Special K preocupa a Polícia

“A primeira coisa que senti foi uma moleza muito grande. A sensação era de que minhas pernas eram de borracha. Eu estava em uma cama com outras pessoas e de vez em quando aparecia uma mão, uma cabeça que a gente não sabia de quem era. A gente perde noção do que é o nosso corpo.” O depoimento é de uma jovem de 24 anos, estudante universitária, moradora de Brasília, que inalou um medicamento usado para anestesia de animais como substância alucinógena. Ela conta que usou a droga na companhia de quatro amigos e do namorado, depois de saírem de uma festa de música eletrônica, em 2003. Toxicologistas alertam que a substância causa dependência física e psíquica e pode levar à morte.

O pó inalado pelos usuários é uma variação do princípio ativo Ketamina, que inspirou o nome “Special K”. O medicamento é vendido em casas de material agropecuário com a apresentação de receita prescrita por um veterinário. A comercialização e uso da Ketamina não podem ser investigados pela Polícia porque não há qualquer Lei ou determinação do Ministério da Saúde que caracterize a substância como narcóticos. “É um remédio de uso veterinário que está sendo indevidamente usado por pessoas. Não podemos investigar o que não é droga”, alega o Delegado titular da Delegacia de Tóxicos e Entorpecentes – DTE, João Emílio de Oliveira.

Conhecida por Policiais do Rio de Janeiro e São Paulo durante operações de combate ao uso de drogas sintéticas, como LSD e êxtase, começa a ficar evidente a utilização da substância por moradores do Distrito Federal. No início do mês de março, agentes da Polícia Rodoviária Federal – PRF apreenderam 20 caixas do medicamento com um morador do Distrito Federal, durante blitz na BR-060. O rapaz, que se identificou como dentista, contou que conseguiu a droga em Goiânia e trazia para amigos no DF. Ele chegou a ser levado para a 20º Delegacia de Polícia – em Santa Maria, mas foi liberado em seguida. Os medicamentos foram apreendidos e encaminhados para a Polícia Federal, porque não tinham nota fiscal.

Segundo o Policial do Núcleo de Operações Especiais da PRF Marcelo Marra, que participou da blitz, a pessoa que trazia o medicamento confessou que o remédio é comprado mais facilmente em Goiás. “Ele se denunciou com o nervosismo ao ser parado na blitz. Ao revistar o carro , encontramos o medicamento. Foi a primeira vez que nos deparamos com o caso. O rapaz disse que conseguiu comprar com a ajuda de um veterinário em Goiânia”, contou Marra.

Para o Delegado João Quirino Flório, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da PF, a droga é comum no Rio de Janeiro e São Paulo. Ele acredita que esteja se popularizando agora no DF. “Nas outras regiões, o público que geralmente usa são pessoas que gostam de música eletrônica e acreditamos que no DF seja a mesma coisa. Estamos atentos ao uso do medicamento durante as operações”, explica Flório.

“A droga é mortal. É pior do que a cocaína, porque é um produto químico que altera as funções cerebrais. Causa dependência química e psíquica. É um grande perigo”, alerta o Toxicologista Otávio Brasil, do Centro Toxicológico Dr. Brasil, depois de avaliar a substância. Ele explica que a ketamina, ao ser inalada, é absorvida rapidamente pelo corpo. Em cerca de três a quatro segundos o corpo inteiro fica anestesiado. “Uma pessoa com problemas cardíacos pode não suportar o ritmo acelerado da ação do medicamento e morrer na hora. A pessoa também pode se machucar, se cortar durante o efeito da droga e só sentir que quebrou um braço ou perdeu muito sangue, horas depois”, aponta Otávio Brasil.

