Brasil é campeão na venda de inibidores de apetite

Dietas e exercícios físicos ou remédios. Qual é a melhor receita para emagrecer? A resposta pode parecer simples, mas está longe de ser. Quando se trata de emagrecimento, há soluções diferentes para casos diferentes. Mas a opção do brasileiro normalmente descamba para o aparentemente menos sacrificante e certamente o mais arriscado. Por essa razão, o Brasil continua campeão no consumo de inibidores de apetites.

Um relatório da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes – Jife, das Nações Unidas, divulgado em 2007, revela que 13 entre mil brasileiros consomem anorexígenos contra nove estadunidenses para o mesmo universo. Aqui, o consumo de femproporex, anfepramona e mazindol – os princípios ativos dos inibidores de apetite mais usados no mundo é 40% mais alto do que nos Estados Unidos. Os números ficam mais assustadores quando se incluem os outros tipos de remédios. Segundo pesquisa da IMS Health, empresa responsável pela auditoria da indústria farmacêutica, em 2006 foram vendidas mais de 5,3 milhões de embalagens de medicamentos para emagrecer nos balcões das drogarias, sem contar as fórmulas manipuladas em farmácias magistrais.

Mas será que é necessário tomar remédios para atingir o peso ideal? As diretrizes da Organização Mundial de Saúde – OMS para o controle da obesidade recomendam o uso apenas para pacientes com um Índice de Massa Corporal – IMC, maior que 30, ou 25 com alguma doença associada, como diabetes, hipertensão ou colesterol alto. “Eles podem ser consumidos nesses casos, mas sempre com acompanhamento médico constante”, afirma o Presidente da Federação Latino-Americana para o Estudo da Obesidade, Walmir Coutinho. Só que o medicamento sozinho não faz milagre. “A melhor maneira de emagrecer é associar o tratamento a uma dieta equilibrada e à prática de exercícios físicos”, garante o endocrinologista.

Novas regras

Para coibir o abuso de inibidores de apetite, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa, mudou o controle da venda desses remédios nas drogarias e farmácias de manipulação. Criou o Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados. O Gerente de monitoramento e fiscalização da Anvisa, Kleber Pessoa de Melo, explica que, pelo novo programa, as informações sobre a receita e a compra serão registradas online, no ato da compra. “Será possível acompanhar, com mais rapidez, qualquer mudança de padrão na venda dos medicamentos controlados”, garante. As farmácias de manipulação de todo o país e drogarias das regiões Sul e Sudeste e do Distrito Federal adotarão o sistema em setembro de 2007. Os estados do Centro-Oeste e Nordeste, em outubro, e os do Norte, até março de 2008.

Riscos do abuso

Segundo o Ministério da Saúde, o problema do excesso de peso no país é mais grave do que a fome. Calcula-se que 50% da população brasileira esteja com quilos a mais do que deveria. São cerca de 70 milhões de pessoas com sobrepeso – IMC entre 25 e 30, e 18 milhões de obesos – IMC maior que 30. “Às vezes, essas pessoas precisam de remédios, juntamente com dieta e exercícios, para controlar a obesidade”, afirma o Presidente da Associação Brasileira de Nutrologia, Durval Ribas Filho.

Ele explica que as drogas usadas no tratamento da obesidade são de quatro grupos, com diferentes mecanismos de ação. Os que trazem as substâncias anoréticas e a sibutramina agem inibindo o apetite ou aumentando a saciedade. Há também os inibidores que impedem a absorção de 30% da gordura ingerida. “É uma mentira quando se fala na utilização de anfetaminas nesses remédios ou fórmulas. Femproporex, anfepramona e mazindol são drogas anorexígenas, que inibem a fome, e não derivados anfetamínicos”, garante Ribas.

O nutrólogo explica que as anfetaminas são drogas sintéticas usadas como estimulantes. Apenas dois tipos — metilfenidato e metanfetamina têm a comercialização liberada no País. O seu uso se restringe ao tratamento de quadros severos de narcolepsia – doença caracterizada por períodos de sono breves, repetidos e incontroláveis, e de hiperatividade. Também são conhecidas como rebite, bolinha, ice e êxtase. “Claro que há consumo sem controle, principalmente por caminhoneiros e jovens”, argumenta.

Seja anfetamina ou não, remédio é remédio e, por isso, tem riscos. O endocrinologista Walmir Coutinho explica que os efeitos colaterais variam conforme o tipo. Entre os inibidores de apetite, predominam os decorrentes do estímulo cerebral como nervosismo e insônia. Entre os estimulantes da saciedade, são mais freqüentes a boca seca, a constipação intestinal e a insônia. Já os inibidores de absorção das gorduras, quando não associados a um plano alimentar equilibrado, podem causar diarréia. As doses devem ser limitadas. “Não se deve ultrapassar dose diária de 25mg de femproporex, 2mg de mazindol ou 75mg de anfepramona”, resume o Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabolismo, Newton Dornelas, no Distrito Federal.

Cuidado com os suplementos alimentares

As substâncias inibidoras de apetite estão presentes de forma clandestina na produção de alguns tipos de suplementos alimentares. Recentemente, os jogadores Dodô, do Botafogo, e Jaqueline Carvalho, da Seleção Brasileira de Vôlei, foram surpreendidos com o resultado de exames antidoping que revelam a presença de produtos proibidos no teste da urina. Os dois acreditavam estar consumindo produtos naturais.

Suspenso por 120 dias, Dodô tomava um suplemento alimentar à base de cafeína, mas na fórmula foram encontrados traços do inibidor de apetite fenproporex em seu organismo. Jaqueline também foi pega no exame antidoping. O exame da atleta também acusou a presença da sibutramina, um outro tipo remédio emagrecedor. Em sua defesa, a jogadora de vôlei culpou um tipo de chá verde contra celulite que tomou durante três dias.

Combinações perigosas

As tais fórmulas emagrecedoras, que combinam vários tipos de princípios ativos, são condenadas por médicos. Newton Dornelas explica que essas formulações geralmente possuem componentes contra-indicados para o emagrecimento, com a associação de hormônios, laxantes, diuréticos e antiansiolíticos ou antidepressivos. “É um crime. Essas associações são proibidas por Lei”, condena. Para fugir do veto legal, alguns médicos receitam três frascos, com fórmulas diferentes: uma traz o inibidor de apetite; a segunda, produtos vegetais, laxantes, diuréticos e hormônio tireoidiano, e uma terceira, calmante. “Diuréticos e laxantes não emagrecem, eles levam à perda de peso pela perda de água e não pela perda de gordura. Hormônios tireoideanos não emagrecem ninguém, pois quando levam à redução do peso é por meio de perda de massa magra e não de gordura”, explica a endocrinologista Ellen Paiva. Os hormônios tireoideanos, quando ingeridos por pessoas que não têm deficiência desses hormônios, levam a um quadro de excesso de hormônios e imitam uma doença chamada hipertireoidismo.

O farmacêutico Hugo Guedes de Souza, Presidente da Associação Nacional de Farmácias Magistrais – Anfarmag, rejeita as críticas que apontam as farmácias de manipulação pelo comércio abusivo das fórmulas. “O responsável pela receita é o médico. É ele que conhece o estado de saúde do paciente e pode indicar o melhor remédio. O farmacêutico produz o que determina o receituário”, defende-se.

O que diz a Lei

O artigo 47 da Portaria 344 de 12/05/1998 – da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, estabelece que “ficam proibidos a prescrição e o aviamento de fórmulas contendo associação medicamentosa das substâncias anorexígenas constantes das listas do Regulamento Técnico e de suas atualizações, quando associadas entre si ou com ansiolíticos, diuréticos, hormônios ou extratos hormonais e laxantes, bem como quaisquer outras substâncias com ação medicamentosa”.
Autor: Correio Braziliense-DF
Fonte: OBID