Drogas também ameaçam médicos

Quando um problema com drogas ou alcoolismo atordoa uma família, um médico é uma das primeiras soluções que se busca. O que pouca gente imagina é que parte dos profissionais de saúde também sofre do mesmo mal.

Uma rede de apoio foi criada em 2002 para atender a esses tipos de caso. Até então, 250 médicos de todo o Estado já procuraram por ajuda.

Dos médicos que buscaram apoio, 70% conseguiram se recuperar e retornaram às suas atividades. Acredita-se que esses dados sejam subestimados e que o número de médicos em tratamento seja maior se a notificação fosse compulsória.

“O número de médicos denunciados por uso de drogas não é muito, mas é preocupante”, diz Moacyr Esteves Perche, Diretor do Conselho Regional de Medicina – CRM de Campinas e Região.

Psiquiatras e psicólogos também afirmam que, não raro, recebem em seus consultórios colegas vivendo o mesmo drama. Afinal, por que um profissional consciente dos riscos que os entorpecentes podem trazer à saúde se enveredam pelo caminho que deveriam ajudar a combater?

Estatísticas da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Escola Paulista de Medicina apontam que a classe médica apresenta taxa de dependência de substâncias químicas que variam de 8% a 14% maiores se comparada à população em geral.

Álcool e cocaína, anfetaminas, maconha, solventes e opiáceos estão entre as drogas mais consumidas pelos médicos. O psiquiatra Pedro Henrique Amparo sabe que, entre a categoria, não são poucos os que têm envolvimento com drogas ou são vítimas do alcoolismo. Durante sua carreira, dezenas de colegas de trabalho já passaram pelo seu consultório.

Alguns foram vencidos. Outros conseguiram se recuperar da dependência química. “Médico é como adolescente. Acha que com ele nunca vai acontecer”, opina o psiquiatra. O conhecimento, às vezes, se torna um inimigo. “Por conhecer e ter acesso fácil às drogas, os médicos acham que têm domínio sobre elas”, explica Amaparo que perdeu um amigo para o álcool.

A cirrose foi a responsável pela morte de um médico de 45 anos, amigo de república de Amparo. Nas festas da universidade, o problema ganhou forma até que foi incorporado à rotina. “Ele passou a beber de segunda a segunda. Tentou tratar, mas não conseguiu”. Empregos perdidos, família destruída. A biografia do colega foi trágica.

“O alcoolismo faz com que a pessoa perca a noção do social, todo mundo nota que você está alcoolizado, até passar a ser tachado de cachaceiro”, comenta .

Fatores

Uma pesquisa realizada com 198 médicos, de 15 Estados e que passavam por tratamento ambulatorial na Escola Paulista de Medicina, revelou que 66% deles já tinham sido internados por causa do álcool ou das drogas.

Ainda de acordo com o estudo há alguns fatores que são propícios aos médicos tornarem-se dependentes de drogas, tais como: acesso fácil aos medicamentos, perda do tabu em relação às injeções, estresse no trabalho e em casa, auto-administração do tratamento para dor e humor.

A pesquisa também indicou que entre a dependência e a procura por ajuda, o médico usuário de drogas leva, em média, três anos e sete meses.
Fonte: Cosmos Online -OBID