Antidepressivos – Uma indústria do bem-estar

Era para ser uma inspeção convencional. Mas uma pesquisa feita pela Drinking Water Inspectorate – DWI, do governo do Reino Unido, em 2004, quase se tornou um escândalo de proporções superlativas: resíduos de Prozac foram encontrados diluídos em rios e redes de esgoto de Londres. Não precisou ir longe e, rapidamente, o jornal inglês “Observer” soltou uma reportagem alardeando que, na última década, o número de receitas para antidepressivos aumentou de 9 milhões para 24 milhões por ano na Inglaterra.

A procura pelos medicamentos para aliviar os males da mente e as angústias da vida não é uma demanda isolada de ingleses moribundos que moram no país cinzento.

Os anos 1990 foram um marco avassalador na busca desenfreada e ansiosa do ser humano de tentar curar ou simplesmente aliviar os transtornos mentais, as tristezas profundas, as carências da vida e, claro, a devastadora depressão. Uma nova safra de medicamentos de última geração surgiu e, do dia para a noite, nascia a promessa de que uma pílula mágica poderia sepultar todos esses problemas.

O lançamento do Prozac, que neste ano completa duas décadas, foi uma espécie de divisor de águas e a sua trajetória teve nuances boas e ruins, tristes e felizes, trágicas ou não. Há toda uma sorte de antônimos para contar um pouco das mudanças que o Prozac propiciou no mercado de antidepressivos nesses 20 anos.

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Embalagem da Lilly, que o desenvolveu: segundo o neurocirurgião Jorge Pagura, do Hospital Albert Einstein, de São Paulo, “tirou-se o tabu da depressão” com a difusão e a aceitação do Prozac.

Indiscutivelmente, o lado mais poderoso e importante da “era pós-Prozac” talvez tenha sido o de colocar na prateleira um medicamento moderno e com efeitos colaterais inferiores a toda uma geração de antidepressivos lançados nas décadas de 1950 e 1960.

Desenvolvido pelo laboratório americano Eli Lilly – que volta e meia ostenta a seriedade do fundador, o veterano de guerra e químico de formação coronel Lilly -, o Prozac tem como princípio ativo a fluoxetina. E, por trás dela, a promessa de não causar dependência, a exemplo de drogas conhecidas como Valium – diazepan -, Lexotan – bromazepan – e Dienpax – diazepan -, que fazem parte de tranqüilizantes do grupo dos benzodiazepínicos.

Outro benefício foi surgir como uma opção para substituir seus primos mais velhos, os medicamentos tricíclicos, como o Tryptanol e o Anafranil, apenas para citar alguns de uma lista extensa e antiga. São drogas usadas até hoje, mas ainda têm contra si o fardo pesado dos efeitos colaterais. Os mais comuns são boca seca, constipação intestinal, hesitação urinária, retardamento do orgasmo.

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Depois de mais de US$ 800 milhões de investimentos e quase uma década de profundas pesquisas, o Prozac conseguiu uma proeza: desmistificar os problemas da depressão. “Antes, uma pessoa com essa doença tinha de ser tratada por um psiquiatra, havia um preconceito enorme”, observa o neurocirurgião Jorge Pagura, do Hospital Albert Einstein.

“Tirou-se o tabu da depressão”, acrescenta o médico, que também já ocupou o cargo de secretário de Saúde da Prefeitura de São Paulo.

De repente, a depressão – um mal que acomete 6% da população mundial – passou a ser tratada em consultórios de clínicos, neurologistas, ginecologistas e, até mesmo, em veterinários. O Prozac ganhou uma versão para cachorros, lançada neste ano pela mesma Eli Lilly, mas ainda não disponível no Brasil.

Esses exemplos sugerem que a depressão se banalizou num piscar de olhos. Mas é uma doença séria.

Dados da Organização Mundial de Saúde – OMS, projetam que será o principal distúrbio fatal ate 2020, atrás apenas das doenças cardíacas. Em 2001, era a quarta doença que mais causa incapacidade no mundo. Os números são preocupantes: uma em cada quatro famílias terá pelo menos um membro com um distúrbio mental em algum momento da vida; calcula-se que 5,8% dos homens e 9,5% das mulheres sofrerão de depressão. No Brasil, 17 milhões de pessoas sofrem do mal.

O que se questiona é por que essa doença vem ganhando proporções tão gigantescas e tão rapidamente? Uma lista de fatores pode desencadear a depressão: morte ou doença de um ente querido, estresse no trabalho, abuso sexual, abuso de drogas e álcool, doenças crônicas – como diabete, câncer, artrite, doença cardíaca, HIV – e, muitas vezes, até mesmo uma dor crônica.

Mudanças radicais na vida, como uma separação ou o nascimento do primeiro filho, ou dificuldades financeiras igualmente podem causar a enfermidade. Uma pessoa que sofre de depressão séria simplesmente perde o prazer de viver, de trabalhar. Não quer sair de casa nem tomar banho. Mergulha em si, geralmente se entrega a horas e horas de sono e, em casos mais graves, comete suicídio.

O uso em larga escala de antidepressivos leva a crer que a doença tenha virado uma commodity. Ou que esteja havendo uma epidemia de depressão mundo afora. Em muitos casos, o que se fala é que uma tristeza mais profunda, mas passageira, passou a ser vista como depressão.

Em situações assim, de depressão “maquiada”, a indústria farmacêutica “veste” o papel de vilã, que quer lucrar com a venda de seus produtos de qualquer jeito, nem que para isso busque novo uso para eles. Os críticos mais ferrenhos acham que os médicos banalizaram os seus diagnósticos e passaram a prescrever medicamentos controlados como se fossem a mais inofensiva aspirina.

