Quando a cura vira doença

Os medicamentos podem virar doenças. Doenças graves que, em alguns casos, acabam até em morte. Ao recorrer a um comprimido ou xarope sem orientação médica, o que era uma forma de sanar o problema pode se tornar um “passaporte” para complicações de saúde. Segundo os dados do Centro de Vigilância Sanitária Estadual de São Paulo- CVS, de cada dez casos de intoxicação registrados em São Paulo, quatro resultam do mau uso dos medicamentos – o principal responsável pelos 128.769 mil atendimentos prestados pelos 11 Centros de Assistência Toxicológica – Ceatox, do Estado.

Durante 10 anos, foram avaliados os principais fatores que resultaram em intoxicação. Os medicamentos sempre estiveram no topo do ranking, somando 49.743 ocorrências no período, uma média de 13 casos por dia no Estado de São Paulo. Segundo os especialistas, as explicações para os medicamentos se manterem na liderança das intoxicações são a venda indiscriminada desses produtos nas farmácias e a automedicação.

“Identificamos que as substâncias que mais aparecem nos casos de intoxicação são ingredientes de medicamentos controlados, que deveriam ser vendidos só com prescrição médica”, diz a responsável pelo Núcleo de Toxicovigilância do CVS, Eliane Gandolfi. “Outro fator é que nas propagandas, na TV, nas novelas, os medicamentos só aparecem associado à idéia de cura. As pessoas não imaginam que eles também podem fazer mal”.

O professor de toxicologia da Unifesp, Sérgio Graffe, reforça que os analgésicos e os antitérmicos, vendidos livremente, também estão entre os principais produtos que causam intoxicações. “São medicamentos que não precisam de receita, mas que podem causar problemas. O adulto muitas vezes não tem paciência para esperar o medicamento fazer efeito e toma vários comprimidos. O resultado é intoxicação por superdosagem”.

Pelo estudo do CVS, os medicamentos superaram os agrotóxicos e os produtos de limpeza, que somaram 17,1% e 15,5% do total de casos de intoxicação, respectivamente. Apesar da “pressa” dos adultos e da compra indiscriminada nas farmácias, as principais vítimas dos malefícios dos medicamentos são crianças menores de 5 anos, que representam 59% dos casos, seguidas pela faixa etária entre 10 e 21 anos, com 17%. “A criança explora o mundo colocando tudo na boca. Como tem acesso fácil aos medicamentos, o nível de intoxicação é maior. Os pais cuidam de armazenar bem produtos de limpeza, mas não dão tanta importância aos medicamentos”, afirma a coordenadora da ONG Criança Segura, Luciana O´Reilly.

O farmacêutico do Centro Brasileiro de Informações sobre Medicamentos – Cebrim, Rogério Hoefler, ressalta um outro agravante do uso sem critério dos medicamentos. “A automedicação pode mascarar os sintomas de doenças mais graves”, fala. “Por exemplo, alguém que acha que tem gastrite e se automedica só com sal de frutas durante meses. Quando procura o médico descobre que tem um câncer de intestino – que pode estar em estágio avançado”.
Fonte: JORNAL DA TARDE-SP – OBID