Rebeca Gusmão suspensa por doping

A Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) anunciou, por meio de uma nota oficial, que a brasiliense Rebeca Gusmão — ouro nos 50m e 100m livres, prata no revezamento 4 x 100m livre e bronze no 4 x 100m medley do Pan do Rio —, primeira nadadora do Brasil a subir no lugar mais alto do pódio em jogos pan-americanos, está suspensa preventivamente por doping.

Por conta disso, a nadadora não embarcou para a Europa ontem para disputar as etapas da Copa do Mundo em Moscou, Estocolmo e Berlim. Além do risco de perder as medalhas do Pan, a nadadora deverá ficar fora das Olimpíadas de Pequim, em agosto de 2008.

Rebeca, 23 anos, testou positivo para testosterona em um exame realizado em 13 de julho, data da abertura oficial dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro. Segundo a nota divulgada pela CBDA, a Federação Internacional de Natação (Fina) enviou três ofícios à entidade brasileira na última sexta-feira, todos eles assinados por seu diretor executivo, Cornel Marculescu.

O primeiro comunicava que Rebeca tinha sido apanhada por uso do hormônio testosterona e informava que a Fina decidira suspender a atleta a partir de 2 de novembro, até que o Painel de Doping da entidade emitisse uma decisão final do caso.

O segundo ofício, dirigido a Rebeca Gusmão, repetia o texto enviado à CBDA e informava ainda que a testosterona encontrada acima dos níveis normais no organismo da nadadora tinha origem exógena, ou seja, não fora produzida naturalmente pelo metabolismo da atleta, o que caracteriza o doping.

Rebeca revelou, em setembro, que sofria de ovário policístico e que isso alterava seu metabolismo do hormônio testosterona. À época, ela declarou que tomou conhecimento desse problema em 2003 e que a CBDA havia sido informada dos resultados de seus exames.

No comunicado enviado a Rebeca, a Fina informava ainda que a decisão final da entidade deverá ser emitida no próximo dia 23. O terceiro e último ofício trazia um extenso relatório do laboratório onde foi feito o teste, o Institute Armand Frappier, do Canadá.

A CBDA promoveu ontem mesmo a reunião do Painel de Doping da entidade, prevista no regulamento da Fina. Participaram o presidente da CBDA, Coaracy Nunes, Rebeca Gusmão, o pai da atleta, Ajalmar Gusmão, a diretora médica da CBDA, Renata Castro, e os médicos da entidade Cláudio Cardoni e Marcos Bernhoeft.

Coaracy revelou o que a brasiliense argumentou para se defender na reunião promovida ontem, 05/11, pela CBDA. Segundo o dirigente, a nadadora questionou a competência do laboratório canadense que realizou os testes. “Ela disse ainda que, no dia em que fez o exame, não estava acompanhada de um médico da confederação e que, por isso, contestava sua validade.”

Segundo a CBDA, Rebeca fará uso de seu direito de solicitar a contraprova do exame. Ela deverá acompanhar a abertura da amostra B no Canadá.

Defesa

Na saída da reunião, a atleta brasiliense conversou rapidamente com a imprensa. Ela voltou a justificar as altas taxas de testosterona como resultado de seu problema no ovário. “Tenho produção a mais de testosterona endógena (produzida pelo corpo) e esse é meu doping pessoal. Não fiz tratamento e avisei à Fina sobre o problema”, alegou. Várias atletas gostariam de ser tão fortes quanto eu e elogiam meu físico, que me leva a ter vantagem”, ressaltou.

“Tenho a consciência tranqüila. Fiz cinco exames durante o Pan e somente em um deles os médicos constataram isso. Estou chateada porque fui cortada da Copa do Mundo. Mas sei que as coisas vão acabar bem.”

Rebeca alegou que “não seria inteligente” se dopar logo agora, que vive boa fase, e destacou que passa por exames regulares. “Seria muita ousadia ingerir alguma coisa sendo uma das 12 melhores do mundo. A gente sabe que esse tipo de substância não sai do corpo de uma hora para outra.”

Outra velocista brasileira, Renata Burgos, cumpre suspensão de dois anos por uso de estanozolol. Mas Renata nunca obteve resultados como os de Rebeca. Se confirmada a punição, será a primeira vez que o país terá um atleta de sua delegação flagrado durante as principais competições internacionais, como olimpíadas e jogos pan-americanos.

As marcas de Rebeca — 25s05, nos 50m, e 55s17, nos 100m —, que são recordes sul-americanos, também deverão ser cassadas. Para efeito do quadro de medalhas do Pan, o Brasil manteria o terceiro lugar, mas haveria uma modificação. Como a venezuelana Arlene Semeco foi prata nas duas provas, seu país passaria do oitavo para o sétimo lugar, com 12 ouros, ultrapassando a Argentina, que subiu ao alto do pódio 11 vezes.

Para saber mais – Testosterona

A testosterona é o hormônio masculino fabricado pelos testículos do homem e encontrado, em menor quantidade, nos ovários e glândulas supra-renais da mulher. Esse hormônio tem basicamente duas funções: anabólica e androgênica.

Pela função anabólica, ele atua, principalmente, sobre as zonas de crescimento dos ossos. Além disso, influencia o desenvolvimento de praticamente todos os órgãos do corpo humano.

No lado androgênico, é responsável pelo desenvolvimento das características sexuais masculinas (órgãos sexuais, produção de espermatozóides, pêlos, barba, voz grave etc). A testosterona age também na distribuição da gordura corporal, dando a nítida diferença entre as silhuetas masculina e feminina.

A testosterona pode ser sintetizada em laboratório sob a forma de esteróide anabolizante. Nesse sentido, tem indicações terapêuticas e é aplicada no tratamento de pacientes pós-operatórios, com osteoporose, desnutrição, além de diversas outras doenças, como câncer de mama feminino e anemia.

Estudos mostram que os esteróides anabolizantes produzem uma ação de rendimento no ganho de massa muscular, força e velocidade. Com isso, atletas melhoram o desempenho na modalidade, em busca de recordes e títulos. Por isso, essas substâncias são proibidas pelas agências reguladoras do esporte.
OBID Fonte:CORREIO BRAZILIENSE – DF (com alterações)