´A dependência de drogas é a doença mais democrática que existe, atinge todas as classes sociais´

Álcool, cocaína, maconha, êxtase. Nunca se falou tanto nos malefícios causados pelo consumo das drogas, um problema que afeta, cada vez mais, os jovens. Psicóloga especializada nessa área, Maria Fátima Sudbrack, defende um rigor acentuado sobre o comércio das drogas, inclusive do álcool, mas não aceita a tese de que o usuário é o responsável pelo tráfico. “Quem usa precisa ser tratado”, diz ela, lembrando que é preciso buscar saber as causas de uma pessoa precisar de droga para enfrentar a vida. “Se eu estou tão estressada que não consigo dormir sem um relaxante, preciso saber qual é a causa desse estresse, em vez de viver lançando mão da droga para aliviar meu estresse”, diz ela.

Qual o perfil do dependente químico?

A dependência de drogas é a doença mais democrática que existe. Atinge todas as classes sociais, e, infelizmente, há precocidade do consumo. Temos muitos jovens já dependentes. Uma pessoa mal-alimentada, uma criança com necessidades básicas não-satisfeitas terá mais tendência a precisar de drogas. Mas essa relação não é linear com a pobreza.

Por que alguns desenvolvem dependência, e outros não?

Esse é um tema polêmico na comunidade científica. Mais de 80% da população em geral consome algum tipo de droga lícita, como álcool, medicamentos. A gente trabalha com fatores de risco e proteção, avaliando quais são as condições de vida das pessoas que favorecem ou protegem o desenvolvimento de dependências. Mas é claro que há causas físicas, psicológicas e sociais.

Há casos em que numa mesma família só uma pessoa desenvolve dependência?

Uma coisa que já se sabe é que quem consome mais cedo tem mais probabilidade de adquirir dependência. Os jovens, portanto, tornam-se mais vulneráveis se consumirem de forma abusiva. Isso é muito importante quando se trata de cigarro, de álcool.

Quais os sinais de alerta?

Uma pessoa deve refletir sobre seu consumo quando começa a sentir que está precisando dessa química para realizar coisas, enfrentar situações da vida. Há quem precise de droga para dormir, daquele uisquinho para relaxar. Outro aspecto é o fato de a pessoa, mesmo sabendo dos prejuízos, não consegue deixar de usar. É quando se instala a falta de controle. E a maioria das pessoas não reconhece. Também podemos citar a tolerância – o organismo começa a se acostumar com o produto, e então a pessoa precisa usar mais para ter o mesmo efeito.

Muita gente resiste a ver álcool como droga.

Esse é um problema. A cerveja, por exemplo, do jeito que se toma no Brasil, pode causar na pessoa o mesmo grau de intoxicação que um destilado. Porque uma coisa é tomar uma latinha, a outra é tomar três, quatro, ou mais. Por isso, defendo a inclusão de bebidas com menos de 13 graus Gay Lussac (GL), para efeito de controle de publicidade. Temos um alcoolismo de cerveja, e isso é preocupante, principalmente na juventude. Os hábitos de beber do brasileiro são muito ruins. Bebe-se a qualquer hora do dia, sem cuidados com alimentação. Em geral, o usuário de drogas faz misturas. No caso do álcool, jovens misturam com energéticos, para potencializar o efeito. Haja coração para agüentar.

Além da saúde física, preocupa também a mental?

Sim. Temos visto o quanto o consumo de drogas freqüente, abusivo – não, necessariamente, uma dependência – precipita quadros de saúde mental. A adolescência é um momento em que as doenças mentais aparecem, e o uso de drogas tem sido um precipitador considerável. A merla, no Distrito Federal, é responsável por muitos casos de surtos psicóticos.

Ela é consumida em todas as classes sociais?

Sim. Em Brasília, praticamente não existe maconha sem merla. E isso é grave, porque as pessoas estão consumindo um subproduto da cocaína, disfarçadamente. Merla é a borra da cocaína, o resíduo, fumada com maconha ou cigarro comum. Tem um efeito rápido, efêmero, e isso faz com que o usuário consuma dez, quinze vezes por dia. E aí vem a paranóia, a nóia, como falam os usuários. O crack, infelizmente, está começando a aparecer em Brasília. No meu entender, o grande risco das drogas na juventude não é apenas o consumo. As mortes decorrem do contexto da violência no comércio, na aquisição das drogas ilícitas.

Descriminalização seria o caminho?

Como profissional de saúde, sou favorável à descriminalização do usuário. Não é a mesma coisa que a liberação do uso de drogas. É preciso fazer um controle muito forte em relação à oferta, inclusive do álcool. Qualquer substância, mesmo medicinal, tem que ter controle. Por lei é proibido vender bebida alcoólica para menores de 18 anos, mas isso não é respeitado. Saiu uma pesquisa recente mostrando que pais não consideram errado que os filhos comprem bebida. Não vejo porque um usuário deva ser visto como delinqüente, criminoso. Porque o maior risco que o usuário corre diz respeito à sua própria saúde – o que não quer dizer que também não haja comportamento associado muitas vezes ao crime.

Autoridades policiais dizem que o comércio existe por causa da demanda. Que quem compra droga é quem alimenta o tráfico.

Sou totalmente contra essa idéia de que quem financia essa situação é o usuário. A gente tem que entender porque as pessoas usam drogas, o que eles buscam, do que elas precisam e não estão encontrando de outra forma. Na verdade, o tráfico é um mercado, hoje considerado primeira economia mundial.

E desastroso.

O contexto da venda ilícita é que é violento. O usuário não é criminoso, ele deve ser tratado. É preciso pensar em controle sanitário, em medidas educativas, em informação e conscientização. Porque a gente sabe que é cada vez mais difícil controlar o comportamento dos jovens, que estão fazendo coisas que a família por si só não dá conta. Temos que pensar num controle que passe até pelo constrangimento social. Veja o que aconteceu com o cigarro: as pessoas que fumam pelo menos estão tendo que respeitar as que não fumam.

E a dependência do cigarro também é forte.

É a droga que mais mata o usuário.

Há quem defenda a tese de que maconha não faz mal.

Pelo amor de Deus! A gente que trabalha com usuários de drogas sabe que isso não é verdade. Durante um tempo se questionava se a maconha gerava dependência física, além da psíquica. E hoje se sabe que sim. Estive na França, numa unidade de desintoxicação específica para maconha. E é bom lembrar que está sendo comercializada uma maconha com THC muito mais concentrado.

O que faz as pessoas buscarem a droga?

Fatores que estimulam a experimentação podem ser curiosidade, pressão grupal. Hoje vivemos numa sociedade onde quem não usa droga é que é diferente. Imagine isso num contexto jovem, onde aquele que não bebe uma cerveja é visto como peixe fora d’água. Mas é preciso analisar o que faz alguém fazer uso freqüente e se tornar dependente. É importante reconhecer que as drogas produzem efeitos agradáveis. Ninguém usa para passar mal; o faz buscando algo bom, em termos de sensação. É preciso identificar qual é a demanda e trabalhar na sua redução, e não apenas eliminar sintomas. Se eu estou tão estressada que não consigo dormir sem um relaxante, preciso saber qual é a causa desse estresse, e não lançar mão da droga. Há as estimulantes, como a cocaína, o êxtase e a nicotina; as depressoras, como a heroína; e as alucinógenas, como a maconha e o LSD.

O êxtase, com sua aparência “inocente” – em forma de comprimido – tem consumo elevado entre os jovens.

As drogas têm essa dimensão paradoxal. Podem ser remédio e veneno. O êxtase foi utilizado para aumentar a capacidade respiratória, nas cirurgias, assim como a cocaína já foi usada como anestésico, e o THC da maconha tem fatores medicinais. Mas as pessoas têm que avaliar quando o prazer passa a custar caro para a saúde, para a vida.

O que fazer ao descobrir que um filho usa drogas?

Sou psicóloga e minha orientação é sempre no sentido de que é preciso conversar. Mas uma conversa franca, bem informada. Muitos filhos não abrem o jogo para os pais porque acham que eles não entendem nada. Mas a maioria dos jovens não está em dificuldades, está mesmo é curtindo o barato das drogas. Por isso é difícil convencê-los dos riscos. Temos que trabalhar muito a reflexão entre prazeres e riscos, em vez de simplesmente aterrorizar. Com certeza, quanto mais os pais puderem retardar o primeiro contato dos filhos com as drogas, muito mais garantirão para eles uma vida saudável. Mas a questão não é só individual, é também cultural. Se a gente não dá mais conta de viver nossas emoções sem uma química, isso é algo que precisa ser repensado.

Muitas vezes, o mesmo pai que cobra é o que o filho vê aliviando suas dores com muita cerveja, uísque…

Os pais precisam ser coerentes. Todos nós temos que poder resolver nossos problemas sem precisar de drogas, ou, pelo menos, do seu uso abusivo.

Estudiosa da dependência química

Na França. Psicóloga do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB) e professora da instituição desde 1989, Maria Fátima Olivier Sudbrack coordena o Programa de Estudos e Atenção às Dependências Químicas (Prodequi) da universidade. Graduou-se em Psicologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1978, fez mestrado em Psicologia Clínica na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e mestrado em doutorado na Universidade de Paris.
OBID Fonte: A GAZETA-ES