Pesquisa do Inca aponta consumo de narguilé entre universitários brasileiros

O narguilé, cachimbo d´água típico do Oriente Médio, é conhecido por nomes tão variados quanto as histórias que contam seu surgimento, provavelmente na Índia do século 17. De lá, foi adotado por todos os países do Oriente Médio e se tornou tradição nas reuniões das famílias árabes.

Uma pesquisa do Inca – Instituto Nacional do Câncer, realizada com 3.189 universitários brasileiros e divulgada em agosto, mostra que a moda pegou por aqui também: depois do cigarro, o narguilé foi apontado como a forma mais freqüente de consumo do tabaco entre esses jovens.

O problema é que, como qualquer produto feito de tabaco, o narguilé contém nicotina e as outras 4.700 substâncias cancerígenas e tóxicas do cigarro convencional. “Apesar de haver poucos estudos que avaliem os riscos específicos do cachimbo d´água, sabe-se que não existe segurança em consumir nenhum tipo de tabaco em nenhuma quantidade”, diz Jefferson Gross, cirurgião torácico e diretor do departamento de tórax do Hospital do Câncer A.C. Camargo.

Uma revisão científica, organizada pela Universidade de Memphis, EUA, e divulgada na semana passada, também alerta para o uso indiscriminado do produto e mostra algumas pesquisas em andamento, que apontam uma exposição ao monóxido de carbono duas vezes maior em fumantes de narguilé do que em fumantes de cigarro.

A OMS – Organização Mundial da Saúde, lançou um documento em 2006 para alertar sobre os riscos do consumo desse produto. E ainda divulgou que a sessão de uma hora de narguilé poderia equivaler ao consumo de 100 a 200 cigarros regulares. O material diz que, enquanto um cigarro dura cinco minutos, com uma média de 500 ml de fumaça inalada, a sessão de cachimbo d´água pode chegar a uma hora, com dez litros de substância aspirada, o que aumentaria a ingestão de gases tóxicos e os riscos.

“…a presença da água faz com que se aspire mais fumaça, que se torna mais tolerável; dessa forma inala-se maior quantidade de toxinas”, enfatiza o documento.

Falsa impressão

Uma das razões para a popularização do narguilé é a idéia errada de que a água poderia filtrar as substâncias maléficas do tabaco. Quando criado, o cachimbo d´água recebeu a desmerecida fama de inofensivo, por causa do líquido por onde passava a fumaça, que se propagou por todas as culturas que o utilizam.

“Assim como um pano umedecido não evitaria a poluição de chaminés de fábricas, a água não absorve as toxinas do tabaco”, compara o pneumologista Frederico Arrabal Fernandes, responsável pelo ambulatório do grupo antitabágico do Hospital Universitário da USP (Universidade de São Paulo). Ao contrário, a presença da água faz com que se aspire mais, uma vez que torna a fumaça mais tolerável. Inala-se, assim, maior quantidade de substâncias.

O aroma agradável também tranqüiliza especialmente quem está em volta e não participa da roda. No entanto, a fumaça ambiental do cachimbo d´água é bem mais tóxica que a provocada pelo cigarro. “A brasa do narguilé tem temperatura de 400ºC em média, a queima do tabaco é incompleta e sobram mais substâncias perigosas do que na fumaça do cigarro, na qual a temperatura na brasa chega a 900ºC”, diz Fernandes. Os males causados em quem freqüenta esses ambientes são semelhantes aos dos fumantes passivos, que têm mais chances de desenvolver as doenças relacionadas ao tabagismo.

Para preparar o fumo, são utilizadas folhas secas de tabaco, melado e essência de frutas, que não anulam os malefícios da planta. Ricardo Meirelles, pneumologista da divisão de controle de tabagismo do Inca, conta ainda que a quantidade de metais pesados – chumbo, níquel, cádmio, benzopireno – é mais alta nessa mistura do que em outras. Essas substâncias são altamente cancerígenas.

Outros riscos

Não custa lembrar que o tabagismo está associado à ocorrência de câncer de pulmão, boca, esôfago, bexiga e pâncreas, enfisema pulmonar, aneurisma cerebral, AVC (acidente vascular cerebral), infarto e osteoporose, entre outras doenças.

De acordo com os especialistas, o risco também existe para quem usa o narguilé. “O problema é que as pessoas começam aos poucos, cria-se uma neuroadaptação à nicotina e esse hábito se torna uma porta de entrada para outros tipos de cigarro”, afirma Ricardo Meirelles, do Inca. Frederico Fernandes, da USP, diz ainda que a nicotina, presente em qualquer tipo de tabaco, é uma das substâncias com maior poder de causar dependência.

Gestantes também correm os mesmos riscos e não devem fazer uso do cachimbo d´água nem freqüentar ambientes onde esteja sendo usado. Os perigos para o bebê são semelhantes aos de quem fuma e aos dos fumantes passivos: parto prematuro, nascimento com baixo peso e baixa resposta ao teste de Apgar, que examina freqüência cardíaca, respiração, musculatura, reflexos e cor da pele do recém-nascido.

O relatório da OMS ainda cita uma pesquisa realizada com crianças libanesas que cresceram em ambientes cheios de fumaça do narguilé. Essas crianças teriam 2,5 vezes mais chances de desenvolver doenças respiratórias, a mesma probabilidade das que convivem com fumantes.

Outro problema é o compartilhamento da piteira e da mangueira do narguilé. “Em países onde o uso é acentuado, como na Índia, existe um alto risco de transmissão de hepatite A, herpes, tuberculose e outras doenças infecciosas”, alerta Meirelles, do Inca.
OBID Fonte: FOLHA DE S. PAULO