“Na verdade, esses medicamentos passaram a ser usados para tratar problemas de depressão mais leves provocadas por um desequilíbrio de serotonina no cérebro, com tratamentos mais curtos e que podem ajudar o paciente num momento difícil”, defende Pagura, do Einstein.

O Prozac, que revolucionou o mercado de antidepressivos porque age pontualmente na recaptação de um neurotransmissor cerebral, já foi pejorativamente apelidado de “pílula de felicidade”. Muitas vezes, apareceu como a solução mais rápida e eficaz para curar os mais diversos problemas.

Do seu lançamento, em dezembro de 1987, nos Estados Unidos, o Prozac virou mania, uma verdadeira febre mundial. Em sites de buscas médicas, há mais de 50 mil referências ao medicamento ao longo dos últimos 20 anos.

Há vários livros a respeito do Prozac, sejam elogiosos ou não. Um deles, sob o título de “Mais Platão, Menos Prozac”, escrito pelo canadense Lou Marinoff e publicado em 20 países – inclusive o Brasil -, defende a tese de que as pessoas deveriam absorver mais os aconselhamentos filosóficos do que se entregar aos medicamentos.

No conjunto de curiosidades surgidas a partir do Prozac, há até um filme, o “Prozac Nation”, do estúdio Millenium Films Inc., exibido em 2001. E, recentemente, um novo perfume tornou-se conhecido por sua “fragrância Prozac”. Chama-se Smiley, da Ora Ito, e promete trazer uma sensação de bem-estar e levantar o ânimo até do ser mais depressivo.

Ao que tudo indica, o segredo estaria na fórmula, que contém elementos que bloqueiam quimicamente o estresse no cérebro: notas de almíscar, laranja e aroma de cacau, que contém duas substâncias olfativas estimuladoras da felicidade: a teobromina e a feniletilamina.

Do livro, passando pelo filme, da versão para cachorros e agora pelo perfume, o Prozac tornou-se um ícone, especialmente no caixa-forte da Eli Lilly. Novamente, nesse caso, para o bem e para o mal. Em 20 anos, chegou ao pico mais alto de uma montanha russa e, sozinho, foi responsável por quase 30% do faturamento dessa multinacional, movimentando uma cifra de US$ 2,6 bilhões em 2000, segundo Luciano Finardi, diretor de Marketing do laboratório.

A sua comercialização foi aprovada em mais de 90 países e a droga já foi usada por mais de 54 milhões de pessoas. Mas a quebra de direito exclusivo de fabricar o medicamento, em 2001, quase levou a fabricante à mais profunda crise de depressão. E, nesse caso, com motivos. “Quando caiu a patente, houve uma perda de 60% nas vendas”, lembra o executivo.

Na época, entrou em cena um medicamento genérico mais barato, fabricado pela Barr Laboratories. E, rapidamente, as vendas do Prozac despencaram. Hoje não representam mais do que US$ 250 milhões das vendas globais da companhia, que tem sede em Indianápolis, no meio-oeste americano.

No Brasil, onde o medicamento já desembarcou sem estar escudado por patente, em setembro de 1989, as vendas também declinaram, passando de cerca de 330 mil caixas em 1999 para 100 mil no ano passado.

Depois de lançar um medicamento com tanto sucesso – que foi o epicentro de milionárias campanhas de marketing no exterior -, a Lilly criou uma expectativa e foi cobrada pelos acionistas de Wall Street sobre qual seria o seu próximo Prozac. “Incrível como há marcas que deixam herança”, diz Finardi.

O cardápio de antidepressivos da industria farmacêutica em geral ficou sortido e robusto: há uma oferta de mais de 60 tipos de drogas, do mais variados preços e a famosa fluoxetina pode ser manipulada em qualquer farmácia no Brasil. No seu rastro veio uma série de outros medicamentos que também têm como função a recaptação de serotonina, o que muda é o princípio ativo.

Mas as drogas feitas com fluoxetina ainda são as campeãs de vendas. No Brasil, o mercado de antidepressivos vem crescendo a taxas de dois dígitos, algo próximo a 22% ao ano, e movimentando US$ 320 milhões.

A era Prozac permitiu que os antidepressivos pudessem ser usados por pessoas de diferentes idades e pelos mais diversos motivos. Há quem tome Prozac para evitar a ejaculação precoce, uma vez que um dos seus efeitos colaterais é justamente baixar um pouco a libido.

Para Pagura, do Einstein, não há nada de incoerente nesse tipo de comportamento por parte do consumidor e dos médicos. “O importante é que as pessoas tenham bem-estar e se aliviem das tensões que as acometem no dia-a-dia”, comenta, fazendo a ressalva de que, se um paciente tiver uma depressão grave, ele precisará ser medicado com antidepressivos combinados com outros medicamentos, além de passar por um acompanhamento terapêutico, no velho e bom divã.

O respeitado psiquiatra Valentim Gentil, professor da Universidade de São Paulo e um dos grandes nomes de sua especialidade no Brasil, recebeu recentemente uma saraivada de críticas porque, assim como Pagura, defende a prescrição de medicamentos como antidepressivos até para pessoas que não sofrem da doença.

Gentil esta debruçado sobre um estudo em que pretende identificar o funcionamento do cérebro em pessoas normalíssimas. Ele e sua equipe selecionaram homens e mulheres entre 18 e 50 anos, sem nenhum indício de distúrbio psiquiátrico. A eles foram dadas doses de antidepressivos e, ao que consta, a maioria passou a exibir um estado emocional melhor do que o anterior.

Um bem-estar melhorado. Como se vê, este século promete uma reviravolta nos estudos sobre a mente. Seja para os depressivos ou não.
OBID Fonte: VALOR ECONÔMICO-SP