Entrevista com Jairo Bouer – Prevenção Também se Ensina

Psiquiatra, formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, com residência em psiquiatria no Instituto de Psiquiatria da USP. A partir do seu trabalho no Projeto Sexualidade do Hospital das Clínicas da USP (Prosex), passou a focar suas atividades no estudo da sexualidade humana. Mantém programas na TV e em diversas rádios brasileiras. Escreve para jornais, revistas e sites. Foi consultor do Governo do Estado de São Paulo para o projeto “Prevenção Também se Ensina”.

1. Em geral, o jovem sabe beber moderadamente?

Sabe. Só que ele não usa este conhecimento na prática. O jovem sabe que não pode beber demasiado e dirigir, por exemplo. O jovem sabe até onde pode ir, mas, no calor de uma festa, no auge da animação e influenciado por amigos, ele deixa esse conhecimento que tem de lado e aí abusa do uso do álcool.
Ele sabe os limites, geralmente já teve experiência com bebida (já usou em demasia, já teve “ressaca”), mas o clima influência na continuidade do uso, muitas vezes até no abuso.

2. Que aspectos do consumo do álcool entre os jovens mais o preocupam?

O primeiro é o fato de o jovem ligar o “divertir-se” à quantidade de bebida ingerida. Muitas vezes atrela-se a “felicidade” do momento com mulheres, o “open bar”, a embriaguez. Em festas de cidades interioranas, por exemplo, isso às vezes fica bem claro ao observar.
Outro aspecto preocupante é a dificuldade que alguns jovens possuem em compreender que eles podem estar tendo dificuldade com o padrão próprio de consumo de álcool: por exemplo, se o jovem bebe todos os dias, se ele bebe para ficar bêbado apenas.
Ele pode achar que não problema algum com bebida alcoólica, pensa que o alcoólatra é o morador de rua, ou seja, para ele, o alcoólatra tem este perfil. E não é verdade.

3. O que pode ser feito para minimizar estes problemas?

O jovem precisa incorporar, de fato, as medidas de cuidado com a bebida. Precisa entender que beber pode ser legal, dentro de uma série de outras coisas que também são interessantes fazer para se divertir, mas precisa-se de cuidados mínimos. À medida que o jovem bebe mais, dilui-se ainda mais a capacidade de compreender as necessidades destes cuidados: hidratar-se mais, não beber com estômago vazio, não misturar outras substâncias com o álcool, evitar beber e dirigir, usar camisinha.

4. Qual o papel da comunicação neste processo de conscientização?

A comunicação funciona como um complemento. Não vale jogar tudo nas mãos dela. Cercar de informações na escola, na televisão, nos outros estabelecimentos de ensino, para que isto seja comentado entre os amigos, entre os próprios jovens que irão fazer uso da bebida. É inviável a proibição do uso da bebida em nossa sociedade. As campanhas que alertam sobre o uso indevido da bebida alcoólica têm seu lugar como complemento.
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool