Consumo de crack no Distrito Federal

O dia se mantém claro, apesar da chuva. Passam das 17h de sexta-feira. Um menino sujo e maltrapilho se esconde embaixo de um viaduto. Está sentado, protegido por uma manta em frangalhos. Um dos braços fica ao redor das pernas. O outro o auxilia a consumir a droga que avança sobre o coração da capital do Brasil. Com um gesto lento e tremido, ele aspira a fumaça do crack. A fisionomia logo se transforma. O olhar fica caído, perdido no horizonte.

É o efeito da substância derivada da cocaína sobre o corpo de um garoto que não tem mais do que 10 anos.

A cena descrita acima ocorreu num dos estacionamentos do Setor de Diversões Sul voltado para o Setor Hoteleiro Sul. Mas se repete com freqüência assustadora na região central de Brasília, principalmente nos arredores da Rodoviária do Plano Piloto. Com uma freqüência impressionante, grupos de meninos e meninas de rua são vistos sob o efeito do crack.

O próprio comércio do narcótico ganha força a poucos metros da Esplanada dos Ministérios. Prostitutas, travestis, homens vestidos de calça social e blazer e até motoristas de carros identificados como táxi ajudam na distribuição e circulação das pedras.

A presença do crack no Distrito Federal, porém, é um fenômeno recente. E tem chamado a atenção das polícias Civil e Militar. As apreensões ocorrem mensalmente em uma investigação voltada para aprofundar detalhes sobre o tráfico da droga na capital.

“O problema do crack é que, além da rápida dependência, gera muita violência. Furtos, roubos e, às vezes, homicídios acabam sendo praticados para que os usuários consigam dinheiro para comprá-lo”, explicou o delegado-adjunto da 2ª DP – Asa Norte, Rogério Borges Cunha.

De janeiro a novembro deste ano, os policiais da 2ª DP apreenderam 1.484 pedras de crack na região.

A quantidade, também recolhida em ações da Polícia Militar, é maior do que a de merla, outro subproduto da cocaína que vem perdendo espaço para a droga até então tipicamente paulista. “Uma lata de merla sai por R$ 40 e dura cerca de uma semana. A pedra de crack pode ser vendida por R$ 10 ou R$ 15, dependendo do cliente. Como é mais barata, está tomando espaço da merla, até então bem mais comum no DF”, disse o delegado.

Os investigadores da Seção de Repressão ao Tráfico da 2ª DP têm se concentrado nos distribuidores e nos barões do crack. Sabe-se que a Rodoviária virou um centro de distribuição, mas faltam informações sobre origem e produção. É possível que chegue ao DF por São Paulo, Minas Gerais, Goiás e até pelo Entorno.
A certeza é que as pedras — cada uma tem 1g — encontraram compradores em Brasília. O perfil do consumidor varia. Vai desde o menino de rua até os mais abastados, apesar do poder destrutivo da substância. A quarta inalação se revela capaz de provocar dependência e danos irreversíveis ao cérebro.

A Delegacia de Tóxicos e Entorpecentes – DTE – realizou uma das últimas apreensões na região central. Em agosto, uma mulher de 33 anos acabou surpreendida com 60 pedras no Setor Comercial Sul. A prisão serviu para a polícia entender parte do comércio ilegal no DF.

Ela admitiu ser dependente há 15 anos. Mora na rua com sete filhos. E aceitou trabalhar para o tráfico como vapor, ou seja, na distribuição. Horas antes de ser flagrada, recebeu a quantidade apreendida pela polícia. Deveria vender 50 pedras e prestar contas ao traficante. O restante poderia ser negociado por conta própria ou consumido por ela mesma. A Polícia Civil apreendeu 1.957 pedras no Distrito Federal nos primeiros 10 meses do ano — 75% na região central de Brasília.

À luz do dia
O titular da Delegacia de Tóxicos e Entorpecentes, delegado João Emílio Ferreira, confirmou que prostitutas e travestis ajudam a abastecer o mercado de crack no centro de Brasília. Mas disse que os pequenos vapores não aparecem como o foco das investigações da especializada.

O trabalho, paralisado em setembro e reiniciado este mês, se concentrará nos responsáveis pela origem do tráfico. “A idéia é pegar o barão, aquele que faz a droga chegar na região. Sabemos que ela está na área central e a cada dia mais distribuída e mais consumida”, afirmou.

Na última semana, o Correio acompanhou a movimentação de quem vive ao redor da substância na região central da capital.

É fácil, por exemplo, identificar um dos homens suspeitos de aliciar meninos de rua na região. Ele usa calça social e blazer. Age com autoridade diante da garotada. Na última sexta-feira, dia 10/12, ele passou boa parte da tarde na via que divide o Conic do Setor Hoteleiro Sul. Enquanto ele observa o local, crianças e adolescentes se amontoam embaixo de um viaduto. Fumam cigarros dos mais diversos e crack.

Aos mais velhos, cabe o papel da distribuição. A reportagem flagrou um deles repassando droga a diversos tipos de veículos, inclusive a passageiros de táxis. A maioria da clientela parece ser formada por pessoas bem vestidas. A rotina do comércio ilegal de narcóticos começa às 16h e avança a noite, principalmente às sextas-feiras.

Aumento de roubos
Outros dois pontos identificados como de consumo de crack estão na Rodoviária do Plano Piloto. Um deles é na plataforma inferior, perto dos ônibus interestaduais. O outro fica perto da estação do metrô, onde um barranco de grama e concreto abriga meninos de rua durante a noite. Muitos dormem amontados por ali e, logo pela manhã, usam a droga. “É quase todos os dias. Começa umas 6h, logo que acordam. Pelo que a gente percebe, essa molecada nem come. Passa o dia muito doida e pratica furtos para comprar mais”, disse um policial militar lotado na companhia da Rodoviária.

Para especialistas em usuários de drogas, a chegada do crack ao DF deve ser erradicada logo no início. A droga, produzida a partir da mistura da sobra da cocaína com bicarbonato de sódio ou amônia e água destilada, causa dependência com extrema rapidez.

“O efeito é rápido e efêmero. A dependência também. O crack leva mais cocaína do que a merla. É volátil e, aspirado para os pulmões, entra rápido na corrente sangüínea. E não se controla a dose”, afirmou a psicóloga Fátima Sudbrack, coordenadora do Programa de Estudos e Atenção às Dependências Químicas – Prodequi – da Universidade de Brasília – UnB.

Para a professora, o crack tem relação direta com o aumento da violência. Segundo ela, pesquisa feita pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas – Cebrid -, do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp -, revelou que a droga empurra crianças e adolescentes de rua ao furto e roubo.

O crack apareceu com freqüência no levantamento em São Paulo, onde até pouco tempo o centro da capital mantinha um local apelidado de Cracolândia. Brasília não indicou a presença da droga, pois o estudo foi feito em 2004.

O problema do crack na capital do país será um dos temas centrais de encontro organizado pela Prodequi na próxima quarta-feira. Especialistas discutirão, por exemplo, iniciativas de saúde para adolescentes que consumiram a substância antes de cumprirem medidas socioeducativas.

“Os profissionais de saúde brasilienses já estão tendo contato com garotos em situação delicada por conta do crack. O que nos inquieta é o efeito avassalador e a destruição provocados pela dependência química dessa droga”, afirmou Sudbrack.

A especialista em farmacologia clínica Patrícia Medeiros de Souza, do Departamento de Farmácia da UnB, alerta para a dependência quase instantâneoa. “A partir de duas, três vezes que se usa, a situação começa a ficar mais arriscada. Os danos ao cérebro são grandes e irreversíveis. Em alguns casos, a pessoa jamais volta a ser a mesma”, comentou.

O que também chama a atenção no comércio ilegal de crack é a destruição rápida do consumidor. Uma explicação possível se encontra no baixo valor da droga. No Rio de Janeiro, segundo a polícia, os próprios traficantes rejeitam o crack. Ele mata a fonte de renda.
OBID Fonte:CORREIO BRAZILIENSE – DF