Uso de drogas e estilo de vida em alunos de graduação: um estudo de 30 anos

Muitos estudos têm investigado a prevalência do uso de drogas por estudantes universitários, mas poucos verificaram as tendências nas variações destas prevalências em instituições de ensino por um longo período de tempo. Neste artigo são relatados os resultados de um estudo realizado em uma mesma faculdade nos anos de 1969, 1978, 1989 e 1999.

Foi distribuído um questionário anônimo que avaliava o uso de drogas e estilo de vida em estudantes de uma grande instituição de ensino de New England em setembro de 1999. Como nos anos anteriores, os dados obtidos a partir da aplicação do questionário em 796 pessoas foram representativos da amostra total de 1600 pessoas. Primeiramente foram obtidos os dados para uso de cada uma das classes de drogas a partir dos relatos dos estudantes, a seguir os autores compararam os dados provenientes de não usuários (aqueles que relataram nenhum uso de droga ilícita na vida) com os usuários (aqueles que relataram algum uso ilícito de droga), e finalmente, foram realizadas diversas análises comparativas entre os dados de 1999 com os estudantes avaliados nas décadas precedentes.

A porcentagem de estudantes que relatam o uso do álcool, pelo menos 1 vez por semana, permaneceu estável em todo período de tempo (30 anos) avaliado. A proporção, no entanto, de quem usava várias drogas ilícitas atingiu um pico em 1978 e caiu drasticamente nos 20 anos seguintes, com a exceção do 3,4-methylenedioxymethamphetamine (MDMA) ou de “ecstasy”.

Não foram encontradas diferenças estatísticas significativas entre usuários e não usuários para a maioria das variáveis testadas nos anos 1969, 1978, e 1989. Porém, em 1999, as mesmas comparações produziram diversas diferenças, por exemplo, alunos de níveis intermediários, em uma escala de 1 (melhor) a 5 (pior), diferiram significativamente entre usuários e não usuários em todos os anos acadêmicos. Os usuários relataram que gastaram menos tempo do que os não usuários, em uma escala de 1 (mais ou menos de 1 hora por semana) a 4 (muitas horas por semana) em atividades extracurriculares tais como: esportes, leituras e clubes.

Somente duas variáveis diferiram entre os usuários de droga dos não-usuários nos 4 anos estudados: “visitas a um psiquiatra” e ” atividade heterossexual.” Em 1999, 65 (15.3%) de 424 não-usuários contra 91 (24.7%) de 369 usuários relataram ter visitado um psiquiatra pelo menos uma vez, mas somente cinco (5.5%) dos 91 usuários que foram a um psiquiatra atribuíram seu problema às drogas. Em 1999, 185 (43.7%) de 423 não-usuários relataram pelo menos uma relação sexual com parceiro sexo oposto contrastando com 286 (77.7%) de 368 usuários referindo uma experiência desta.

Embora a proporção de estudantes que relataram visitas a um psiquiatra tenha sido similar ao longo dos 30 anos do estudo, a proporção de todos os entrevistados (homens ou mulheres, usuário de droga ou não usuário) relatando relação sexual com parceiro do sexo oposto flutuou de 69.5% (356 de 512) em 1969 para 77.9% (518 de 665) em 1978; 71.8% (250 de 348) em 1989, e 59.5% (471 de 791) em 1999. O declínio nas taxas entre 1989 e 1999 foi significativo.

A atividade homossexual foi relatada mais freqüentemente por usuários de droga em 1999; 25 (6.8%) de 366 usuários relatando pelo menos uma experiência homossexual desde que entraram na faculdade, comparado a 13 (3.0%) dos 427 não usuários, embora o significado desta comparação (p=0.02, teste exato do fisher) não tenha alcançado a significância de 0.01.

Neste estudo longitudinal de 30 anos realizado em uma grande faculdade, foi encontrado que o uso semanal do álcool permaneceu estável ao passo que o uso da maioria das drogas ilícitas se elevou até um pico em 1978 e declinou depois disso. A exceção a este modelo se deu por conta do crescimento no consumo do ecstasy que se tornou a droga ilícita mais freqüentemente usada após a maconha.

Nas décadas anteriores, os usuários de droga diferiram dos não usuários somente em visitas a um psiquiatra e quanto ao nível da atividade heterossexual. Em 1999, entretanto, as diferenças entre os usuários e os não usuários alargaram-se: além das duas variáveis mencionadas os usuários de 1999 diferiram significativamente dos não usuários, para todos os três anos acadêmicos anteriores quanto ao tempo gasto em atividades extracurriculares e experiência homossexual.

Estes dados sugerem que usuários de drogas, que pela primeira vez representam uma minoria da população estudantil nesta instituição, se tornou um grupo mais distinto, cujos valores e estilo de vida começaram a divergir do restante do corpo estudantil.

Este estudo é limitado pelo fato de ter sido conduzido em uma única instituição. Assim, é difícil determinar se os relatos são representativos de estudantes de todas as faculdades americanas ao todo.

O estudo que mais se assemelha a este é o “Monitoring the Future”, neste a prevalência na vida para o uso da maconha ou do haxixe entre estudantes de faculdades caíram de um pico de 65.0% em 1980 para 49.9% em 1998, semelhante aos achados deste estudo que mostraram um pico de 76.3% em 1978 e um declínio para 46.1% em 1999. Para os mesmos anos, a prevalência do uso de cocaína na vida caiu 22.0% para 8.1% no Monitoring the Future e 29.8% para 6.9% neste estudo. O uso de MDMA ou de “ecstasy” elevou-se de 3.8% em 1989 para 4.6% em 1997 e 6.8% em 1998 no Monitoring the Future; as taxas eram 4.1% em 1989 e em 10.1% em 1999.

Este estudo pode ter sido influenciado por vieses de seleção ou informação. Entretanto, o instrumento era anônimo; seus índices não foram revelados antes dos estudantes os receberam, e somente 3% (aproximadamente 25 de 800) daqueles que receberam o questionário não o terminaram.

Harrison G. Pope
Martin Ionescu-Pioggia
Kimberly W. Pope

American Journal of Psychiatry 158:1519-1521, 2001
Fonte:Site Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas)/Programa Álcool e Drogas (PAD) do Hospital Israelita Albert Einstein