Da primeira droga ao Crack: A seqüência de drogas consumidas por um grupo de usuários na cidade de São Paulo

A identificação de uma seqüência de drogas usadas no período que corresponde da adolescência à idade adulta é uma área de grande interesse para muitos pesquisadores.

Estudos mostram que outros fatores, além da capacidade de decisão do adolescente, estão envolvidos no estabelecimento da progressão no uso de drogas, dentre eles estão a idade do usuário e o ambiente.

No Brasil, um outro fato que acresce esta observação é a influência do tráfico de drogas, que foi um determinante para a imposição ao consumo de determinadas drogas, como o “crack”, em São Paulo. Saber a seqüência dos estágios do uso de drogas dentro de uma população pode ser uma ferramenta eficaz para medidas de intervenção bem sucedidas.

Este estudo tem como objetivo identificar a seqüência de drogas usadas por usuários e ex-usuários de “crack”, assim como, os fatores que influenciam esta progressão, a identificação de possíveis grupos de risco, as primeiras e últimas drogas desta seqüência, e a procura da intervenção adequada em programas de prevenção.

A principal característica deste trabalho foi o uso de uma metodologia qualitativa que assegurasse uma investigação profunda do problema. Além disso, foi baseada na opinião dos entrevistados e no modo como o problema foi enfrentado por eles.

Os autores utilizaram uma entrevista semi-estruturada de longa duração. Trinta e um usuários e ex-usuários de crack foram entrevistados até alcançar a saturação teórica das informações. O critério utilizado eram homens, usuários de crack com 18 anos ou mais de classe média ou baixa.

O questionário continha questões abertas que combinava tópicos sobre dados sócio-demográficos, história familiar, história de uso de drogas, percepção do entrevistador.

Resultados do estudo

A maioria dos pacientes tinha pouca escolaridade, eram desempregados e não exerciam trabalhos formais.

Duas fases distintas para a progressão do uso de drogas foram detectadas. A primeira com drogas lícitas, em que o álcool e o tabaco foram os mais citados. Nesta fase os amigos e os familiares foram os incentivadores do uso e a busca de auto-confiança foi a razão mais apontada pelos usuários.

O inicio precoce e o forte consumo de uma ou ambas drogas foram determinantes para o inicio de uma progressão com drogas ilícitas. O uso de drogas por pelo menos um membro da família foi descrito pela maioria dos participantes.

Maconha foi a primeira droga da segunda fase. Nesta fase, a justificativa para o uso da droga foi a busca de prazer. O estudo revela que a progressão no uso de drogas até o crack parece estar mais associada a fatores externos como: disponibilidade da droga no momento do uso, influência do tráfico, campanhas de prevenção, idade de início para uso de drogas e pressão do grupo. Duas diferentes progressões foram identificadas de acordo com a idade de início para o uso: entre os jovens (< 30) a progressão foi: tabaco e o álcool, maconha, cocaína inalada e crack; e entre os mais velhos (> 30) —tabaco e o álcool, maconha, medicamento intravenoso, cocaína inalada, cocaína intravenosa e crack.

Todos os usuários tinham mais de 18 anos, mais da metade deles deixaram o ensino fundamental e ensino médio. O uso de drogas e a necessidade de trabalhar para fornecer o dinheiro para a família ou para comprar drogas foram as razões mais citadas para deixar a escola. O desemprego também esteve associado ao uso de drogas. A droga quase sempre foi a razão principal para perda do emprego. Uma outra razão relatada foi a possibilidade de envolvimento em atividades ilícitas e de ganhar o dinheiro “fácil”.

Geralmente, a primeira droga foi oferecida aos entrevistados por alguém próximo a eles como parentes. O álcool e/ ou o tabaco foram mencionados como os mais freqüentes, o pai era a pessoa que tinha o consumo mais elevado. O primeiro uso realizava-se entre 10 e 13 anos, um período de forte influência da família (principalmente do pai) na vida de um menino; ou autores supuseram que o uso da droga na família fez do primeiro uso um uso menos proibido. No estudo foram detectados comentários do tipo: “um homem tem que beber”.

Alguns pesquisadores afirmam que estas drogas (álcool e tabaco) são as primeiras em uma seqüência, outros mostram que muitos adolescentes experimentam a maconha sem nunca ter usado o tabaco e o álcool antes. Os amigos também tem um papel importante nesta fase inicial do consumo do álcool e do tabaco. O sentimento de transgressão sobre o uso das drogas, mesmo sendo lícitas, tem um apelo demasiadamente forte para o adolescente recusar a oferta de um amigo. As razões para aceitar a oferta da droga quase sempre foram o “respeito” e o desejo de não decepcionar quem oferecia a droga. “Curiosidade” foi uma razão mencionada com menos freqüência para o primeiro uso de droga.

