Diferenças entre homens e mulheres quanto ao ´Beber Pesado´ em uma amostra populacional de São Paulo

O Abuso e a dependência do álcool, por muito tempo, foram considerados um importante tema em termos de saúde pública e na medicina devido a sua alta prevalência e efeitos devastadores no indivíduo, família e sociedade. Ademais, o álcool também é uma das principais causas conhecidas de mortalidade precoce e fator de risco para doenças crônicas. Os transtornos relacionados ao uso do álcool, como abuso e dependência, no entanto, constituem somente uma pequena parcela dos problemas decorrentes do álcool. Um corpo crescente de evidências epidemiológicas tem demonstrado, de modo consistente, que o “beber pesado episódico” está associado a uma gama significativa de situações adversas tais como: danos à saúde física, comportamento sexual de risco, gravidez indesejada, infarto agudo do miocárdio, overdose alcoólica, quedas, violência (incluindo brigas, violência doméstica e homicídios), acidentes de trânsito, problemas psicossociais (ex. na família e trabalho), comportamento antissocial e dificuldades escolares, tanto em jovens como na população em geral. Além disto, o “beber pesado episódico” está associado a um aumento da mortalidade por todas as causas de doenças cardíacas e está relacionado a um risco maior para transtornos psiquiátricos, câncer e doenças gastrointestinais.

Informações gerais sobre o estudo

Diante desse panorama, os autores avaliaram o padrão de beber pesado episódico no banco de dados do projeto São Paulo-ECA (São Paulo Epidemiologic Catchment Area Study), realizado na área de captação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Definição de beber pesado

Beber pesado, também considerado “Binge Drinking” por muitos autores, é definido como o consumo de 5 ou mais doses de bebidas alcoólicas em uma única ocasião por homens, ou 4 ou mais doses de bebidas alcoólicas consumidas em uma única ocasião por mulheres.

Amostra avaliada

Foram estudadas 1.464 pessoas residentes dos bairros de Vila Madalena e Jardim América.

Objetivos do estudo: Foi o primeiro estudo brasileiro em uma amostra de adultos, utilizando o critério de 5+/4+ doses de álcool consumidas em uma ocasião, a partir de uma entrevista psiquiátrica utilizada pela Organização Mundial de Saúde em diversos países.

Resultados do Estudo

– O beber pesado se mostrou um padrão de consumo comum nesta amostra de adultos de São Paulo. 10.7% da amostra faz uso pesado do álcool, sendo 15.4% em homens e 7.2% em mulheres.

– Entre os bebedores pesados, 2 homens para cada mulher bebem neste padrão. Esta proporção é menor do que a encontrada nos EUA, que é de 3 homens para cada mulher. Uma possível explicação para este achado vem do fato de que as mulheres provenientes destes 2 bairros diferenciados de São Paulo apresentam uma maior aceitação cultural do uso pesado do álcool e estão, portanto, mais expostas a acidentes em geral, acidentes de trânsito, contato sexual de risco, gravidez, prejuízos ao feto.

– Mulheres entre 18 e 44 anos de idade e aquelas que não eram casadas, ou seja, separadas, divorciadas, viúvas ou solteiras, foram as que mais fizeram uso do álcool neste padrão.

– Mulheres donas de casa e aposentadas foram as que menos beberam neste padrão, ou seja, são as mais protegidas aos danos relacionados ao beber pesado.

– Entre os homens, o risco de beber pesado esteve aumentado para aqueles entre 18 e 24 anos de idade (1 a cada 3 homens nesta faixa etária bebe neste padrão).

– Entre os homens, o beber pesado se concentrou entre os mais jovens (18 a 24 anos), os quais se mostraram mais expostos a riscos (violência, acidentes de trânsito, faltas ao trabalho).

– Além disto, as maiores taxas de beber pesado em homens foram observadas entre os homens que nunca se casaram (2.3 vezes mais do que os casados), estudantes (23.3%) e de baixa renda (2 vezes mais do que em indivíduos de alta renda).

– 42% dos homens que fazem uso pesado começaram a beber antes dos 18 anos

– A maior parte dos bebedores pesados eram dependentes do tabaco – 21.7% homens e 25.3% mulheres

Título: HeavyEpisodic Drinking in the São Paulo Epidemiologic Catchment Area Study in Brazil: Gender and Sociodemographic Correlates
Autores: Camila Magalhães Silveira, Yuan-Pang Wang, Arthur G. Andrade, Laura H. Andrade
Fonte: Journal of Studies on Alcohol and Drugs, janeiro 2007
IF.: 1,654
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool