica, ter punições mais duras, mais pesadas”.

O secretário especial de Participação e Parceria explica: “Quando a pesquisa terminar, vamos nos reunir em São Paulo e distribuir toda a tabulação, todo o resultado da pesquisa, feita também em outras cidades, para todo o Legislativo Municipal, Estadual e Federal, para os Executivos também, para os Conselhos, para que diante dessa realidade possam tomar algumas atitudes com relação à política pública e a projetos de lei. Esses dados vão mostrar um pouco como a gente pode lidar com esse tipo de problema em benefício da segurança da população”.

Sérgio Duailibi afirma que vários estudos mostram os riscos de beber e dirigir, pois mesmo baixos níveis de álcool no sangue são suficientes para diminuir a eficiência cerebral, ocular e a resposta muscular. Ainda de acordo com o pesquisador, o consumo de bebidas alcoólicas pode reduzir a visão noturna em 25% e a velocidade do tempo de reação entre 10% e 30%. “Estes efeitos são mais intensos em adultos jovens. O risco de acidentes aumenta após uma única dose de bebida, dobra após duas doses e aumenta dez vezes após cinco doses”, explica.
Fonte:Agência Brasileira de Notícias