Ele orienta que pais alertem sempre os filhos. “Já que não existe uma lei que proíba explicitamente o consumo de algo tão nocivo, os pais devem ficar atentos e o perigo dessa droga tem que ser divulgado como uma droga mortal”, ressalta. A Farmacêutica Bioquímica e Perita Criminal da PF, Gabriele Hampel, aponta que a letalidade da droga está diretamente ligada à quantidade e ao estado de saúde da pessoa. “Dependendo da dose que o usuário utiliza, a viagem que ele busca pode ser sem volta. O risco de uma parada cardiorrespiratória é altíssima”, alerta.

O rosto fica com a coloração roxa A temperatura corporal cai. A substância provoca alterações auditivas e visuais. Espasmos musculares – tremedeira. Pode levar à convulsão e à insensibilidade geral dos sentidos. Pode provocar parada cardíaca e até a morte.

Restrições

Anestesiar animais de pequeno, médio e grande portes durante intervenções cirúrgicas é a destinação da ketamina. O medicamento é muito utilizado para realizar cirurgias abdominais, castração e cirurgias ortopédicas. O potencial anestésico e analgésico do medicamento é muito forte. Para prescrever a medicação para o animal, ele tem que passar por uma avaliação antes. Se o animal tiver um problema cardíaco, por exemplo, não é indicado o seu uso. O medicamento funciona como um anestésico dissociativo, ou seja, desconectando o cérebro da dor – a mente, no entanto, continua a agir, só que inconscientemente. A sensação é como se o animal estivesse sonhando durante a cirurgia.

Controle especial da substância

“A primeira vez que usei foi em 2001. O acesso à droga foi fácil, comprei-a em uma agro-veterinária, onde não nos pediram documentos ou prescrição. O primeiro lance foi a adrenalina de comprar a parada, nunca havia tentado comprar, apesar de já ter usado várias outras drogas ilícitas e ter pesquisado bastante sobre o assunto na internet. Mal sabia eu que estava prestes a enfrentar um momento de divisão na minha vida, pré e pós Ketamina. Me sentia como eu imaginava o que fosse a sensação de vida uterina. A anestesia me privava de qualquer sensação de gravidade, parecia boiar no Mar Morto. Aos poucos, o tato foi reaparecendo e estava me sentindo tranqüilo, pois já sabia que o que passou não havia sido oito horas, e sim 45 minutos, aproximadamente”, conta um estudante de 25 anos.

Durante a apuração da reportagem, a equipe do Correio procurou o medicamento em sete lojas de insumos agrícolas no Distrito Federal. O remédio de uso veterinário pode ser encontrado em três versões e estava à venda em duas das sete lojas. Sem que a equipe se identificasse, os balconistas informaram que a venda só seria possível com apresentação de receita. Em uma loja do Distrito Federalum balconista indicou que é mais fácil comprar o medicamento sem a receita no Entorno, em Goiás. De acordo com o Fiscal Federal agropecuário e Chefe da Divisão de Produtos Farmacêuticos do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento – Mapa, Marcelo Cláudio Pereira, a ketamina é uma substância sujeita a controle especial, de acordo com a Instrução Normativa nº 36, de 07 de junho de 2002, do Mapa.

A instrução determina que a venda só pode ocorrer sob prescrição do médico veterinário, com a retenção, pelo estabelecimento, da primeira via da receita. “A regra vale para todo o território nacional”, aponta Marcelo Pereira. Segundo a coordenadora de produtos veterinários do Mapa, Flordivina Mikami, o Ministério pretende alterar até o final do ano as regras para comercialização de medicamentos de uso veterinário que tenham princípio ativo entorpecentes, psicotrópicos, e outros de uso restrito. Segundo Flordivina, a intenção do Ministério é atualizar a instrução normativa de 2002. “Nossa proposta é mudar os rótulos de alguns produtos, criar a tarja preta, como existe em medicamentos de uso humano. Controlar a venda por meio de cadastros e numerações que serão distribuídas pelo Ministério”, comenta. Ela explica que as questões estão em discussão e deverão passar por aprovação do Governo.
Autor: Correio Braziliense
Fonte: OBID