ONU relata aumento do tráfico de ópio no Afeganistão

O cultivo de papoula –matéria prima do ópio– no Afeganistão poderá se expandir em 2007 após uma safra recorde em 2006, afirmou nesta sexta-feira a agência da ONU que investiga drogas. O relatório da ONU destaca o fracasso de uma iniciativa internacional que luta contra o tráfico de narcóticos crescente no país.

A Agência para Drogas e Crimes da ONU (UNODC) prevê um aumento da papoula em um círculo de Províncias afegãs, inclusive Helmand, no sul, onde há a mais extensa área de cultivo no país.

O sul é também onde a guerrilha Taleban [grupo extremista islâmico deposto por uma coalizão liderada pelos EUA no final de 2001, que controlava mais de 90% do Afeganistão] age com mais intensidade em sua oposição às forças estrangeiras no país.

Em um relatório divulgado hoje, a agência disse que uma recente pesquisa da ONU encontrou provas crescentes de que o tráfico de drogas floresceu em regiões afegãs onde a segurança é baixa.

“A pesquisa deste inverno sugere que o cultivo de ópio no Afeganistão em 2007 poderá superar a colheita recorde de 165 mil hectares em 2006”, afirmou o diretor executivo da UNODC, Antonio Maria Costa, no prefácio do documento.

No último ano, o cultivo de ópio cresceu alarmantes 59%, aprofundando temores de que o Afeganistão esteja se tornando um “narco-Estado”. Relatórios oficiais afirmam que militantes talebans protegem fazendeiros no sul do país e usam os lucros do comércio da droga para sustentar a insurgência.

Cultivo

Segundo a ONU, o cultivo de papoula ocorre em 100% dos vilarejos visitados na Província de Helmand e em 93% das vilas da Província vizinha de Candahar (ex-bastião do Taleban). O relatório não diz quantas vilas foram visitadas.

O documento prevê ainda um grande aumento do cultivo em Nangarhar –citado em anos recentes como um exemplo de sucesso nos esforços para convencer fazendeiros a cultivarem grãos permitidos– assim como nas Províncias de Kunar e Uruzgan.

No norte do Afeganistão, a ONU relatou uma queda no cultivo em sete das Províncias, e há indicações de uma cisão entre os comportamentos verificados no norte e no sul do país.

“Há provas de que a economia do ópio no Afeganistão está se tornando segmentada, com as atitudes dos fazendeiros, condições de fornecimento e preços se movendo em direções opostas no norte e no sul”, afirmou Costa.

Política

O presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, prometeu livrar o país do ópio. Doadores internacionais direcionaram centenas de milhões de dólares em ajuda financeira para o desenvolvimento de áreas rurais, em uma tentativa de tornar o cultivo de substâncias legais lucrativas para os fazendeiros. Times de erradicação da droga têm a missão de destruírem o ópio nos campos antes da colheita.

Para os críticos, elementos corruptos no governo do Afeganistão e nas forças de segurança locais estão envolvidos no tráfico de ópio e não vão permitir a organização de uma operação séria para acabar com o cultivo da droga.

O relatório da ONU também apontou para uma “nova e perturbadora tendência” no cultivo de drogas afegão –o crescimento dos campos de cannabis (usada na fabricação da maconha).

“A última coisa que o Afeganistão precisa é trocar uma droga pela outra, ou pior, se tornar líder no cultivo tanto de maconha quanto de ópio”, disse Costa.
Fonte: FDolha Online