Drogas lícitas e perigosas

A maconha, o êxtase e a cocaína não são mais as únicas drogas a “fazerem a cabeça” dos jovens que buscam os mais variados efeitos e sensações. Tão acessíveis, e muitas vezes mais perto do que os pais imaginam, estão os psicotrópicos lícitos, como os ansiolíticos, barbitúricos e anfetaminas. Todos eles, quando consumidos em altas doses, sem prescrição ou acompanhamento médico e misturados ao álcool, produzem um efeito tão devastador quanto as drogas ilícitas. E podem levar à morte.

O número de jovens do Distrito Federal que consomem estes remédios tem assustado. Um estudo do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas – Cebrid, da Universidade Federal de São Paulo, mostra que 7,8% dos estudantes da cidade já fizeram uso de medicamentos com substâncias anfetamínicas e ansiolíticas. Dos 2.637 estudantes entrevistados, 5,9% das mulheres já haviam usado anfetaminas, enquanto a percentagem dos homens fica em 3,9%. Embora o consumo de ansiolíticos tenha decrescido entre os anos de 1997 e 2004, o dos anfetamínicos continuou a crescer.

As drogas psicotrópicas são aquelas que agem no sistema nervoso central, produzindo alterações de comportamento, humor e cognição. As anfetaminas exercem efeito acentuado na função mental e no comportamento. Causam euforia, produzem excitação, aumentam a atividade motora e diminuem a sensação de fadiga. Os ansiolíticos, prescritos para diminuir a ansiedade, também são usados como inibidores de apetite. O culto ao corpo e a busca de viagens psicodélicas têm feito com que os jovens sintam cada dia mais atração por estas drogas.

Segundo o psicólogo e mestrando em Ciência do Comportamento pela Universidade de Brasília – UnB, André Bravin, as anfetaminas, barbitúricos e ansiolíticos têm grande potencial para causar dependência. “São medicamentos tarja preta, mas os interessados sempre encontram maneiras de adquiri-los. É possível que, por serem consideradas drogas lícitas, os usuários sintam mais segurança e menos medo de portar e usar essas substâncias”, afirma.

No entanto, tal como as drogas ilícitas, estes medicamentos podem causar muitos danos, quando usados abusivamente. “O uso crônico e indevido dessas drogas induzem problemas graves, como quadros de psicopatologia, ou seja, doenças mentais. A depressão, ansiedade ou psicose tóxicas por substâncias são alguns exemplos”, lembra o psicólogo.

Raves e baladas

Em busca do grande “barato”, até antiinflamatórios são usados pelos jovens curiosos que freqüentam raves e baladas. O servidor público Bruno*, 21 anos, não hesitou em tomar uma super dose de um antiinflamatório famoso entre os jovens. O remédio, tarja vermelha, é muito utilizado pela moçada nas noites e pode ser adquirido em qualquer drogaria com facilidade.

Para conseguir o efeito alucinógeno, os usuários tomam vários comprimidos. A partir daí, as experiências inusitadas começam a acontecer. “Há uns dois anos tomei dez comprimidos de uma só vez. A curiosidade me levou a procurar a experiência. Eu conhecia pessoas que tinham tomado e falavam que era bom. Comprei na farmácia da esquina, sem nenhum problema. Para maximizar o efeito, ingeri o remédio com bebidas alcoólicas e fui para uma festa. A experiência foi terrível. Fiquei muito louco e passei mal. Nem lembro direito o que aconteceu. Só sei que não quero sentir isso nunca mais. É loucura”, diz Bruno. Sob o efeito da droga, a pessoa tem sensações intensas, distorcidas e alteradas e chega a dizer frases absurdas. Geralmente, depois de passado o efeito, a pessoa fica cansada e sonolenta.

A esteticista Patrícia*, 29 anos, não busca ter alucinações, mas visa conquistar um corpo perfeito. Por isso, passou a usar ansiolíticos. Apesar de serem medicamentos controlados, eles também são adquiridos sem receituários em algumas farmácias. “Como tenho hipotireoidismo, engordo com facilidade. Então, acabo utilizando estes remédios para ficar em forma. Desde os 16 anos tomo inibidores de apetite”, conta. Ela diz que sempre administrou as dosagens e nunca consultou um especialista. “O espelho é meu guia. Quando vejo que estou acima do peso e com as roupas apertadas, tomo o medicamento”, diz. Patrícia conhece bem os efeitos colaterais da droga. Boca seca, nervosismo, insônia e constipação intestinal são comuns e podem ser agravados em pessoas que não precisam realmente receber a medicação. “Nos primeiros dias que eu tomo o remédio não consigo nem dormir. Também tenho taquicardia forte”, relata.

De acordo com o psicólogo André Bravin, é comum pessoas como Patrícia desenvolverem tolerância à medicação, ou seja, precisarem de grandes quantidades do medicamento para conseguir o efeito desejado. A partir daí, passam a ter problemas de abstinência e gastam boa parte do dia em função da necessidade de adquirir o remédio. “Misturados com álcool, os efeitos dos ansiolíticos se potencializam, podendo levar a pessoa ao estado de coma ou morte”, alerta.
(*) Nomes fictícios
Fonte: Jornal de Brasília – DF – OBID