Álcool muda comportamento sexual

O consumo diário de álcool promove mudanças no comportamento sexual masculino – os machos passam a desejar ter relação com outros machos. A afirmação é de um grupo de cientistas da Universidade Penn State, nos Estados Unidos, que publicou esta semana na revista PloS One, da Public Library of Science, um estudo feito com moscas-das-frutas.

De acordo com os autores, a pesquisa levou a descobertas de grande importância para estudos sobre alcoolismo. O trabalho é o primeiro a caracterizar efeitos da exposição crônica ao álcool nos animais escolhidos para análise.

– Há poucas evidências fisiológicas que apóiem teorias a respeito do efeito de bebidas álcoolicas. Por isso, contar com um modelo animal adequado possibilitou a condução de uma pesquisa laboratorial muito importante nesse assunto – disse o neurocientista Kyung-An Han, líder do grupo.

Segundo Kyung-An, informações derivadas do trabalho poderão servir como base para estudos semelhantes em outros animais, incluindo o homem.

Simulação do hábito

Os pesquisadores administraram doses diárias de etanol a moscas-das-frutas para simular o hábito do consumo freqüente de bebidas. O grupo investigou diversos fatores que influenciam os efeitos do etanol, como experiência anterior, idade e características genéticas e celulares.

Uma das descobertas da equipe foi que machos submetidos diariamente ao álcool, que tipicamente cortejam fêmeas, passaram também a cortejar ativamente outros machos.

– Identificamos moléculas fundamentais para a desinibição induzida pelo álcool e verificamos que a dopamina é um mediador-chave para a corte induzida entre machos – explicou a cientista.

Em uma das experiências da equipe, Kyung-An e seus alunos criaram moscas transgênicas cujas atividades cerebrais reguladas pelo neurotransmissor podem ser desligadas temporariamente pela mudança de temperatura a 32 graus.

– Sem uma mudança de temperatura, os machos transgênicos desejaram ter relações homossexuais pela influência do etanol. O mesmo não aconteceu quando mudamos a temperatura para bloquear a transmissão dos receptores de dopamina no cérebro – explicou. – Este resultado é a prova da participação da dopamina no processo.

Aumento na freqüência

Outra conclusão do estudo é que a exposição repetida ao etanol fez com que machos passassem a procurar com maior freqüência a relação com outros machos.

– Se um comportamento como o consumo de álcool se torna mais prazeroso à medida que ele se torna mais freqüente, há maiores chances de que os indivíduos continuem a repeti-lo – disse Kyung-An.

Os pesquisadores suspeitam que o que chamam de “sensibilização comportamental” resulte de mudanças adaptivas nas células cerebrais induzidas pelo consumo crônico de álcool. Mais tarde, pretendem usar a sensibilização como modelo para estudos fisiológicos de comportamentos ligados à dependência química.

Outra conclusão da pesquisa é que a corte induzida pelo etanol é afetada pela idade.

– Á medida que as moscas ficam mais velhas, suas capacidades cognitivas declinam, tornando-as mais suscetíveis aos efeitos negativos do etanol – explicou.

A pesquisa mostrou que, sob efeito do álcool, machos de meia-idade e idosos (de duas a quatro semanas) tiveram propensão maior para o contato desinibido com outros machos quando comparados com indivíduos mais jovens, com quatro dias.
OBID Fonte: JORNAL DO BRASIL-RJ