Álcool e drogas avançam nas tribos

As comunidades indígenas têm sofrido há décadas com o avanço dos piores aspectos da cultura dos homens brancos. Um estudo coordenado pela Secretaria Nacional Antidrogas – Senad, e realizado em 11 comunidades indígenas de sete etnias diferentes no Brasil revela a gravidade do problema do uso de bebidas alcoólicas pelos índios. Foram entrevistados 1.455 indígenas, de ambos os sexos, entre 18 e 64 anos. Desse grupo, 38,4 % disseram que consomem bebidas alcoólicas — e quase metade deles – 46,7%, tentou parar de beber, mas não consegui.

Um em cada 10 entrevistados já pensou até em suicídio. Dentre os que pensaram em suicídio, 118 tentaram efetivamente — 41,6% deles são usuários de álcool. Em relação a outras drogas, 8,8% fazem uso de maconha e 2,9% consomem cocaína. Esse é o primeiro levantamento nacional sobre padrões de consumo de álcool e outras drogas entre populações indígenas.

“O que preocupa é que eles são menos assistidos e o acesso à bebida é cada vez mais fácil”, ressalta a secretária-adjunta da Senad, Paulina Duarte. Apesar do quadro, Paulina aponta vantagem dos povos indígenas em relação à população em geral. “A idade média do início de consumo é mais alta”, diz. Enquanto nos centros urbanos os adolescentes começam a beber aos 13 anos, nas aldeias o consumo de álcool começa, geralmente, aos 18. “Podemos chegar a eles antes de começarem a ter problemas com bebidas e da dependência”, acredita.

Segundo a educadora Helena de Biase, o fato de 35,6% dos que bebem estarem adquirindo álcool dentro das próprias terras indígenas pode agravar a situação. “Começam a ter atritos internos de quem vende com as lideranças”, diz. Gerente de projetos da Coordenação Geral de Educação da Fundação Nacional do Índio – Funai, ela lembra que a relação do índio com a dependência do álcool é histórica. “Muitos povos indígenas foram dobrados a partir da cachaça”, destaca. Segundo a educadora, os Kaingang, no Alto Solimões – AM, são um dos povos que sofreu impacto da bebida “presenteada” pelos brancos.

Alcoólicos Anônimos

Para o antropólogo Rodrigo Ribeiro, é necessário criar um projeto de prevenção hoje para resolver um problema que vem desde a colonização. Pesquisador do uso de bebidas alcoólicas pelo povo Krahô, de Tocantins, o especialista considera necessário um trabalho conjunto com instituições como os Alcoólicos Anônimos – AA, e a criação de centros de desintoxicação. “Não existe um modelo pronto para enfrentar a questão”, diz.

Em Roraima, a Coordenação das Mulheres Indígenas tenta descobrir uma fórmula para diminuir a violência provocada pelo álcool. “Até mulheres indígenas que bebiam muito pararam e dizem que hoje conversam mais com os filhos e o marido”, afirma a índia Iranilde Barbosa dos Santos, coordenadora de um trabalho com o povo Macuxi, no norte do estado. Segundo Iranilde, a receita é simples. “Damos dicas de saúde e prevenção por meio de palestras e atividades de lazer. É o que temos condições de fazer”, ensina.
Fonte: CORREIO BRAZILIENSE-DF – OBID