RELATÓRIO 2007 do Observatório Europeu de Drogas e Toxicodependências: preço e apreensões de drogas na Europa


O preço relacionado à venda de drogas ilícitas na Europa baixou nos últimos cinco anos, e é provável que as drogas estejam mais baratas do que nunca, em toda a Europa conforme a Agência da UE de informação sobre drogas (OEDT), no seu Relatório Anual sobre a evolução do fenômeno da droga na Europa. O anúncio surge na seqüência de uma análise das tendências ao longo de cinco anos (1999 – 2004) dos preços de venda de drogas nas ruas européias. Esta análise revelou uma diminuição dos preços médios, na maior parte dos países e em relação à maioria das substâncias, em alguns casos de quase para metade. Este estudo é o primeiro do gênero realizado em nível europeu.
No período em estudo os preços do cannabis, cocaína e heroína, bem como o das anfetaminas e do ecstasy baixaram em toda a Europa.
Muito embora ainda não haja um grande número de dados sobre os preços das drogas, as informações existentes sugerem que estes podem ter diminuído ao longo da última década. Há, por exemplo, indícios de que, em alguns países, os preços do ecstasy e da cocaína são atualmente inferiores aos do final da década de 1980 e início da década de 1990.
Os preços das drogas podem ser influenciados por diversos fatores como por exemplo: flutuações da oferta, o grau de pureza da droga, o tipo do produto e as quantidades comercializadas. A análise dos preços torna-se ainda mais difícil devido à natureza oculta do mercado de drogas ilícitas e às variações nacionais em termos de qualidade dos dados e de métodos utilizados na recolha dos mesmos.
O OEDT refere que os dados atuais não revelam qualquer relação direta entre a diminuição dos preços das drogas e tendência de aumento de apreensões, no mesmo período de cinco anos, nem uma relação imediata entre o preço e os níveis globais de consumo das drogas. No entanto, a panorâmica hoje apresentada oferece uma base sólida para importantes trabalhos futuros a serem realizados pelo Observatório e pelos Estados-Membros da UE visando uma melhor compreensão da dinâmica do mercado europeu de drogas ilícitas e a avaliação do impacto das medidas de redução da oferta e da procura.
Apesar dos preços da droga revelarem uma tendência decrescente global em toda a Europa, registram-se variações consideráveis entre os vários países. A maioria dos países revelou que os preços do cannabis variam entre 5 e 10 euros por grama (aproximadamente 15 e 30 reais por grama), encontram-se preços de apenas 2,3 euros/ grama (9 reais por grama) em Portugal e superiores a 12 euros (36 reais) por grama na Noruega. Os preços da cocaína também variam substancialmente: entre 41 euros por grama (120 reais/grama) na Bélgica e mais de 100 euros por grama (300 reais/ grama) no Chipre, Romênia e Noruega. Do mesmo modo, o preço por comprimido de ecstasy não excedia 3 euros (9 reais) na Lituânia e na Polônia, mas oscilava entre 15 e 25 euros ( entre 45 e 75 reais) na Grécia e na Itália.
O preço é apenas um de muitos fatores que influenciam na decisão das pessoas de consumir drogas e, no momento, não foi possível estabelecer uma relação direta entre os níveis gerais de consumo e o preço das drogas nas ruas. No entanto, os pesquisadores europeus referem sentir preocupação pelo fato das drogas estarem ficando mais baratas. Se isto significar que as pessoas com tendência para consumir drogas as consumirão mais, o custo final do consumo de droga em termos de cuidados de saúde e de danos causados à comunidade poderá ser considerável.

Consumo de heroína e consumo de drogas injetáveis
A heroína consumida na Europa é em sua maioria produzida no Afeganistão, que continua a ser o principal fornecedor mundial de ópio. Estima-se que, em 2005, este país foi responsável por 89% da produção de ópio (4 100 toneladas) mundial.
A Ásia (50%) e a Europa (40%) continuam sendo responsáveis pelo maior volume de heroína apreendido em todo o mundo. As quantidades totais apreendidas na Europa têm aumentado constantemente desde 1999 e, em 2004, atingiram nível recorde, principalmente devido ao grande volume desta droga apreendido na Turquia.

Consumo de droga injetável e a transmissão de doenças infecto-contagiosas
Na maioria dos Estados-Membros da UE, a prevalência da infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) entre os consumidores de drogas injetáveis (CDI) continua sendo baixa. Calcula-se que há cerca de 1% ou menos de CDI infectados na República Checa, Grécia, Hungria, Malta, Eslovênia, Eslováquia, Noruega, Bulgária, Romênia e Turquia e, na maior parte dos países europeus, os estudos ainda indicam taxas de prevalência do HIV inferiores a 5%.
No entanto, novos casos de infecção por HIV associados a drogas injetáveis continuam sendo notificados e receia-se que eles possam estar aumentando em algumas zonas e entre alguns grupos da população. Nos países com taxas de prevalência do HIV tradicionalmente elevadas entre os CDI (cerca de 10% ou mais) — como Espanha, França, Itália, Polônia e Portugal — há indícios de que a transmissão continue em determinadas regiões ou entre subgrupos específicos de consumidores.
A preocupação voltada para as doenças infecto-contagiosas relacionadas ao consumo de drogas não se restringe ao HIV. A prevalência da infecção pelo vírus da hepatite C (VHC) entre os CDI é elevada na Europa, embora se encontrem grandes variações entre os diferentes grupos analisados. Observou-se uma prevalência elevada, superior a 60%, em algumas amostras de CDI na Bélgica, Dinamarca, Alemanha, Grécia, Espanha, Irlanda, Itália, Polônia, Portugal, Reino Unido, Noruega e Romênia — embora seja provável que, em termos gerais, os níveis de infecção sejam mais baixos.

HIV – medidas de prevenção
A maior oferta de tratamentos de substituição na Europa, implantados no início da década de 90, parece ter contribuído de forma importante para reduzir a propagação do HIV entre os CDI. O OEDT estima que o número de tratamentos de substituição na Europa já ultrapassou meio milhão e que cerca de um quarto a metade dos indivíduos com problemas causados pelo consumo de opiáceos podem estar recebendo um tratamento deste tipo.

Mortes relacionadas ao consumo de drogas
Nos seus dois últimos Relatórios Anuais, o OEDT registrou uma diminuição constante das mortes por intoxicação aguda relacionada ao consumo de drogas, possivelmente devido ao maior acesso a tratamento e às medidas de redução dos danos, bem como a uma menor prevalência do consumo problemático de drogas.
De qualquer forma, na Europa, são anualmente notificadas, em média, 7 000 a 8 000 mortes relacionadas ao uso de drogas. Os dados mais recentes mostram que essas mortes correspondem a 3% do total de mortes registradas entre indivíduos com menos de 40 anos, embora este valor aumente para mais de 7% na Dinamarca, Grécia, Luxemburgo, Malta, Áustria, Reino Unido e Noruega.
Apesar da preocupação com as mortes relacionadas ao consumo de drogas entre jovens, na realidade, as vítimas de overdose mais comuns na Europa são, atualmente, homens com cerca de trinta e cinco anos.
Uma novidade do relatório de 2007 reside no fato de vários países terem notificado a presença de metadona numa percentagem substancial das mortes relacionadas com o consumo de droga (apesar de nem sempre ser claro o papel que nelas desempenhou). A metadona e a buprenorfina são as drogas mais utilizadas no tratamento de substituição, mas tal como acontece com outros medicamentos de prescrição obrigatória, o seu abuso pode ser perigoso. Na Dinamarca, por exemplo, a metadona foi a causa notificada da intoxicação em 95 dos 214 casos de morte relacionada com o consumo de droga e no Reino Unido foi mencionada em 216 casos de overdose. Na Alemanha, 345 overdoses foram atribuídas a “substâncias de substituição”. A Espanha comunicou que apenas 2% das overdoses envolveram a metadona tomada isoladamente, mas que esta droga esteve freqüentemente presente, associada a outras drogas — em 42% das mortes atribuídas aos opiáceos e em 20% das mortes atribuídas à cocaína. O OEDT chama a atenção para a importância de monitorar as mortes relacionadas com o abuso das drogas de substituição e as circunstâncias que as rodeiam.

Cocaína – aumento da produção mundial, diversificação das rotas de importação
O UNODC estima que, em 2004, a produção mundial de cocaína aumentou para cerca de 687 toneladas, sendo a Colômbia (56%), o Peru (28%) e a Bolívia (16%) os principais países fornecedores. A maior parte da cocaína apreendida na Europa entra no continente vinda da América do Sul, ou através de países da América Central embora os países africanos estejam sendo cada vez mais utilizados como rotas alternativas.
Dados preliminares indicam que em 2004 foram apreendidas cerca de 74 toneladas de cocaína na Europa, a maior parte em países ocidentais. A Península Ibérica continua sendo uma importante porta de entrada para a cocaína, tendo mais da metade dessas 74 toneladas sido apreendida em Espanha ou Portugal. Em 2004, a Espanha foi responsável por cerca da metade do número total de apreensões e também, pelos maiores volumes de droga apreendida (33 135 kg). Entretanto, a quantidade de cocaína apreendida em Portugal aumentou para mais que o dobro entre 2003 e 2004 (de 3 017kg para 7 423 kg).

Consumo de Cocaína
O OEDT calcula que cerca de 10 milhões de europeus (mais de 3% dos adultos com idades compreendidas entre 15 e 64 anos) já consumiram cocaína, sendo provável que aproximadamente 3,5 milhões a tenham consumido no último ano (1%). Este valor é historicamente elevado pelos padrões europeus, mas mesmo assim é consideravelmente inferior à estimativa dos EUA em que 14% da população já experimentaram essa droga. Cerca de 1,5 milhões de europeus (0,5% dos adultos) dizem ter consumido cocaína no último mês.
O consumo está concentrado nos jovens adultos (15 – 34 anos), e a maioria é do sexo masculino e residentes em zonas urbanas. Em valores absolutos, a cocaína já ocupa o segundo lugar como droga ilícita mais consumida na Europa, depois da cannabis e ligeiramente acima das anfetaminas e do ecstasy. A maioria dos inquéritos nacionais conclui que entre 1% e 10% dos jovens europeus (15–34 anos) já experimentaram a droga e entre 0,2% e 4,8% consumiram-na nos últimos 12 meses. As taxas de consumo mais elevadas encontram-se entre os jovens adultos da Dinamarca, Irlanda, Itália e Países Baixos — países onde as taxas do consumo no último ano rondam 2% — e ainda Espanha e Reino Unido, que se destacam com estimativas superiores a 4%.

Problemas relacionados ao consumo de cocaína ganham importância
Seria um erro concluir que uma estabilização da tendência crescente no consumo de cocaína resultaria na estabilização dos problemas relacionados com esse consumo. Na Espanha e nos Países Baixos, onde o consumo de cocaína está relativamente consolidado, pelo menos um em cada quatro pedidos de tratamento está relacionado ao consumo de cocaína. A Dinamarca, a Alemanha, a França, a Irlanda, a Itália, Chipre, Malta, o Reino Unido e a Turquia também comunicam que entre 5% a 10% dos pedidos de tratamento estão associados a esse consumo. Em toda a Europa, os pedidos novos de tratamento relacionados ao uso da cocaína quase duplicaram no período entre 1999 e 2004, e os novos pedidos de tratamento relacionados com essa droga já rondam 12%. Por enquanto, porém, ainda há pouco consenso no que diz respeito ao tratamento para os problemas causados pelo consumo de cocaína e de crack.
Fonte:Site Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas)/Programa Álcool e Drogas (PAD) do Hospital Israelita Albert Einstein