Clínicas e hospitais têm médicos dependentes químicos

Aos 45 anos de idade, Marcelo, nome fictício, viu a carreira e a vida pessoal ameaçadas pelo alcoolismo. Faltas freqüentes ao trabalho e desentendimentos familiares fizeram com que após quase dez anos de intenso consumo de bebidas alcoólicas, ele buscasse ajuda. “Cheguei a beber dois litros de vodca em um fim de semana. Um dia, me dei conta do que eu estava fazendo. Liguei para o Alcoólicos Anônimos – AA e respondi a um questionário que eles têm como base para o diagnóstico. Das 12 questões, me enquadrei em todas. Procurei uma clínica e me internei no dia seguinte”, lembra.

Marcelo é clínico-geral e engrossa as estatísticas de um problema que preocupa a classe médica: a dependência química entre profissionais de saúde. Um levantamento feito pelo Conselho Regional de Medicina do Paraná – CRM-PR, em 112 hospitais e clínicas do Paraná demonstrou que em 79,5% das instituições existem médicos usuários ou dependentes de tabaco, bebidas alcoólicas, calmantes ou outras substâncias químicas. De acordo com a pesquisa, as drogas lícitas, álcool e tabaco, são as mais consumidas, muitas vezes em associação. Em seguida vem os anabolizantes, calmantes, anfetaminas, opióides, maconha, cocaína e crack.

A pesquisa apontou também que, ampla maioria dos hospitais e clínicas não conta com nenhum tipo de programa de prevenção ou tratamento. “A dependência química ainda é pouco identificada, inclusive entre a classe médica”, afirma o Psiquiatra e membro da Comissão de Saúde do Médico do CRM-PR, Marco Antônio Bessa.

A situação não é exclusividade do Paraná. Segundo levantamento nacional feito pelo CRM-SP em conjunto com a Unidade de Pesquisa em Álcool de Drogas do Departamento da Escola Paulista de Medicina, em 15 estados brasileiros com cerca de 200 médicos em tratamento, dois terços deles apresentaram problemas no exercício da profissão em decorrência da dependência. No entanto, apenas 8% dos casos foram notificados ao órgão fiscalizador.

Uma das hipóteses para a subnotificação estaria no constrangimento de colegas em informar ao CRM sobre o comportamento do médico. “A família teme o desemprego, os pacientes simplesmente não acreditam que isto possa estar ocorrendo e, por fim, o próprio médico pode não reconhecer o problema ou tentar lidar com ele de forma independente por temor ao estigma”, salienta um dos coordenadores da pesquisa, o Psiquiatra e especialista em dependência química, Hamer Alves.

Conforme o levantamento, 30% dos médicos buscaram tratamento voluntariamente, enquanto que 53% o fizeram por pressão da família e 16% por pressão dos colegas. “Nossa experiência tem mostrado que os médicos levam em média de 3 a 5 anos para buscar ajuda. É o tempo semelhante ao da população geral, mas chama a atenção que o conhecimento médico não tenha privilegiado a busca de auxílio”, afirma Alves. De acordo com ele, a busca voluntária tende a aumentar quando são fornecidas possibilidades tratamento sigiloso.

Além dos fatores que permeiam a dependência na população geral, tais como genética, história familiar e experiências prévias, os médicos enfrentam ainda situações de fácil contato com diversas drogas. Também são apontadas como principais causas da dependência a tensão constante, o desgaste emocional e a carga horária elevada de trabalho.

Para a Diretora da Clínica Nova Esperança, especializada no tratamento de dependentes químicos, Aracélis Copeder, o comportamento do médico em relação à própria saúde também é um fator prejudicial. “Eles costumam se automedicar e sabem o que tomar para conseguir determinado efeito”, afirma. Segundo ela, em 18 anos de funcionamento, a clínica já atendeu cerca de 3.800 pacientes, desses, 186 eram profissionais de saúde. “E não são só os médicos, o problema atinge também farmacêuticos, químicos”, confirma.

“Proporcionalmente o problema é bastante grande entre os anestesistas – 13%. Eles lidam constantemente com opióides, que são susbstâncias que causam dependência muito rápido” ressalta Bessa. Segundo ele, em muitos casos o vício tem início ainda durante a graduação. “Os alunos entram na faculdade muito novos e precisam aprender a lidar com o sofrimento, com a morte, é um desgaste emocional muito grande que às vezes acaba canalizado nas drogas”, diz.

O médico também sente vergonha e medo de ser estigmatizado por conta do vício. Segundo Alves, a dependência é considerada desviante e, portanto, seria de se esperar que o conhecimento dos médicos os protegessem de tais riscos. Além disso, um médico com problemas com drogas ou transtornos mentais é algo que pode pôr em risco a saúde de terceiros. Entretanto, ele acredita que o médico continua sendo exemplo para a sociedade. “O fato de os Conselhos de Medicina se interessarem pelo assunto mostra que algo está sendo feito para proteger tanto o médico, e não só puni-lo, quanto para proteger a sociedade”, afirma. Para ele, é importante ressaltar que a imensa maioria dos médicos não apresenta problemas com substâncias psicoativas. Além disso, os profissionais que buscam atendimento apresentam bom desempenho no tratamento, com volta ao desempenho seguro de sua profissão e manutenção prolongada da abstinência em taxas superiores à população geral – cerca de 80%. “A partir do momento em que adere ao tratamento, o médico é um bom paciente”, resume.
Autor: Gazeta do Povo- PR
Fonte: OBID