O álcool como válvula de escape

O álcool é a droga psicoativa legal e social mais antiga. Legitimado culturalmente devido aos seus efeitos euforizantes, afrodisíacos, relaxantes, indutores do sono e ansiolíticos, o álcool funciona como uma válvula de escape, como forma de fugir do sofrimento mental e da sobrecarga emocional, muitas vezes relacionadas às atividades socialmente desprivilegiadas.

Alguns profissionais de limpeza urbana atribuem ao álcool o papel de minimizador de sofrimentos, o que pode levar ao abuso e, conseqüentemente, a dependência etílica. O presente estudo teve como objetivo descrever o consumo de álcool entre trabalhadores do serviço de coleta de lixo da periferia da zona sul de São Paulo.

A população de estudo foi composta por 100 coletores de lixo, com idades entre 20 e 59 anos, sendo que 91% eram do sexo masculino e 9% do sexo feminino.

A coleta de dados foi realizada por meio do questionário QRCAP (Questionário: Relação do Consumo de Álcool com a Profissão). Este instrumento destina-se a pontuar a freqüência, a quantidade, a dependência, os danos e as conseqüências do consumo de álcool; bem como avaliar a relação do consumo alcoólico com o trabalho exercido, identificando os motivos de iniciação no vício, o uso ou não de álcool durante o expediente de trabalho, os sintomas relacionados à ingestão de álcool e os temores dos sujeitos diante do vício.

Os resultados explicitaram que 94% dos participantes ingerem algum tipo de bebida alcoólica. Entre as mulheres, 66,7% faziam uso de algum tipo de bebida alcoólica, mas não foram consideradas dependentes. Em relação aos homens, 96,7% ingerem bebidas alcoólicas, sendo que a maioria iniciou seu uso na adolescência. Quanto à freqüência de consumo, 34% dos homens, ingeria álcool quatro ou mais vezes por semana, dos quais 15% foram considerados dependentes. 18% dos pesquisados disseram beber ou já ter bebido durante o expediente de trabalho.

Em relação à influência de amigos, 46% apontaram como maior motivo para a iniciação do vício. 67% dos entrevistados já sentiram algum sintoma referente à ingestão de bebidas alcoólicas e 80% relataram ter medo de desenvolverem algum tipo de transtorno mental acarretado pela dependência.

O estudo concluiu que grande parte dos trabalhadores de coleta de lixo pesquisados ingere algum tipo de bebida alcoólica, com alta incidência de consumo entre os homens. Salienta também que fatores de estresse decorrentes do serviço de limpeza pública, como odor expelido pelo lixo, falta de reconhecimento ou incentivo, carga horária excessiva e discriminação social, foram apontados como percussores da ingestão alcoólica. E arremata, enfatizando que a falta de orientação e de informações acerca do uso de álcool contribuem para a prevalência dessa doença.

Texto resumido pelo OBID a partir do original publicado pela Revista Latino-Americana de Enfermagem, Rio de Janeiro, 15(3): 466-452, 2007. ISSN 0104-1169.

Título Original: Uso de bebidas alcoólicas por trabalhadores do serviço de coleta de lixo.

Fonte: MABUCHI, A. S.; OLIVEIRA, D. F.; LIMA, M. P. et al. – OBID