Uso de anticonvulsivantes no tratamento do alcoolismo

É notório que muitos medicamentos atuam em outras áreas além daquelas a que se destinam, tanto de maneira benéfica como prejudicial. Um exemplo que vem se destacando pelo amplo espectro de atuação, abrangendo desde tratamentos para dores de cabeça e transtornos alimentares até a terapêutica de psicopatologias, são os anticonvulsivantes – ATCs.

O uso potencial da última geração desses fármacos vem sendo estudado no tratamento do alcoolismo. Configuram-se como uma alternativa aos benzodiazepínicos – BZD e a outros tratamentos farmacológicos na prevenção de complicações decorrentes do processo de desintoxicação, pois apresentam ausência de propriedades aditivas e menos efeitos adversos, como, por exemplo, déficits cognitivos, o que implica uma melhor aceitação e, conseqüentemente, uma maior tolerabilidade a farmacoterapia.

Artigo publicado pelo Jornal Brasileiro de Psiquiatria, em 2007, com o objetivo de avaliar o uso potencial de medicamentos anticonvulsivantes no tratamento ambulatorial da dependência de álcool. Por tratar-se de um artigo de revisão, a coleta de dados se deu por meio da revisão da literatura especializada de ensaios clínicos controlados.

Os anticonvulsivantes de última geração são uma classe de intervenção farmacológica – IF promissora na prevenção de recaídas no tratamento da Síndrome de Dependência do Álcool – DAS, devido à ausência de potencial de abuso – ou seja, auto-administração repetida, resultando em tolerância, abstinência e comportamento compulsivo de consumo -, a sua ação estabilizadora do humor (no caso de comorbidades psiquiátricas como Transtorno Afetivo Bipolar), à menor interação com o álcool, quando em comparação com os benzodiazepínicos; ao efeito anti-craving, ao uso potencial no tratamento da síndrome de abstinência protraída (abstinência tardia), e pelos efeitos, anticonvulsivante e anti-kindling – o kindling (Goddart, 1969) é a sensibilização acarretada pelo uso crônico da droga, onde a resposta neuronal é intensa mesmo que se consuma pequenas doses da substância, podendo desencadear crises convulsivas.

Atualmente, a terapêutica da dependência de álcool é feita com os fármacos dissulfiram, naltrexona e acamprosato. Anticonvulsivantes como carbamazepina, ácido valpróico, gabapentina e topiramato demonstraram ser excelentes tratamentos para síndrome de abstinência do álcool e prevenção de recaídas, principalmente por possuírem o mecanismo de ação semelhante ao do álcool.

Foi evidenciado que o topiramato tem múltiplas ações em vários sistemas de neurotransmissores sendo uma promissora IF tanto no tratamento da SDA como no da Síndrome de Abstinência Alcoólica – SAA. Esse medicamento diminui a freqüência e a quantidade do consumo de álcool, sendo também capaz de reduzir o craving e a impulsividade associada à fissura. A carbamazepina, a gabapentina e o valproato de sódio teriam uma indicação restrita no tratamento auxiliar da SAA.

Concluiu-se – não obstante os ATCs não tenham sido aprovados pela Food and Drug Administration – FDA (sigla em inglês) – que é patente a crescente evidência na literatura ratificando o uso potencial de anticonvulsivantes. Os autores ressaltaram que há necessidade de mais estudos clínicos controlados com a carbamazepina e o valproato de sódio para uma ampla utilização terapêutica na Síndrome de Dependência do Álcool.

Texto resumido pelo OBID a partir do original publicado pelo Jornal Brasileiro de Psiquiatria, Rio de Janeiro, 55(3): 212-217, 2006. Editada pelo Instituto de Psiquiatria da UFRJ.

Autor: CASTRO, L. A. e COUZI, C.
Fonte: OBID