Desempenho ao dirigir: estudo comparativo entre o motorista com celular e o motorista com alcoolemia positiva e dentro dos limites legais


Embora constantemente recordados a respeito da importância de manter a atenção focada no volante, cada vez mais os motoristas têm-se envolvido num esquema de realização de múltiplas tarefas enquanto no trânsito, tirando a atenção da única atividade de relevância, ou seja, do volante. As tarefas distratoras, entre elas o uso de celular, têm demandado cada vez mais esforço cognitivo e tempo de execução, expondo o motorista a consideráveis riscos. Atualmente, o risco de envolver-se em acidentes automobilísticos em função do uso de celular tem sido explorado pelo campo científico e associado aos riscos inerentes ao motorista que dirige com alcoolemia positiva ,em níveis legalmente aceitos, relação abordada e investigada no presente estudo.

Quarenta participantes, de faixa etária entre 22 e 34 anos, habituados a dirigir e a consumir de 3 a 5 doses alcoólicas semanais, foram submetidos a um simulador de trânsito de alta fidelidade. Para garantir a realidade das condições de trânsito, o simulador incorporou a dinâmica interna de um automóvel, a superfície de uma rodovia e as condições comuns inerentes ao trânsito real. O desempenho dos motoristas foi avaliado segundo a velocidade do simulador, a distância (em metros) mantida do veículo imediatamente à frente e o tempo de reação em resposta à freada desse veículo. Todos os participantes foram submetidos a três situações específicas, ou seja, dirigir sem nenhuma interferência (situação controle), com alcoolemia positiva e dentro dos limites legalmente aceitos para dirigir (0,08 mg/dL)* e conversando ao celular (aparelho de mão ou conectado através de fones de ouvido), todas de duração média de 15 minutos. * no Brasil este limite é de 0,06 mg/dL.

Em comparação à situação sem interferências (controle), o desempenho ao volante foi prejudicado tanto pelo uso do celular quanto álcool. Conforme os autores, o uso de celular aumenta os riscos de colisão em relação às demais situações, principalmente pela diminuição do tempo de resposta após a freada do carro imediatamente à frente. Além disso, após a freada, o uso de celular diminuiu 19% do tempo necessário à recuperação da velocidade anterior do simulador, aumentando a distância entre os veículos, efeitos atribuídos principalmente à divergência dos recursos atencionais do processamento das informações do trânsito. Tais efeitos, extrapolados ao mundo real, implicariam na lentidão do trânsito, efeito que parece multiplicar-se, se considerado que o uso de celular, no trânsito, é cada vez mais comum. Em contrapartida, os motoristas com alcoolemia positiva não apresentaram risco aumentado de acidentes, tampouco houve interferência do uso de álcool sobre o tempo de reação e recuperação da velocidade após a freada. Por outro lado, condutores com alcoolemia positiva têm um estilo mais agressivo de dirigir, mantendo menor distância do carro da frente e freando bruscamente quando necessário, comportamento que também os expõe a considerável risco a acidentes.

Assim, segundo os autores, o uso de celular no trânsito produz efeitos tão profundos quanto àqueles observados entre condutores com alcoolemia positiva e dentro de níveis legalmente aceitos, porém, os padrões de interferência são qualitativamente distintos, o que aponta à necessidade de regulamentações de controle adequadas, como já feito previamente ao uso de álcool.

Título: A comparison of the cell phone driver and the drunk driver.
Autores: David L. Strayer, Frank A. Drews, e Dennis J. Crouch
Fonte: Human factors, 48 (2): 381–391, 2006.
IF.: 0,861
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool