Brasileiro bebe cada vez mais cedo

Júlia – nome fictício, 14 anos, jamais teve dificuldade para comprar bebidas alcoólicas. Mesmo orientada pelos pais em casa, desde os 11 anos – quando começou a consumir, a menina nunca teve qualquer impedimento em distribuidoras de bebidas, supermercados ou postos de combustíveis. Pelo contrário.

Com colegas, também menores de idade, não só comprava como levava em grandes quantidades. Eram engradados de cerveja e garrafões de vinho para as festinhas nas casas de amigos, onde, mesmo com a presença de adultos, o consumo também nunca foi barrado. “A primeira vez que bebi foi em uma festinha na casa de um namoradinho. Os pais dele estavam lá e não fizeram nada. Todos meus amigos estavam bebendo e sempre beberam nessas festinhas na presença de adultos.”

Desde então, Júlia só parou de beber em maio deste ano, quando a mãe, já preocupada com o comportamento agressivo e disperso da filha, resolveu buscar ajuda: a dependência química havia saltado do álcool para a maconha e a cocaína. Júlia ficou internada um mês em uma clínica de reabilitação e hoje ainda está sob acompanhamento médico e psicológico. “Eu via todo mundo rindo, se divertindo ao beber e achava aquilo legal”, revela.

O caso de Júlia ilustra o que aponta o 1.º Levantamento Nacional sobre os Padrões de Consumo de Álcool na População Brasileira, feito pela Universidade Federal de São Paulo – Unifesp, a pedido da Secretaria Nacional Antridrogas – Senad, do governo federal: a facilidade que adolescentes e jovens têm em adquirir bebidas alcoólicas tem levado o brasileiro a beber cada vez mais cedo e em quantidades preocupantes.

O estudo aponta que 13% dos adolescentes – entre 14 e 17 anos, apresentam padrão de consumo alto – bebem uma vez por semana ou mais, podendo consumir cinco ou mais doses em ao menos uma dessas ocasiões. A média com que esses adolescentes começam a beber está em 13,9 anos. Por volta dos 14,6 anos passam a beber regularmente.

Para o coordenador da pesquisa, o médico e professor de Psiquiatria da Unifesp Ronaldo Laranjeira, o consumo precoce está acontecendo por dois motivos: a banalização do álcool nas propagandas e o fácil acesso à bebida. “Os comerciais bombardeiam os adolescentes dizendo que a melhor forma de se divertir é bebendo. Não é exagero dizer que a propaganda está moldando a atitude desses adolescentes”, ressalta.

Laranjeira critica o fato de não haver regulamentação na venda de bebidas no país. Isso mesmo com o indicativo da população de que quer restrições – 95% quer mais rigor na fiscalização na venda para menores de idade, 56% defende aumento de impostos sobre bebidas, 92% quer mais programas preventivos nas escolas e 86% gostaria que houvesse mais campanhas governamentais de alerta. “A população está disposta a combater o problema, mas o poder público pouco tem feito. Parece que o governo está ouvindo mais a indústria do álcool”, afirma Laranjeira. Dessa forma, comerciantes mal-intencionados seguem vendendo para crianças e adolescentes – como no caso de Júlia. “É muito fácil e barato comprar bebida alcoólica no Brasil”, enfatiza o médico.

O também médico psiquiatra Dagoberto Hungria Requião, diretor do Hospital Nossa Senhora da Luz, em Curitiba – um dos mais antigos do estado especializado em tratamento mental –, acrescenta como estimulantes ao consumo precoce o despreparo da família, da escola e mesmo dos profissionais de saúde.

Ele explica que hoje os pais estão delegando a educação dos filhos exclusivamente às escolas. “As famílias não têm mais regras próprias. E jogam a responsabilidade da educação para as escolas, o que é inconseqüente porque as escolas também estão despreparadas para abordar isso”, argumenta.

Nas escolas, aponta Requião, ocorrem duas situações: ou os professores realmente estão incapacitados para conectar o baixo rendimento escolar – faltas, notas baixas ou dispersão, com o consumo de drogas; ou têm medo. “Muitas vezes os professores temem a reação dos pais ou do próprio aluno”, reforça. Dessa forma, os adolescentes deixam de ser encaminhados para profissionais especializados.

No setor de saúde a dificuldade é a mesma. “O diagnóstico precoce pode ser feito por qualquer profissional de saúde. Mas muitas vezes um pediatra, por exemplo, se constrange em abordar o assunto com os pais”, aponta.

O psicólogo Celso Maçaneiro, coordenador da Clínica Nova Esperança, afirma que o descaso dos pais acontece durante o próprio tratamento. “Muitos pais pensam que nós sozinhos vamos solucionar o problema do filho. Mas não é só o dependente que tem de ser tratado, e sim a família toda”, diz. Maçaneiro salienta que muitas vezes a família chega à clínica mais doente do que o próprio dependente. “Eles não sabem lidar com uma série de sentimentos em relação ao filho doente. Aí vem o preconceito, a vergonha, a culpa e isso precisa ser trabalhado.”

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Fonte:Gazeta do Povo – PR -OBID