A maconha foi mencionada como a primeira droga ilícita usada por 29 entrevistados em uma amostra de 31 pessoas. Após a primeira droga ilícita, os entrevistados relataram o consumo de outras drogas (até dez tipos de droga em um caso avaliado) antes do crack. A razão para esta diversidade no consumo das drogas não está muito clara, e todos os entrevistados justificaram-no com “curiosidade para sentir novos efeitos e sensações”.

Um estudo anterior, referente ao consumo e a disponibilidade de drogas, descreveu a preferência dos negociantes de droga em São Paulo por uma fonte abundante de crack, maior do que da maconha. Isto causou uma falta de outras drogas, que conduziram muitos usuários a substituírem outras drogas pelo crack por falta de outras opções. Esta preferência em vender o crack é devido ao seu potencial aditivo elevado, ao custo baixo pela unidade (pedra) e à sua fácil manipulação. Finalmente, o lucro em curto prazo parece ser a apelação mais forte dos negociantes para espalhar o crack.

Os entrevistados abaixo de 30 anos de idade (mais novos), que começaram o consumo a mais de dez anos referiram 6 a 7 drogas diferentes em média antes do crack. Os entrevistados mais velhos começaram a usar a droga ao menos há 15 anos, tiveram uma escolha ampla de drogas. A presença das drogas alucinógenas (LSD-25), de medicações anticolinérgicas, e do uso da cocaína intravenosa pode ser identificada neste grupo. Mesmo que as classes de drogas fossem similares nos grupos mais novos e mais velhos, as drogas pertencentes as duas classes foram diferentes. Por exemplo, os inalantes foram comuns a ambos os grupos, mas a cola e o cheirinho da loló foram mais utilizados pelos mais novos e os mais velhos referiram o uso extensivo do “lança-perfume”, um solvente proibido no Brasil nos anos 1960s.

O grupo mais velho fazia uso de medicamentos administrados intravenoso, que facilitavam assim o uso da cocaína intravenosa. Os medicamentos relatados pelos mais novos não foram usados intravenosamente, para eles, o surto da AIDS e as campanhas maciças sobre os perigos da via intravenosa inibiram seu uso.

O crack foi incorporado em suas vidas como um substituto para a cocaína intravenosa,sendo uma droga de administração mais fácil, não requerendo o uso das seringas e agulhas. O LSD-25 foi relatado somente pelos mais velhos. Seu uso era interrompido devido ao seu custo e substituído, de acordo com os entrevistados mais novos, pelo chá de lírio conhecido também como o “trombeteira” (trumpeter) ou ” saia branca “. Em ambos os grupos, entretanto, os usuários começaram invariavelmente a fazer uso da cocaína por via inalatória. O crack muitas vezes foi utilizado conjuntamente com outras drogas. Por exemplo, o uso do tabaco fornece as cinzas para serem queimadas com o crack. A maconha é também muito popular entre usuários do crack, porque reduz a paranóia causada pela cocaína. O álcool parece reduzir os efeitos desagradáveis e prolongar os agradáveis.

De acordo com os entrevistados a seqüência das drogas não é determinada pela preferência de uma ou outra droga. Um comportamento similar é observado entre aqueles usuários que buscam novas sensações e novos desafios, incluindo um risco aumentado no uso da droga. Deste modo, os usuários declararam a maconha como uma droga “livre de problemas” e procuraram por outras drogas que fornecem novas sensações e que geram mais riscos. Estes usuários progridem o uso da cocaína inalada para a cocaína intravenosa ou fumada. Esta busca continua até uma droga, como o crack, difícil de voltar a um uso menos problemático, isto ocorre devido à dependência e/ ou a compulsão que ocorre. Conseqüentemente, acredita-se que a identificação de uma seqüência de drogas pode ser uma ferramenta na tentativa de parar a exposição crescente dos usuários aos riscos da progressão.

From the First Drug to Crack: The Sequence of Drugs Taken in a Group of Users in the City of São Paulo

ZILA VAN DER MEER SANCHEZ
SOLANGE APARECIDA NAPPO

Fonte:Site Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas)/Programa Álcool e Drogas (PAD) do Hospital Israelita Albert Einstein