Álcool: garçom terá que dar sinal de alerta

Com o objetivo de combater o consumo de álcool no Brasil, decreto publicado no Diário Oficial da União estabelece estratégias para enfrentar os problemas relacionados ao consumo das bebidas, desenvolvendo ações para reduzir os danos à saúde e diminuir a criminalidade. Mas, na prática, algumas questões são polêmicas. Os garçons, por exemplo, devem parar de servir bebidas alcoólicas quando identificarem os sintomas de embriaguez nos clientes. Também está previsto o fornecimento gratuito de água potável. A medida faz parte da Política Nacional coordenada pela Secretaria Nacional Antidrogas e ainda está em fase de capacitação para tornar-se Lei no futuro.

Em relação ao decreto que obriga bares e restaurantes a oferecerem água potável a pessoas que estejam visivelmente alcoolizados, a choperia Giovannetti, em Campinas, diz ser a favor. “Não vemos problema em oferecer água a pessoas que tenham bebido demais. É até uma obrigação da casa. Normalmente, oferecemos água de galão, potável, a mesma que os funcionários bebem”, explica Wagner Bordin gerente do Giovannetti Cambuí.

Vilson Júnior, garçom da casa, é um dos que fazem o possível para evitar que os clientes passem da conta e saiam do bar alcoolizados. Mesmo sabendo que a gorjeta varia de acordo com a conta da mesa, Vilson diz considerar o bem-estar do cliente mais importante. Por isso, muitas vezes, em vez de oferecer mais um chope ou uma bebida alcoólica, prefere oferecer uma água, um refrigerante ou até um cafezinho.

“Já cheguei a colocar um refrigerante na mesa sem que o cliente tivesse pedido. Ele estava tão animado que acabou bebendo sem perceber. Até hoje, nunca tive problema com ninguém e muitas vezes tenho até o apoio dos demais que estão sentados à mesa e também percebem que o cliente está alcoolizado”, diz orgulhoso.

Outros garçons acreditam que a medida pode não funcionar, uma vez que eles estão ali para servir os clientes. “Avisar quem a gente conhece que o consumo de álcool já passou dos limites é fácil. Tenho muito amigos aqui no bar e não fico constrangido em dizer. Agora, imagina ter que avisar quem eu não conheço? A pessoa vai ficar ofendida e pedir para que eu sirva a bebida de qualquer jeito”, disse o garçom do City Bar, também em Campinas, Adriano da Silva Rosa Yassunasa, de 33 anos.

Para ele, a medida não tem como ser controlada. “Você pode até impedir o consumo de alguém que já bebeu demais. Ele vai levantar e procurar outro bar. Não acho que isso funciona”, ressaltou Yassunasa.

Os clientes também não concordam com o decreto. “Eu acredito que cada pessoa sabe o seu limite. Como o garçom pode identificar se bebi demais ou não? No caso da bebida contribuir para o aumento da criminalidade, acredito que isso acontece, geralmente, em bares da periferia. Como é que vai existir o controle da bebida em todos esses lugares? A Operação Fecha-Bar, que foi realizada em diversas cidades do estado de São Paulo com o objetivo de baixar as portas dos estabelecimentos às 22h para evitar ações violentas, não funcionou na maioria delas”, disse o advogado Fernando Vido.

A opinião de um grupo de amigos que dividia uma mesa no City Bar é unânime. Eles acham que a medida é interessante, mas que não funciona na prática. “Quem está bebendo não quer ouvir que já passou dos limites. O decreto é positivo, mas duvido que as pessoas vão cumprir”, disse o gerente Leandro Silva, de 26 anos. A amiga Juliana Oliveira, de 24 anos, complementa: “Quem freqüenta bar quer tomar o que quiser e quanto achar necessário”.

As estudantes Juliana Viotto, de 21 anos, Rachel Guimarães, de 23, e Fabiana Azuma, de 21, disseram que esse decreto só evita o alcoolismo se a pessoa quiser ser ajudada, do contrário, pouco importa se o garçom vai servir ou não, já que a pessoa pode comprar a bebida em um supermercado e beber em casa. “Não tem como ajudar quem não quer”, disse Juliana.
Fonte: CORREIO POPULAR – CAMPINAS – SP – OBID