Consumo de álcool por adolescentes residentes na cidade de Paulínia – São Paulo

Introdução

Apesar das diferenças socioeconômicas e culturais entre os países, a Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta o álcool como a substância psicoativa mais consumida no mundo e também como a droga de escolha entre crianças e adolescentes. Segundo o “V Levantamento Nacional com Estudantes” realizado em 2004 pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID), 65,2% dos estudantes relataram uso na vida de álcool; 44,3% nos últimos 30 dias; 11,7% uso freqüente, ou seja, seis ou mais vezes no mês; e 6,7% uso pesado, isto é, 20 ou mais vezes no último mês.

Além da alta prevalência do consumo de álcool por adolescentes, dois outros fatores são relevantes: a idade de início do uso de álcool e o padrão de consumo. Estudos sugerem que a idade de início vem se tornando cada vez mais precoce – no Brasil, e a média de idade para o primeiro uso de álcool é 12,5 anos. Por sua vez, quanto mais precoce a experimentação, piores as conseqüências e maior o risco de desenvolvimento de abuso e dependência de álcool.

Quanto ao padrão de consumo, a literatura revela que quando adolescentes bebem, tendem a fazê-lo de forma pesada, apresentando episódios de abuso agudo (binge drinking), ou seja, beber cinco ou mais doses em uma ocasião. Tal comportamento aumenta o risco de uma série de problemas sociais e de saúde, incluindo: doenças sexualmente transmissíveis, gravidez indesejada, infarto do miocárdio, acidentes de trânsito, problemas de comportamento, violência e ferimentos não intencionais. Estudo realizado em na capital de São Paulo em 2000, com 1.808 estudantes (993 de escolas públicas e 815 das privadas), mostrou que 25% deles tiveram pelo menos um episódio de binge drinking nos 30 dias anteriores à pesquisa.

Dados brasileiros associados ao uso de álcool e estas conseqüências ainda são escassos. Sabe-se, porém, que os acidentes de trânsito são freqüentemente relacionados à alta concentração de álcool no sangue, maior do que 0,6 g/L, limite de alcoolemia permitido pelo Código Brasileiro de Trânsito. Um estudo toxicológico com 5.960 amostras de sangue e vísceras de vítimas com ferimentos fatais realizado em 1994 no Instituto de Medicina Forense em São Paulo, mostrou que 48,3% das vítimas tinham alcoolemia positiva.

Desse modo, nota-se que a compreensão dos problemas relacionados ao consumo de álcool entre adolescentes deve se estender para além da prevalência do uso, e considerar também o padrão e o comportamento de consumo. Diversos fatores influenciam o comportamento do beber: contexto familiar e social, expectativas e crenças, preço, disponibilidade comercial, facilidade de acesso, e outros. Este estudo teve como principal objetivo traçar um perfil de estudantes em relação à percepção da disponibilidade e facilidade de acesso ao álcool; padrão de consumo de bebida alcoólica; circunstâncias e contexto do consumo de álcool; e conseqüências do comportamento de beber. A presente pesquisa faz parte de um ensaio comunitário, pioneiro no Brasil, para redução de problemas relacionados ao consumo de álcool na cidade de Paulínia (SP) e os resultados deverão ser utilizados para fundamentar a implementação de políticas públicas sobre o álcool no município.

Métodos

Estudo epidemiológico de corte transversal com uma amostra randomizada (escolhida ao acaso) de estudantes de quinta série de ensino fundamental a terceira série de ensino médio do curso regular nos períodos da manhã, tarde e noite, de escolas públicas e privadas de Paulínia (SP). A coleta de dados foi realizada nos meses de outubro e novembro de 2004. Foi considerado um plano de amostragem estratificado e a distribuição foi proporcional ao tamanho dos estratos.

Todos os estudantes das salas selecionadas que estavam presentes no momento da coleta fizeram parte da amostra. A participação era voluntária e anônima. Os alunos responderam individualmente um questionário de auto-preenchimento, com dois aplicadores treinados por classe e sem a presença do professor. Uma questão com nomes de drogas fictícias foi inserida no questionário para verificar inconsistências e falta de atenção ao responder a pesquisa. As sessões de aplicação do questionário variaram entre 20 a 90 min entre as salas dependendo da série da turma; mas a coleta de dados na maioria das salas foi concluída em menos de 60 min.

