Tabaco, álcool e outras drogas entre adolescentes residentes em Pelotas – Rio Grande do Sul

A informação de que homens fumam mais, bebem mais e consomem mais drogas que as mulheres pode estar entre os elementos em transformação nos cenários atuais no campo da saúde. As mulheres caracterizam grupo social de relevância para estudos sobre o uso de substâncias psicoativas por haver provável expansão dos indicadores de consumo e dos problemas decorrentes do consumo de substâncias psicoativas nesta população, por estarem cada vez mais presentes em estudos que têm por base populações de sujeitos em tratamento por problemas com substâncias psicoativas e pela interface que estes campos de estudos mantêm com áreas como a dos estudos em saúde materno-infantil.

Este artigo apresenta dados levantados a partir do estudo Prevalência dos Comportamentos em Saúde em Adolescentes na Cidade de Pelotas, comparando as informações fornecidas por meninas e por meninos, com o objetivo de examinar a relação entre gênero e consumo de substâncias psicoativas (bebidas alcoólicas, tabaco e drogas ilícitas) entre adolescentes.

Método

Em estudo realizado no Município de Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil, no ano de 2002, a equipe de pesquisas do Programa de Pós-graduação em Saúde e Comportamento da Universidade Católica de Pelotas (UCPel) entrevistou 960 adolescentes, entre 15 e 18 anos de idade, residentes na zona urbana do município. 7.740 domicílios foram visitados pela equipe de pesquisa. Em cada domicílio sorteado foram entrevistados todos os adolescentes com idade entre 15 e 18 anos completos, após ser obtido o consentimento por escrito dos pais ou de outra pessoa adulta responsável.

Não foi possível realizar a entrevista com 79 (7,6%) dos 1.039 adolescentes localizados por recusa na obtenção da autorização dos pais ou responsáveis, dos próprios adolescentes em responderem ao questionário ou por não ter sido encontrados em casa após três revisitas. O procedimento de revisitas foi empregado para reduzir a possibilidade de ocorrência de viés de seleção.

Os sujeitos responderam a um questionário auto-aplicado, no qual se buscavam informações sobre comportamentos em saúde. Foram selecionados, para o exame neste artigo, os desfechos:
• Tabaco: (i) uso na vida ou experimentação: consumo, pelo menos uma vez, ao longo da vida, e (ii) uso continuado ou recente: consumo uma vez por semana, pelo menos, no mês que antecedeu as entrevistas.
• Bebidas alcoólicas: foi solicitado que se informasse ter havido ou não consumo de bebidas alcoólicas no mês que antecedeu as entrevistas.
• Drogas ilícitas (maconha, cocaína e/ou solventes): (i) uso na vida ou experimentação: consumo, pelo menos uma vez, ao longo da vida, e (ii) uso recente: consumo no mês que antecedeu as entrevistas.

Resultados

Na amostra estudada, 36% dos adolescentes pertenciam a famílias da classe social A ou B, enquanto que 26% eram da classe D ou E. Quanto à escolaridade do adolescente, 83,4% dos entrevistados estavam freqüentando a escola e 58% tinham nove anos ou mais de escolaridade.

