Crack, o fantasma da classe baixa

Enquanto as classes média e alta são surpreendidas com a explosão do consumo de êxtase, nas comunidades carentes o fantasma atende por outro nome: crack. O subproduto da cocaína em forma de pequenas pedras fumáveis é responsável por um número cada vez maior de atendimentos nas unidades de saúde.

Segundo o Instituto de Segurança Pública, as apreensões da droga no estado do Rio de Janeiro triplicaram no primeiro semestre de 2007 em relação ao mesmo período de 2006. De janeiro a julho, a Polícia Rodoviária Federal já apreendeu nas estradas do Rio dez quilos de crack, 200% a mais que em todo o ano de 2006.

De acordo com dados da Polícia Federal, o consumo de crack não pára de crescer. Em 2004, foram apreendidos 101,96 quilos. Este ano, 2007, de janeiro a agosto, o número subiu para 464,38 quilos.

No Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas – Nepad/UERJ, em São Cristóvão, os casos de dependência de crack aumentaram 80% em outubro em relação ao mesmo mês do ano passado. Hoje, de cada cinco pessoas que procuram ajuda ali, uma é dependente da droga, comercializada atualmente em 99% das bocas-de-fumo do Rio.

“O usuário de crack é o único que busca socorro por conta própria”, diz a psiquiatra Maria Thereza de Aquino, 21 anos de trabalho com dependentes químicos no Rio. – Em todas as outras, o usuário chega aqui trazido por familiares ou amigos.

O perfil do dependente de crack mostra idade entre 13 e 19 anos e classe D e E. A maior apreensão no Estado ocorreu em junho, na Mangueira – 2 mil pedras – mas o Jacarezinho é considerada a cracolândia carioca.

“Lá, a qualquer hora do dia, você vê crianças fumando a pedra. Desprezados pela família, os viciados passam até 24 horas por dia na boca, fazendo até favores sexuais para conseguir R$ 5 e comprar mais uma dose”, diz Maria Thereza.

Segundo ela, até o ano passado, os pouquíssimos dependentes em crack atendidos no Nepad vinham de São Paulo, Belo Horizonte e Vitória ou eram recém-chegados de outro país.

“Depois de um tempo, eles começaram a vir de cidades menores, como Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, o que mostra que o interior já aderiu a essa droga, antes típica das grandes cidades”, observa a psiquiatra.
OBID Fonte: JORNAL DO BRASIL-RJ