Entrevista com Dra. Silvia Brasiliano – Álcool e drogas em mulheres

Psicóloga, Psicanalista, Doutora em Ciências pela Faculdade de Medicina da USP. Coordenadora do PROMUD. Tesoureira da Associação Brasileira de Estudos Multidisciplinares sobre Drogas (ABRAMD). Vice-presidente da Federação Latina das Associações de Psicanálise de Grupo (FLAPAG).
Entrevista publicada em 01/09/2006

1. Qual o perfil do uso de álcool e drogas em mulheres no Brasil?

Há poucos dados epidemiológicos sobre o uso de álcool e outras drogas na população brasileira. O único levantamento nacional existente foi realizado pelo CEBRID em 2001 e apontou que com exceção dos medicamentos (benzodiazepínicos e anfetamínicos), os homens usam mais substâncias psicoativas que as mulheres. Em relação às drogas mais utilizadas pelas mulheres, temos, pela ordem: álcool, tabaco, benzodiazepínicos, solventes, maconha, e anfetamínicos.
A prevalência da dependência é 3 vezes maior nos homens que nas mulheres para o álcool (17.1% x 5.7%) e 5 vezes maior para a maconha (1.6% x 0.3%). Esta relação é invertida somente para os benzodiazepínicos, nos quais a dependência é aproximadamente 3 vezes maior nas mulheres que nos homens (1.5% x 0.7%).

2. A dependência de drogas em mulher tem características diferentes da dos homens?

Atualmente sabe-se que homens e mulheres dependentes apresentam múltiplas diferenças baseadas em uma complexa interação entre fatores sociais, genéticos, hormonais, neurofisiológicos e ambientais. O pequeno espaço desta entrevista não permite que todas estas diferenças sejam discutidas em detalhes; assim, citaremos somente algumas entre as principais:
Mulheres dependentes sempre foram mais estigmatizadas que os homens. Este preconceito esta na base do sub-diagnóstico da dependência entre elas e das múltiplas dificuldades que as mulheres apresentam para procurar ajuda;
O curso e as consequências da dependência de álcool, cocaína, maconha e anfetamina é mais rápido nas mulheres que nos homens, ou seja, elas vivenciam os efeitos dessas substâncias mais precocemente que eles;
O uso de drogas pels mulheres é influenciado pelo contexto social. A princípio, mulheres dependentes têm mais parceiros que são dependentes que o inverso. Além disso, o companheiro usuário não somente introduz e reforça o uso da mulher, mas também ocupa um papel importante na manutenção do seu comportamento. Assim, quando buscam ajuda as mulheres geralmente não contam com esse suporte, ou mesmo, em alguns casos, têm que lidar com a oposição ativa do parceiro ao tratamento. Essa carência de suporte manifesta-se também entte familiares e amigos, o que leva a mulher dependente frequentemente ao isolamento social;
No que diz respeito à problemática geral, enquanto os homens dependentes têm mais problemas legais, as mulheres apresentam mais problemas médicos, dificuldades sociais e familiares (com o preconceito, o companheiro e a maternidade) e sintomas psicológicos, referindo frequentemente baixa auto-estima e comportamento auto destrutivo;
As mulheres apresentam taxas maiores de comorbidade psiquiátrica que os homens, principalmente com depressão, transtornos ansiosos e transtornos alimentares.

3. O tratamento para mulheres deve ser diferente do dos homens? Como o PROMUD trata desse problema?

Todas as diferenças citadas levam a necessidades de tratamento específicas e diversas entre os sexos. Atualmente, já é praticamente consensual na literatura que as mulheres obtêm melhores benefícios quando tratadas em programas exlusivos para elas. Embora ainda sejam escassos os estudos de eficácia terapêutica destes programas, já não há muitas dúvidas de que eles atraem e retêm mais as mulheres, principalmente quando atendem de forma direta e abrangente aos variados aspectos de sua problemática.
Para cumprir com este objetivo o PROMUD conta com uma equipe multidisciplinar com treinamento específico para as questões femininas. Situado no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP, o PROMUD é um programa gratuito e que atende mulheres maiores que 18 anos, predominantemente de forma ambulatorial. Para todas as pacientes é oferecido acompanhamento clínico-psiquiátrico individual, psicoterapia grupal, acompanhamento nutricional e orientação legal, principalmente nas questões relacionadas ao direito de família.

4. Este ano o PROMUD comemora 10 anos. Quais são as principais conquistas e ações deste grupo?

Quando iniciamos o PROMUD há 10 anos atrás haviam muitos mitos em relação as mulheres dependentes de substâncias psicoativas. Como consequência havia um certo descrédito relacionado ao desenvolvimento e a manutenção de um programa exclusivamente feminino. Além disso, os benefícios que as pacientes poderiam obter em um tratamento somente para elas comparativamente às intervenções mistas quanto ao sexo eram somente hipotéticos.
Atualmente, os resultados de nossas pesquisas indicam que, comparativamente a um programa misto quanto ao sexo, o PROMUD atrai de 3 a 4 vezes mais mulheres e têm taxas de permanência em um ano de cerca de 60% (o que é cerca de 3 vezes maior). Além disso, em 6 meses aproximadamente 80% das pacientes estão abstinentes ou têm melhoras importantes no consumo e a mesma porcentagem têm melhoras importantes na qualidade de vida.
No decorrer destes anos tivemos muitas conquistas. A principal delas certamente foi aprender a trabalhar com mulheres dependentes de substâncias psicoativas, já que quando iniciamos haviam poucos modelos onde basear nossas intervenções. Além disso, foi possível ampliar nosso atendimento para dois centros secundários de atendimento, sendo que em um deles, o CAPS-Centro, o programa já esta sendo desenvolvido com sucesso há 2 anos.
Outra conquista importante ocorreu em 2003, quando o United Office for Drugs and Crime (UNODC) escolheu o PROMUD como um dos programas de referência no mundo de tratamento bem sucedidos para mulheres. Atualmente, estamos em busca de recursos para a ampliação de nosso atendimento e para que possamos desenvolver também um programa para gestantes usuárias de drogas (já testado em projeto piloto). Ademais, estamos planejando para o final deste ano a II Jornada do PROMUD, que será parte das comemorações de 10 anos de existência de nosso programa.
Fonte:Site Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas)/Programa Álcool e Drogas (PAD) do Hospital Israelita Albert Einstein