Crack: consumo no Espírito Santo está próximo ao de cocaína e maconha

A pesquisadora da Universidade Federal do Espírito Santo – UFES Marluce Miguel de Siqueira fez um levantamento da atuação das instituições de tratamento de dependentes químicos do estado entre 2003 e 2004. “Das 85 instituições que fazem atendimento ambulatorial e de internação de dependentes, 54 tinham como maior fator de dependência o crack”, alerta a professora.

Hoje, o índice de pessoas que são tratadas nas instituições como dependentes de crack é de 63%, número muito próximo aos das duas drogas ilícitas mais consumidas, a maconha, com 68%, e a cocaína, com 67% dos dependentes.

“Esse número chama atenção, pois, na primeira pesquisa feita, com relação aos anos de 2001 e 2002, o número de dependentes em crack era tão ínfimo que nem chegamos a contabilizá-lo”, frisa Marluce, que é pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre o Álcool e outras Drogas (Nead) da UFES.

A dependência de drogas sintéticas é bem pior do que as drogas convencionais, aponta a especialista. Além de ser de tratamento mais difícil, o uso contínuo de substâncias como o crack leva à depressão intensa, com todos os sintomas, como ataques de pânico, que podem desencadear até tentativas de suicídio.

Além disso, dependendo da quantidade e do tipo de droga, já na primeira vez, é possível sofrer uma parada cardiorrespiratória.

Apesar do crescimento do consumo de drogas estimulantes, o álcool e o tabaco continuam sendo as principais causas de dependência e principalmente a origem para o consumo de outras drogas mais pesadas.

“Se a pessoa chega até o crack é porque já há dependência de outras drogas lícitas, como o álcool e o tabaco. Já que o álcool atua como depressor, o dependente procura no crack um reação estimulante, mas que a médio prazo tem efeito contrário”, destaca Marluce de Siqueira.

Falta estrutura nas instituições de tratamento

“Dependentes ainda correm o risco de ser tratados por pessoas leigas”, alerta a especialista em dependência química Marluce de Siqueira. A pesquisa realizada para seu trabalho de pós-doutorado mostrou que as instituições de tratamento de dependentes químicos do estado não têm a infra-estrutura necessária.

Das 85 instituições que fazem tratamento ambulatorial e de internação, apenas 40% tinham psiquiatra, um pré-requisito essencial. “Cerca de 30% delas são mantidas por igrejas, e há inúmeros casos de voluntários, ou obreiros, atuando no tratamento. Muitas vezes, o obreiro é uma pessoa que já recebeu tratamento na mesma instituição, mas isso não o qualifica para tratar pacientes”, ressalta Marluce.

Pesquisa revela uso até de solventes por universitários

Informação não é suficiente para prevenir o uso de drogas. Uma pesquisa feita com alunos do Centro de Ciências da Saúde, CCS, da UFES demonstrou que, além de consumir álcool e tabaco em doses alarmantes, futuros enfermeiros, farmacêuticos, dentistas e médicos também fazem uso de drogas ilícitas, com destaque para solventes, anfetaminas e tranqüilizantes.

“Esse dado preocupa, principalmente se levarmos em conta que essas pessoas serão responsáveis por tratar dependentes químicos. Como tratar se o próprio agente de saúde precisa de ajuda?”, indaga a professora e mestranda responsável pela pesquisa, Renata de Souza.

A também professora e orientadora da pesquisa, Marluce de Siqueira, alerta que o álcool e o cigarro continuam sendo a porta de entrada para o mundo das drogas. “Quando o efeito dessas substâncias não é mais suficiente, eles acabam procurando outras mais fortes.”

A dependência dos estudantes também preocupa: 6,2% dos 179 alunos entrevistados afirmaram ser dependentes de álcool. “O número é pequeno, porque o universo é restrito. Se estendermos a pesquisa, a proporção será ainda maior”, destaca a orientadora.

A pesquisa completa fica pronta no final do ano e promete mais dados assustadores. “Se seguirmos os padrões nacionais, em Medicina e Odontologia o consumo de ansiolíticos, estimulantes, cocaína e opiáceos vai ser bem grande”, diz Marluce. Todos os dados serão usados para montar uma rede de prevenção na universidade.

Uso de drogas por alunos

Álcool. 93,1% dos homens, e 80,4% das mulheres

Maconha. 20,7% dos homens, e 4,1% das mulheres

Cocaína. 3,4% dos homens, e 0% das mulheres

Anfetaminas. 24,1% dos homens, e 9,5% das mulheres

Solventes. 13,8% dos homens, e 10,8% das mulheres

Ansiolíticos. 13,8% dos homens, e 13,5% das mulheres

Anticolinérgicos (xaropes). 3,4% dos homens, e 0% das mulheres

Barbitúricos. 0% dos homens, e 0,7% das mulheres

Alucinógenos. 0% dos homens, e 0,7% das mulheres

Idade em que começaram a experimentar

Entre 13 e 15 anos. 18%

Entre 16 e 18 anos. 25,7%

OBID Fonte: A GAZETA-ES