Há uma perigosa relação entre propaganda de bebidas e o consumo de álcool pelos jovens

Em se tratando de consumo de bebida e adolescência, o surrado slogan “eu sou você amanhã” não é, com certeza, uma propaganda enganosa. Um projeto apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo -FAPESP e coordenado pela psicóloga Ilana Pinsky, da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp, avaliou a relação entre a publicidade de bebidas alcoólicas – em especial a cerveja e seu consumo pelos jovens. Os resultados não descerão “redondo” na goela da indústria da cerveja, que fatura mais de R$ 20 bilhões por ano e gastou, em anúncios, apenas em 2006, R$ 700 milhões. “Temos dados que questionam a eficácia da auto-regulamentação das propagandas feitas pelo Conselho Nacional de Auto-regulamentação Publicitária – Conar, por meio de uma pesquisa feita com estudantes do ensino médio de escolas públicas de São Bernardo. O outro, realizado com alunos ainda mais jovens – 6ª e 7ª séries, revela a associação das variáveis das publicidades de bebidas alcoólicas com o consumo de álcool dessa amostra”, explica Ilana.

Segundo a pesquisadora, se até 2000 – quando a Lei 10.167 proibiu a propaganda do cigarro nos meios de comunicação o álcool já era o produto mais anunciado, hoje ele reina soberano, encerrando mensagens que associam a bebida à resolução de problemas, tensões, sinônimo de camaradagem, humor, sexualidade, sucesso, e até mesmo carregando um conteúdo nacionalista, como se verificou nos estudos feitos durante a última Copa do Mundo. “No Canadá, por exemplo, é proibido associar bebidas a símbolos de status ou dar a entender que aceitação social, sucesso pessoal, negócios ou conquistas esportivas podem ser atingidos pelo consumo do produto”, lembra a professora. Um levantamento feito em 2001 pela Unifesp mostrou que o alcoolismo afeta 11,2% dos brasileiros e, dentre esses, 17,1% dos homens. Essas pesquisas, porém, estavam deixando de lado um dado fundamental: a idade dos consumidores. “Nosso estudo com crianças e adolescentes entre 10 e 17 anos mostrou que assistir a propagandas com freqüência provoca a expectativa de consumir bebidas no futuro. Muitos dos meninos entrevistados disseram que a publicidade os encorajava a beber. Vários afirmaram que “as festas a que eu vou são iguais as dos anúncios”. Acima de tudo há uma crença generalizada de que as propagandas de álcool “dizem a verdade”, o que faz os jovens crerem nelas para definir a sua idéia de ‘hábitos normais de beber’ .”

Ilana ressalta a importância da preocupação levantada no encontro internacional da Organização Mundial da Saúde – OMS, em Valência, Espanha, em 2006: há uma tendência mundial, em particular nos países em desenvolvimento, de indústria de bebidas alcoólicas dirigir seus produtos aos jovens, num efeito colateral do “eu sou você amanhã”. Daí a gravidade do que se descobriu na segunda pesquisa feita pelo grupo da Unifesp, cujos resultados revelaram que as propagandas de cerveja violam grande parte das regras do código brasileiro de auto-regulamentação publicitária. Das 16 regras incluídas no estudo, 12 foram desrespeitadas, segundo o julgamento do público adolescente, em especial a que proíbe a publicidade a induzir o consumo abusivo e irresponsável de bebidas, a que veta que se dê a impressão de o produto estar sendo recomendado em razão de seus efeitos sobre os sentidos e, acima de tudo, a regra que impede a utilização de imagens, linguagem ou idéia de que o consumo do produto é sinal de maturidade ou que contribua para o êxito profissional, social ou sexual.

Basta fechar os olhos e tentar lembrar de algumas das propagandas recentes de cerveja para perceber que a mensagem está sendo dirigida aos jovens e que eles estão abertos a ela.
Fonte: Último Segundo – OBID