Trajetória do uso de álcool e maconha: da adolescência até o início da vida adulta.


O uso de álcool e maconha é geralmente iniciado na adolescência.
O uso do álcool é mais prevalente na população geral, mas o uso da maconha tornou-se difundido entre adolescentes e adultos jovens em muitos países nas últimas três décadas.
A maioria dos jovens residentes em países desenvolvidos pelo menos experimentou a maconha uma vez na vida sendo que alguns estudos da comunidade mostram que a proporção de usuários diários é de aproximadamente uma a cada dez pessoas.

Uma gama de problemas decorrente do uso destas substâncias no início da vida adulta foi documentada pelo uso pesado de álcool e maconha na adolescência. Estudos indicam que há uma relação dose-resposta entre o uso da maconha/ álcool na adolescência e o risco de abuso no início da vida adulta. Entretanto, os estudos existentes, geralmente focam na progressão das conseqüências do álcool e da maconha individualmente e pouco se sabe sobre as conseqüências na vida adulta do uso regular do álcool ou da maconha na adolescência.
Esta questão é de interesse mais do que teórico, dado as evidências de que as políticas que afetam o uso do álcool (tal como a idade legal para início do uso e preço) podem afetar o uso da maconha e vice versa.
Neste estudo foram usados dados de um levantamento de quase 2000 jovens, acompanhados da adolescência ao início da vida adulta, para examinar os seguintes pontos:

1- Até que ponto os indivíduos relatam o uso prejudicial do álcool e/ ou da maconha durante a adolescência e início da vida adulta?
2- Até que ponto o uso pesado do álcool e/ ou da maconha na adolescência leva ao uso de substâncias no início da vida adulta?
3- Até que ponto o uso mais pesado do álcool e/ ou da maconha na adolescência predispõe a circunstâncias sociais diferenciadas no início da vida adulta?

Métodos

Entre Agosto de 1992 e Março de 2003 foi conduzido um estudo de coorte em que a saúde de adolescentes e adultos jovens foi avaliada em 8 momentos distintos. A população avaliada residia no estado de Victória, Austrália.
O coorte foi projetado com uma amostra de adolescentes de ensino médio de 44 escolas representativa da população de Victoria. Os participantes foram revistos subseqüentemente em quatro intervalos de 6 meses durante a adolescência, em 2 momentos durante o início da vida adulta, aos 20-21 anos (7° onda do estudo) e aos 24-25 anos (8°onda do estudo).

De uma amostra total de 2032 estudantes, 1943 (95.6%) participaram ao menos uma vez dos primeiros seis levantamentos (adolescentes). Na 8° onda do estudo, 1520 (75% da amostra inicial, 78% de adolescentes participantes) foram entrevistados entre abril 2001 e abril 2003. As razões para a não conclusão na 8° onda do estudo foram: recusa (n = 269), perda do contato (n = 147) e morte (n = 7).

A amostra de 1943 participantes consistiu em: 943 participantes do sexo masculino, 717 tinham pai tabagistas e 439 tinham pais divorciados ou separados.
Para cada parte do estudo, o consumo semanal total do álcool foi calculado. O beber de risco moderado e o beber de alto risco foram definidos de acordo com as diretrizes do “The Australian National Health and Medical Research Council”.
O beber de risco moderado foi definido como exceder 28 doses de álcool (uma dose = 10 g de álcool) na semana anterior para os homens e 14 doses para mulheres. O beber de alto risco foi definido como exceder 43 doses/semana para homens e 28 doses/semana nas mulheres.

Como não há uma definição para risco relacionado ao uso de álcool em adolescentes os autores os mesmos valores para os adultos. O risco associado ao uso de maconha foi definido com base em estudos anteriores. O uso de risco moderado de maconha tanto em homens como em mulheres esteve relacionado ao uso semanal desta substância enquanto que o uso de alto risco foi atribuído para usuários diários ou quase que diário.

Discussão

O álcool e/ ou a maconha foram usados por aproximadamente 90% dos adultos jovens dessa amostra. Além disso, um em cada cinco adultos jovens fez uso de alto risco do álcool ou da maconha.
Aproximadamente um em cada quatro adolescentes usuários de risco moderado da maconha (uso semanal ou mais) se torna usuário de alto-risco (uso diário) quando adultos jovens. Houve uma tendência dos usuários de alto risco fazerem o uso preferencial de uma das duas substâncias estudadas.

O uso semanal ou uso mais freqüente de maconha na fase da adolescência levou a um risco 7 vezes mais elevado para o uso de alto risco de maconha na vida adulta e de duas vezes para o uso de alto risco do álcool. Em contraste, o uso de risco moderado do álcool, na ausência do uso semanal da maconha esteve associado a uma chance três vezes maior para o uso de alto risco para ambos.
O que pode explicar uma progressão seletiva para o uso mais pesado da maconha?
Uma possibilidade é que haja uma tendência genética para uma resposta específica relacionada a cada uma das substâncias. Entretanto, estudos em gêmeos sugerem que o mau uso da maconha e do álcool no adulto jovem é influenciado por fatores genéticos, mas que estes fatores se sobrepõem e são geralmente inespecíficos. Uma outra explicação é que a escolha da substância por indivíduos vulneráveis é determinada pelo contexto psico-social.

Este contexto pode, por sua vez, explicar a associação entre uso pesado da maconha, papéis sociais menos estabelecidos e uso elevado da substância no início da vida adulta. É também possível que o uso da maconha possa conduzir direta ou indiretamente a resultados mais insatisfatórios no adulto jovem. Uma possibilidade adicional é que as dificuldades acadêmicas e a ausência de relacionamentos estáveis conduzam a marginalização social e a um uso maior da maconha. Há, finalmente, uma possibilidade que para uma minoria de jovens, o uso seletivo da maconha reflita uma preferência para a droga e conseqüentemente possa estar ligada ao desenvolvimento da dependência desta substância. Finalmente este estudo é incapaz de delinear se o uso seletivo da maconha reflete uma resposta individual à droga ou se fatores de confusão não mensurados estão influenciando neste achado. Entretanto, a associação entre o uso freqüente da maconha na adolescência e um uso ilícito tardio da droga é similar à relatada recentemente por em outro estudo. A ausência de variáveis relevantes relacionadas ao uso do álcool como, por exemplo, comportamento anti-social pode explicar a dificuldade deste estudo encontrar uma associação entre o uso de álcool por adolescentes e prejuízos na vida adulta.
Apesar das limitações, os resultados encontrados nos fazem pensar em medidas de prevenção e intervenção mais precoces em usuários regulares de maconha.

A tendência dos jovens fazerem maior uso da maconha também levanta a questão sobre políticas para reduzir o uso do álcool da juventude. Tais políticas têm mostrado o aumento do uso de maconha por jovens que, a partir dos achados destes estudos estariam mais expostos a prejuízos na vida adulta. Por outro lado, há um risco que, em função do uso de alto risco do álcool estar associado com menores dificuldades sociais no início da vida adulta, escape da atenção política, intervenções e prevenções eficazes que diminuam conseqüências que o álcool provoca saúde a longo prazo.

George C. Patton
Carolyn Coffe
Michael T. Lynskey
Sophie Reid
Sheryl Hemphill
John B. Carlin3 & Wayne Hall
Addiction, 102, 607–61, 2007
Fonte:Site Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas)/Programa Álcool e Drogas (PAD) do Hospital Israelita Albert Einstein