Em relação ao consumo de cigarros, identificou-se relato de uso continuado (uma vez por semana ou mais, no último mês) em 157 sujeitos, ou 16,6% dos respondentes. Para uso na vida, 43% dos adolescentes que responderam a esta questão, afirmaram já ter experimentado cigarro, pelo menos uma vez; 19,5% das meninas entrevistadas afirmaram consumir cigarros uma vez por semana ou mais no mês que antecedeu as entrevistas, enquanto 13% dos meninos afirmaram fazê-lo (p < 0,05). A prevalência de tabagismo foi 1,51 vez (IC95%: 1,14-2,00) maior entre as meninas. O uso de tabaco também foi mais freqüente entre adolescentes com mais de 17 anos, de classe social D ou E e com menor escolaridade. Tendo como referência adolescentes de classe social A, os grupos de classes C e D/E apresentaram, respectivamente, razões de prevalência para uso recente de cigarros de 1,22 (IC95%: 0,91-1,64) e 1,67 (IC95%: 1,16-2,42). Foram encontradas razões de prevalência, para o mesmo desfecho, de 1,88 (IC95%: 1,64-2,94) e 1,50 (IC95%: 1,12-2,01) entre adolescentes com quatro anos de estudo ou menos e entre aqueles com 5 a 6 anos, tendo como referência o grupo de jovens com nove anos de estudo ou mais. O grupo que referiu reprovação escolar apresentava prevalência 2,76 (IC95%: 1,64-4,65) vezes maior de consumo de cigarros no último mês que o grupo que não registrou reprovações. Entre os meninos encontrou-se freqüência mais elevada de consumo do álcool no último mês (p < 0,01). Além disso, o consumo de bebidas alcoólicas esteve associado com idade e com reprovação escolar. O consumo de bebidas alcoólicas no mês das entrevistas, tendo como referência o grupo de adolescentes de 18 anos de idade, foi referido 1,12 (IC95%: 0,92-1,36) vez por aqueles com 17 anos, 0,87 (IC95%: 0,71-1,06) vez pelos de 16 anos e 0,75 pelos de 15 anos (IC95%: 0,69-0,94) (p = 0,01). Foi encontrada, também, razão de prevalência 1,16 (IC96%: 1,00-1,34) vez maior para o grupo de adolescentes que apresentou reprovação escolar (p < 0,05). Em relação ao uso de drogas ilícitas, o uso recente de maconha, cocaína ou solventes foi referido por 9% dos adolescentes, enquanto o uso na vida foi referido por 14,9% da população estudada. O uso na vida das drogas ilícitas estudadas não apresentou diferença significativa quanto ao sexo, nem quanto à idade ou classe social. Esse desfecho esteve associado apenas às variáveis escolaridade do adolescente, ter freqüentado a escola e à ocorrência de reprovação escolar. Discussão As diferenças entre os sexos verificadas neste estudo concordam com achados do estudo domiciliar do Brasil. Em 2001, Carlini et al. encontraram uma estimativa de uso na vida de tabaco que somava 46,3% entre os homens e 36,3% entre as mulheres. Porém, entre jovens, de 12 a 17 anos, havia um discreto predomínio entre as meninas, com 16,2% delas afirmando já ter consumido cigarros contra 15,2% dos meninos. O início precoce ou aumento global da prevalência do uso do tabaco implicam preocupação imediata do ponto de vista de saúde pública, mais especificamente, do ponto de vista da saúde das mulheres. Em 1998, Costa-e-Silva & Koifman apontavam que quatro fatores sócio-demográficos em larga expansão na América Latina tornaram esta parte do mundo especialmente atrativa para a indústria multinacional do tabaco: o incremento progressivo da população jovem, o aumento de um padrão de vida urbano, maior acesso à educação e o acesso das mulheres ao mercado de trabalho. Os quatro parâmetros reunidos apontariam mulheres jovens, urbanas e com maior escolaridade como a população-alvo preferencial da indústria tabagista. O estudo de Carlini et al., de base domiciliar realizado nas 107 maiores cidades do Brasil, usou como indicadores do comportamento dos sujeitos em relação ao álcool as variáveis "uso na vida" e "uso regular" (este último definido como beber pelo menos três dias na semana). Neste estudo, trabalhou-se com a ocorrência de consumo no mês que antecedeu as entrevistas. Isso faz com que os dados não possam ser comparados com precisão, mas destacam-se a proximidade entre os valores encontrados por Carlini et al. para uso na vida (52,2% entre meninos de 12 a 17 anos e 44,7% entre meninas da mesma idade) e os que foram aqui descritos. Os dois estudos concordam ao indicar maior ocorrência de consumo de álcool entre adolescentes do sexo masculino. Do ponto de vista da saúde das populações, os dados aqui apresentados parecem prenunciar um alto preço a ser pago no futuro, uma vez que as complicações decorrentes do uso de tabaco, álcool e ilícitas resultam em ocorrências letais, mas de incidência retardada em relação às mudanças dos padrões de consumo, especialmente o tabaco. Dos dados aqui apresentados, destacam-se ainda a preocupante associação entre um menor desempenho escolar e a ocorrência de fumo e uso de drogas. O uso de drogas apareceu associado também à inexistência de vínculo com a escola e a maior ocorrência de reprovações escolares. Parece preocupante que populações com menor acesso à educação formal estejam mais expostas aos riscos decorrentes do consumo daquelas substâncias. Esses dados devem ser considerados no planejamento de políticas voltadas à população mais jovem. Nesta amostra, em Pelotas, constata-se a ocorrência elevada de consumo de drogas ilícitas entre adolescentes que não estão mais na escola ou que somam, no máximo, quatro anos de estudo. A exclusão da educação formal elimina a escola como uma rota de acesso às políticas de prevenção e atenção a usuários de substâncias psicoativas. Os dados deste estudo parecem indicar que o uso de drogas ilícitas, álcool e tabaco variam segundo o sexo e a idade da população adolescente na cidade de Pelotas. As meninas estão fumando mais que os meninos e estes consomem mais álcool que as meninas e parecem estar fazendo uso continuado de drogas ilícitas em maior percentual do que as meninas, apesar dos dados relativos à ocorrência de experimentação de drogas ilícitas ao longo da vida não ter dependido do sexo de quem respondia. Jovens de 17 e 18 anos, independente do sexo, consomem mais álcool, tabaco e drogas ilícitas que aqueles com idades entre 15 e 16 anos. Classe social, escolaridade, vínculo com a escola e a ocorrência de reprovações escolares estiveram mais associadas ao consumo de tabaco e drogas ilícitas, estando o consumo de drogas ilícitas intimamente associado a prejuízo no desempenho escolar e da permanência na escola, e o consumo de tabaco tendo incidido mais entre populações com menor escolaridade. Pela complexidade do tema, parece recomendável que se amplie a discussão com o envolvimento de movimentos sociais e setores diversos da sociedade civil e mídia, além de gestores públicos. A replicação de estudos de base populacional, em pontos distintos do território nacional, poderia aumentar a capacidade de monitoramento desses indicadores, subsidiando, com maior qualidade, o debate em torno do tema. Tobacco, alcohol, and drug use by teenagers in Pelotas, Rio Grande do Sul State, Brazil: a gender approach. Cad. Saúde Pública vol.23 no.4 Rio de Janeiro Apr. 2007 Rogério Lessa Horta Bernardo Lessa Horta Ricardo Tavares Pinheiro Blanca Morales Marlene Neves Strey Fonte:Site Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas)/Programa Álcool e Drogas (PAD) do Hospital Israelita Albert Einstein