A população final estudada foi de 1.990 alunos, de idades entre 11 e 21 anos, dos quais 88% eram menores de 18 anos e 54,5% do sexo feminino. As séries foram agrupadas: 28,9% eram alunos de quinta e sexta séries do ensino fundamental; 23% de sétima e oitava séries e 48,1% eram alunos de primeira a terceira séries do ensino médio. A população estudada era predominantemente católica (59,9%); não trabalhava (76,2%); morava com os pais (71,1%); 50,3% provinham de classe média (C), 26,2% de classe alta (A/B) e 23,5% de classe baixa (D/E).

O questionário baseou-se no instrumento utilizado pelo Prevention Research Center – Pacific Institute for Research and Evaluation (PRC/PIRE) em pesquisas com jovens e foram adicionados conjuntos de perguntas do inquérito do Global School-based Student Health Survey (GSHS) desenvolvido pela OMS em colaboração com The United Nation Children Fund (UNICEF), United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO) e The Joint United Nations Programme on HIV/AIDS (UNAIDS), e com assessoria técnica e científica do Centers for Disease Control and Prevention (CDC). O questionário do Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID) foi utilizado nos levantamentos com estudantes. Ainda foram incluídas perguntas específicas relativas ao comportamento da população do município.

Resultados e Discussão

O “uso na vida” de álcool na amostra total estudada foi de 62,2%. O uso de álcool nos últimos 12 meses foi relatado por 54,5% da amostra total. Quase 24% dos estudantes relataram já ter bebido até se embriagar em algum momento da vida e 19,5% reportaram embriaguez nos últimos 12 meses. A cerveja foi a bebida mais consumida pelos estudantes (40%), seguida dos vinhos (36,9%), e em terceiro lugar as bebidas tipo “ice”, com 10,2% da preferência. Os destilados aparecem em último lugar, com 7,8%. O tipo de bebida utilizada não foi especificado em 5,1% dos casos. Quando comparado entre os sexos, os dois primeiros tipos de bebidas alcoólicas mais consumidos pela amostra total (cerveja, seguida dos vinhos) se invertem no caso das meninas, onde os vinhos aparecem como o tipo de bebida preferido por 42,3% das alunas, seguido da cerveja (33,6%).

O uso de álcool tem início bastante precoce na vida desses adolescentes: 32,8% dos estudantes de dez a 12 anos já fizeram uso de álcool. A média de idade observada para primeiro uso foi de 12,35 anos, e mais de metade dos estudantes (63,3%) iniciou o uso de álcool antes dos 14 anos. Considerando todos os estudantes que já beberam, 99,1% experimentaram bebida alcoólica antes dos 18 anos.

Quanto ao contexto do primeiro uso, 40,4% dos alunos relataram que familiares foram os primeiros a lhes oferecer bebida alcoólica, em seguida estão os amigos (35,5%), iniciativa própria (14,9%) e por outros indivíduos (9,2%). No tocante ao ambiente do primeiro episódio de uso, 42,6% reportaram terem bebido na própria residência, 26,5% na casa de amigos, 18% em bares ou casas noturnas e 12,9% em outros locais, tais como festas e casas de parentes.

Os estudantes relataram que bebem mais freqüentemente na companhia de amigos e parentes (62,4% e 32%, respectivamente), quase metade (47,9%) afirmou que há alguém na família que bebe demais; 12,3% disseram que o pai tem problemas com álcool.

Os locais onde os jovens relataram beber com mais freqüência são: festas (60,5%), na própria casa (22,7%), em casa de amigos (20,9%), casas noturnas (19,2%), na rua (14,3%), em parques e lugares públicos (11%), bares (9,2%), restaurantes (7,4%), eventos esportivos fora da escola (5,1%), quiosque perto da escola (3,4%), dentro do carro (2,8%) e na escola (2,2%).

Os estudantes acharam fácil adquirir bebida alcoólica. Tal percepção varia com o tipo de bebida. A cerveja é considerada fácil de ser conseguida por 87,4% dos alunos. Os vinhos vêm em segundo lugar, com 76%; as bebidas tipo “ice” em terceiro lugar com 56,5%; e, por último, os destilados, com 51,1%.

Quase 55% dos estudantes responderam que pelo menos a metade dos estabelecimentos que eles conhecem venderia bebida alcoólica sem pedir-lhes documento de identidade. Em relação ao comportamento sexual, 7% dos estudantes afirmaram que o consumo de álcool foi determinante, em pelo menos uma ocasião na vida, para que tivessem relação sexual sem que houvessem planejado.

Em relação ao beber e dirigir, 8% dos estudantes relataram ter dirigido após o consumo de álcool; 4,8% disseram que dirigiram mesmo tendo bebido demais para dirigir com segurança, e 2,8 % relataram que foram parados pela polícia enquanto estavam dirigindo.

Em relação à prevalência do consumo, o uso de álcool entre os adolescentes era freqüente, tinha início precoce e aumentava com a idade em ambos os sexos, concordando com a literatura internacional e com estudos brasileiros. Quando analisado o padrão de consumo no último mês, considerando gênero e faixa etária, não foram observadas diferenças entre os sexos até os 15 anos, exceto para o consumo de cinco ou mais doses em uma ocasião, maior entre as meninas na faixa dos 13 aos 15 anos. A partir dos 16 anos, porém, a prevalência entre os meninos foi significativamente maior em quase todos os padrões de comportamento considerados.

Os adolescentes relataram que é fácil obter álcool, tanto pela via comercial (compra), como por intermédio de seus grupos de convívio (parentes e amigos). A facilidade de acesso é percebida dentro de casa e nos círculos de amigos, ambos são o ambiente de consumo e fonte de obtenção de bebidas mais citados pelos jovens.

As fontes de fornecimento de bebida mais citadas no último episódio de consumo foi familiares (31,7%) e amigos (23,5%). Isso é relevante porque os amigos têm influência direta (oferecendo bebida) e indireta (expectativa dos efeitos do uso, aceitação social) sobre o padrão de consumo. Quanto à família, estudos mostram que o uso nocivo de álcool pelos pais e a falta de controle e supervisão sobre o consumo dos filhos associam-se ao aumento do risco de uso nocivo e dependência na idade adulta.

Como conseqüências do consumo, o álcool potencializa a propensão dos jovens a se engajarem em comportamentos de risco. Mesmo o consumo eventual revelou poder expô-los a problemas como acidentes de trânsito, comportamento sexual de risco (doenças sexualmente transmissíveis, gravidez indesejada), violência, ferimentos não intencionais, problemas acadêmicos. Os adolescentes do presente estudo perceberam e relataram tais prejuízos relacionados principalmente ao abuso agudo, e as complicações mais relatadas foram concordantes às propriedades farmacológicas do álcool sobre o organismo.

Quase todos os participantes (90%) eram menores de idade, ou seja, não possuíam carteira de habilitação o que não os isentou do risco de envolvimento em acidentes de trânsito, seja no banco do passageiro ou na rua, como pedestre (vítimas de atropelamento) ou de acidente com veículos não-motorizados.Apesar de álcool e jovens não combinarem, essa “mistura” acontece muito freqüentemente, e o comportamento de beber dos adolescentes ocorre a olhos vistos. É provável que fatores como a omissão do poder público e a permissividade da sociedade em relação ao álcool contribuam para o quadro revelado pelo presente estudo. O consumo de álcool constitui-se um problema de saúde pública, uma vez que não afeta só o consumidor, mas toda a sociedade, resultando num alto custo social evitável. Estratégias preventivas que envolvam intervenções comunitárias, por meio de políticas públicas, têm revelado maior impacto que intervenções individuais.

É dever do poder público criar as condições para implementar as políticas de saúde pública adequadas para prevenir o consumo de álcool e os problemas associados, conscientizar a comunidade e obter seu apoio para as intervenções a serem implementadas. Abordagens exclusivamente “educativas”, embora populares, são tidas como ineficazes pela literatura, mas podem ser usadas em conjunto para promover o necessário suporte a um corpo de políticas. Fazer-se cumprir a lei, por si só, promove uma ação educativa na sociedade. Ação imediata é necessária para evitar que problemas decorrentes da exposição precoce e maciça dos adolescentes ao álcool continuem acontecendo. Não basta fazer leis, é necessário fazer-se cumprir a lei com fiscalização sistemática e punição adequada, consistente e imediata aos infratores. Assim, aumenta a percepção das pessoas da probabilidade da apreensão, da certeza da punição e rapidez de sua aplicação, condições imprescindíveis para desencorajar o comportamento fora da lei. Ao poder público cabe, por meio de estratégias adequadas, proteger a sociedade dos problemas relacionados ao consumo de álcool, conscientizar seus cidadãos e possibilitar que exerçam sua cidadania exigindo e colaborando para uma comunidade mais segura e saudável.

Denise Leite Vieira
Marcelo Ribeiro
Marcos Romano
Ronaldo R Laranjeira

Rev. Saúde Pública v.41 n.3 São Paulo, 2007

Fonte:Site Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas)/Programa Álcool e Drogas (PAD) do Hospital Israelita Albert Einstein