Perfil dos usuários de êxtase

A MDMA (3,4-metilenodioximetanfetamina) foi sintetizada em 1912 e patenteada em 1914, na Alemanha, com o intuito de ser utilizada como um moderador de apetite. Nos anos 80, começou a ser utilizada recreacionalmente e ficou conhecida como êxtase. No Brasil, o primeiro carregamento da droga veio de Amsterdã, na Holanda, na década de 90 e, desde então, o seu consumo ganhou visibilidade em festas eletrônicas, em raves e em clubes noturnos. Essa associação deve-se aos efeitos do êxtase – que dependem do local e do ritual no qual o uso está inserido, e podem durar até 8 horas – tais como: a sensação de melhora nas relações interpessoais; o desejo de se comunicar; melhora na percepção musical e um aumento na acuidade para cores.

Artigo publicado pelo Journal of Psychoactive Drugs, em 2006, teve o propósito de descrever e analisar, por meio de estudo etnográfico, histórico e atual, o contexto de uso de êxtase e o perfil dos usuários, suas crenças, aspirações, padrões de uso e conseqüências.

A coleta de dados deu-se por meio da realização de três estudos observacionais, entrevistas com informantes-chave e com usuários de êxtase residentes no Município de São Paulo e imediações. Foram feitos ao todo oito estudos observacionais em festas rave, em clubes noturnos e em shows de música eletrônica. Os autores identificaram quatorze informantes-chave: um promoter de raves, dois Dj`s, três psicólogos, quatro psiquiatras, um toxicologista, um investigador de polícia, um usuário de êxtase e um jornalista.

O roteiro norteador versava sobre características pessoais, histórico e formas e contextos sociais de uso, comportamentos de risco decorrentes do uso, conseqüências médicas, psicológicas e sociais a curto e em longo prazo, contato com serviços de saúde em função do uso da droga e crenças e aspirações. A população de estudo foi composta por 32 usuários de êxtase, escolhidos pela técnica “bola de neve” (Biernacki & Waldorf, 1981). Dessa forma, os primeiros entrevistados indicam outros e assim sucessivamente. Para participarem das entrevistas as pessoas deviam ter feito uso de êxtase (MDMA), no mínimo cinco vezes, sendo pelo menos uma nos últimos doze meses.

Os resultados revelaram que os usuários geralmente são jovens adultos pertencentes às classes sociais mais privilegiadas, com um bom nível escolar e inseridos no mercado de trabalho. As substâncias mais associadas ao uso de êxtase foram: maconha (23 usuários); álcool com 15; cocaína com 11; LSD (8), nitritos (poppers) com 6 e ketamina ou cetamina (5). 21 usuários reportaram que obtinham a droga por meio de amigos, cinco de traficantes, cinco das duas formas e um recusou-se a responder.

O preço pago por uma pílula varia entre 25 a 50 reais. O êxtase é geralmente consumido em forma de comprimidos em clubes noturnos e festas eletrônicas. A maioria dos participantes relatou terem experimentado melhora nas relações pessoais tornando-se mais sociáveis e carinhosos, após usar a droga., Sensação de bem-estar e felicidade, alterações no tato, audição e visão, também foram relatados como efeitos da droga. Foi evidenciado que a quase totalidade da amostra, 31 pessoas, sentiu o efeito anorexígeno (falta de apetite) da droga, 10 pessoas mencionaram perda de peso após um uso contínuo (atribuída a associação da inibição do apetite ao comportamento de dançar exageradamente); foi mencionado também: vômitos por 8 pessoas, ranger de dentes por 6, 4 apresentaram retenção urinária, 6 experimentaram uma viagem ruim (bad trip, termo utilizado para caracterizar sensações físicas e psicológicas desagradáveis provocadas pelo uso de drogas) e 4 apresentaram erupções cutâneas do tipo espinha.

Do total de participantes, 21 consideram o êxtase uma droga segura e dez acreditam que pode ser usado como medicação no tratamento da timidez e na redução de danos de dependentes de cocaína. Foram identificados dois grupos que diferiam quanto ao padrão de uso da droga: “Os Filhos do Hell’s club” – usuários mais antigos – e a “Geração Rave”. Aqueles consumindo entre 2 a 6 comprimidos por ocasião e esse consumindo entre meio a 2 comprimidos por ocasião.

Os autores concluíram que existe uma associação entre o uso de êxtase e a popularização de festas eletrônicas em São Paulo e seus arredores desde 1990. Ressaltaram que os profissionais de saúde se mostraram ainda pouco familiarizados com o consumo de êxtase, o que revela a carência de informações entre esses. E que apesar do contexto sócio-cultural do uso de êxtase sofrer influência marcante de uma cultura “importada”, novos cenários para o consumo estão despontando. O aumento de situações de risco acarretadas pelas crenças de segurança no uso do êxtase também foi identificado pelo estudo. Os pesquisadores arremataram salientando que é importante o desenvolvimento de novos estudos sobre esse tema, a fim de se avaliar os possíveis novos contextos e os padrões de uso do êxtase.

Texto resumido pelo OBID a partir do original publicado pelo Journal of Psychoactive Drugs, São Francisco, Califórnia, 38(1): 13-18, 2006. ISSN: ISSN 0279-1072. Editado pela Haight-Ashbury Publications.
Autor: BATTISTI, M. C.; NOTO, A. N.; NAPPO, S.; CARLINI, E. A.
Fonte: OBID