Balada movida a êxtase

O envolvimento de jovens modelos com o mundo das drogas não é novidade para profissionais do ramo. São comuns histórias de beldades que usam, abusam e até transportam narcóticos durante trabalhos no Brasil e exterior. Agências comprometidas com a profissão têm como regra orientar as agenciadas a evitarem festas, não consumir bebidas alcoólicas e muito menos drogas. Mas escapa aos executivos um detalhe: o maior interesse dos traficantes é usar as modelos no transporte da droga, por acreditar que elas levantam menos suspeitas por parte das autoridades.

O inquérito sobre a atuação da quadrilha chefiada pelo promotor de eventos Daniel Cavalcante Gauche, 25 anos, revelou que o grupo usava modelos para passar, sem levantar suspeita, por barreiras policiais em aeroportos e estradas. Para os traficantes, quanto mais jovem e bonita a responsável pelo transporte de drogas, menor seria a probabilidade de ela ser parada pela polícia. “No meio de trabalho é comum encontrar essas histórias. Casos de quem consome e se envolve com traficantes. E, se isso acontece, acredito que são meninas agenciadas em empresas que não são sérias”, comenta o booker – olheiro, da agência brasiliense G2 Models, Alê Albuquerque. “Elas sabem que passar a noite em uma festa, ingerir bebida alcoólica e drogas reflete na beleza. Os clientes percebem. Nós percebemos”, diz.

Baladas

Ao recomendar que as agenciadas não freqüentem baladas, os responsáveis pelas agências tentam evitar que elas caiam na tentação de consumir álcool e drogas. Segundo levantamento policial, as festas voltadas ao público jovem, realizados madrugada adentro, são as preferidas pelos traficantes em busca de novos usuários. Em Brasília não é diferente. As suspeitas de intoxicação e morte de jovens brasilienses por abuso de êxtase aumentaram em festas de música eletrônica e funk. Tais eventos aparecem como os preferidos para a atuação de grupos como o liderado por Daniel Cavalcante Gauche, um dos maiores já identificados na capital do país. As quadrilhas vendem a maior parte dos comprimidos a freqüentadores de raves, que usam a droga como combustível para agüentar várias horas na pista de dança.

Caso Lívia

O uso, às vezes misturado com álcool, coloca em risco a saúde dos jovens. E sempre que um deles passa mal, a primeira suspeita é de que a vítima tenha consumido êxtase. Um dos casos mais recentes ocorreu no último dia 15 de setembro, após uma festa eletrônica e de funk no Jockey Club do Guará. A estudante Lívia Barros dos Santos, 16 anos, morreu um dia depois do evento, com edema cerebral. Testemunhas ouvidas pela polícia disseram que a garota tomou um comprimido de êxtase durante a festa. Mas familiares de Lívia rejeitam a hipótese de a garota ter consumido qualquer tipo de droga.

A definição sobre a morte de Lívia será conhecida após a conclusão das análises feitas nas vísceras da adolescente. O delegado responsável pelo caso, Victor Dan, acredita que o resultado será divulgado pelo Instituto de Medicina Legal – IML, até o fim desta semana. “Temos até agora os depoimentos de pessoas que estavam com a vítima na festa e que afirmam a terem visto ingerir êxtase. Ela mesma teria admitido o consumo, mas precisamos de uma comprovação o mais rápido possível para fechar o caso”, contou Dan.

Por enquanto, o IML concluiu apenas um exame de sangue. Ele não detectou a presença de qualquer substância tóxica no corpo de Lívia. Ainda assim, a polícia prefere esperar a avaliação das vísceras para determinar com precisão o motivo da morte.

Os pais de Lívia estiveram ontem no IML para ver se o resultado havia saído. Foram informados de que o laudo ficará pronto na quinta-feira. O pai da garota, o estofador Edson Ramos dos Santos, 44, admitiu que no início pensou que a filha pudesse ter ingerido algum tipo de droga. Mas agora descarta a possibilidade.

“Eu cheguei a pensar e a falar que ela teria tido curiosidade porque o delegado insinuou isso. Ele ainda declarou que poderia ser droga sem ter nenhum laudo. Foi irresponsável fazer uma afirmação dessas”, desabafou.

É difícil combater

Operações realizadas pela Polícia Federal – PF, em Brasília apreenderam 7.269 comprimidos de êxtase nos últimos seis anos. A maior quantidade da droga retirada das mãos de traficantes ocorreu ao longo de 2005, quando 3.338 “balas” foram recolhidas. Há dois anos, porém, a Delegacia de Repressão a Entorpecentes – DRE, da PF, não registra nenhuma apreensão. O delegado titular da DRE está de férias. Mas a assessoria de imprensa da corporação justificou a falta de ações pela dificuldade no trabalho, uma vez que o êxtase tem circulação restrita entre as classes mais altas.

Já a Polícia Civil do Distrito Federal tirou de traficantes brasilienses 6.080 comprimidos só neste ano. Mas o titular da Delegacia de Tóxicos e Entorpecentes – DTE, João Emílio Ferreira, reconheceu a complicação para desmontar a ação das quadrilhas especializadas em distribuição de êxtase e LSD. “Quem compra não é o mesmo que distribui, este está mais protegido. Por isso é que atuamos focados com mais intensidade nos líderes do que nos usuários. É o melhor jeito para acabar com a atividade de um grupo desses”, comentou João Emílio.

O delegado da DTE afirmou que o tamanho das pílulas também facilita a venda e o consumo. Por serem pequenas, é mais fácil esconder em bolsos e ingerir junto com uma bala ou chiclete qualquer. “A droga sintética tem uso ocasional e ocorre em festas. É diferente da cocaína e da maconha, que os usuários usam com mais freqüência”, explicou. João Emílio também acredita que não há laboratórios para produção de comprimidos de êxtase em Brasília. Talvez no entorno. E não tem certeza sobre a rota usada pelos traficantes para trazer a droga até o DF.

Mistura perigosa

Estudo realizado pela pesquisadora da USP Stella Pereira de Almeida e divulgado pela Secretaria Nacional Antidrogas – Senad, revela que o consumo de êxtase no Brasil ocorre cada vez mais cedo. A Pesquisa realizada há dois anos com 1.140 brasileiros mostrou que alguns adolescentes admitiram ter iniciado o consumo de êxtase aos 13 anos. A maioria ingere de um a dois comprimidos por balada e considera fácil o acesso à droga. O dado mais alarmante revelou a mistura feita pelos jovens numa noite. Cerca de 70% dos entrevistados admitiu tomar as pílulas com bebidas alcoólicas e maconha, o que pode ser fatal por potencializar os efeitos da droga e os estragos no organismo.
Fonte: CORREIO BRAZILIENSE-DF (com alterações)-OBID