Médicos divergem quanto ao tratamento ideal para dependência

´Não acredito em tratamento ambulatorial para o crack´. A tese é defendida pelo psicólogo e especialista em dependência química e fundador do Instituto Volta Vida, Osmar Diógenes Parente, explicando que a intervenção inclui mudança de hábitos, de lugares e das pessoas com quem convivem. