Novo relatório do UNODC revela nível recorde de produção de ópio no Afeganistão

Província no Sul do país produz mais droga que Colômbia, Peru e Bolívia juntos; no Norte, a produção caiu

Cabul, 27 de agosto– A produção de ópio no Afeganistão em 2007 chegou a níveis alarmantes, concentrada principalmente na turbulenta região Sul do país, segundo relatório do Escritório das Nações Unidas contra as Drogas e o Crime (UNODC) divulgado nesta segunda-feira. Contudo, quando comparado com os níveis de 2006, há duas vezes mais províncias livres do ópio no Centro e no Norte do Afeganistão.

O levantamento anual do Ópio 2007 mostrou que a área sob o cultivo do ópio aumentou de 165 mil em 2006 para 193 mil hectares. O volume da produção de ópio será de 8,2 mil contra 6,1 mil toneladas do ano anterior. A quantidade do solo afegão usado para o cultivo do ópio é agora maior do que a área total de cultivo de coca na América Latina: Colômbia, Peru, e Bolívia.
Desde a época da China no século XIX nenhum outro país produziu narcóticos em uma escala tão perigosa.

Norte X Sul: tendências divergentes
Por trás dos números divulgados nas manchetes estão as divergência nos padrões de produção entre as províncias do Norte e do Sul do país. “A situação do ópio afegão está deprimente, mas ainda temos esperança”, disse o Diretor-Executivo do UNODC Antonio Maria Costa.

No Centro e no Norte do Afeganistão, onde o governo aumentou sua autoridade a presença, e o cultivo do ópio vem diminuindo. O número de províncias livres do ópio passou de seis para treze – enquanto na província de Balkh o cultivo do ópio despencou de 7,2 mil hectares no passado, para zero.

Apesar disso, foram observadas tendências opostas no Sul do Afeganistão.
Cerca de 80% de papoulas de ópio foram cultivadas em diversas de províncias ao longo da fronteira com o Paquistão, onde a instabilidade é maior. Na província de Helmand, a mais problemática, onde a insurgência Talibã está concentrada, o cultivo do ópio aumentou 48% chegando a quase 103 mil hectares.

Helmand: principal produtor mundial de drogas
Com uma população de 2,5 milhões, Helmand sozinha se tornou a maior fonte mundial de drogas ilícitas do mundo ultrapassando a produção de países inteiros – como a Colômbia (coca), Marrocos (cannabis) e Mianmar (ópio) – que possuem populações vinte vezes maior.

Costa disse que a pobreza não pode ser usada como desculpa para o cultivo da papoula. No Sul, algumas das regiões mais férteis do país têm se tornado o centro da produção de ópio enquanto províncias mais pobres no Centro e no Norte do país – onde a renda per capita é metade da do Sul – estão livres do ópio.

O cultivo da papoula está intimamente ligado à insegurança. “O cultivo do ópio está inversamente ligado ao grau de controle do governo” disse Costa.
“Onde forças contrárias ao governo imperam, a papoula floresce”.

Mudanças nas diretrizes dos Talibãs
Costa ressaltou que o Talibã reverteu o suas normas religiosos, de junho de 2000, que baniam o cultivo da papoula. Agora o Talibã também está lucrando com o tráfico de drogas. “O que antes era considerado um pecado está agora sendo incentivado”, disse o Diretor do UNODC. Mesmo assim, levantamentos feitos em vilas indicam que a principal razão que leva fazendeiros a não cultivarem a papoula ainda é a crença de que o plantio é proibido pelo Islã.

Apelo à comunidade internacional
O Diretor-Executivo do UNODC faz um pedido para que o governo afegão e a comunidade internacional combatam a dupla ameaça: drogas e insurgência. Só assim será possível construir tendo como base os desenvolvimentos vistos no Norte e reagir aos fracassos do Sul.

“Seria um erro histórico permitir o colapso do Afeganistão por causa da explosão das drogas e da insurgência. Apenas 14% da população estão envolvidos no cultivo do ópio. A grande maioria dos afegãos quer reduzir o problema do seu país com as drogas e o crime. Eles merecem nosso suporte”, falou ele.

Ele pediu mais incentivos financeiros para fazendeiros não produtores de ópio para demonstrar que existem alternativas viáveis para a produção lícita. “A ajuda externa não está sendo distribuída de forma eficiente. Eu vejo o risco de algumas províncias caírem de volta para o cultivo da papoula”, disse Costa.

Costa também enfatizou a necessidade de mais ações para convencer fazendeiros a não plantarem ópio. Agora, uma cláusula contra o ópio deve ser adicionada em todos os programas de ajuda externa e desenvolvimento no país.

Corrupção X desenvolvimento
Costa convocou o governo a fechar o cerco contra a corrupção, que facilita o ciclo do tráfico de drogas. “A ambição no curto prazo está solapando as necessidade no longo prazo do Afeganistão”, alertou.

Baseado na experiência do Norte e do Centro do país onde fazendeiros não mais cultivam a papoula, o objetivo do UNODC é que até o ano que vem, 34 províncias estejam livres do ópio.

Costa pediu à Aliança do Tratado do Atlântico Norte (Otan) mais apoio para operações de enfrentamento às drogas. “As drogas patrocinam a insurgência, e o exército afegão e seus aliados têm interesse em destruir laboratórios de heroína, fechar mercados do ópio e levar traficantes a julgamento.” disse ele.

A resolução 1735 do Conselho de Segurança acrescentou nomes de uma dúzia de traficantes de drogas à lista da ONU sobre a Al Qaida e o Talibã a fim de apreenderem seus bens, impedirem fugas, e facilitarem sua extradição. “Isso iria diminuir o espaço para o manejo de criminosos que atualmente estão operando impunemente, abastecendo a instabilidade e fomentando a produção de drogas ilícitas” falou o diretor do UNODC.

O UNODC também fez um apelo aos estados consumidores de heroína para prevenir e tratar a dependência da heroína e outros derivados do ópio, que levam à morte de mais de 100 mil pessoas por ano.
Fonte: ESCRITÓRIO DAS NAÇÕES UNIDAS CONTRA DROGAS E CRIME – UNODC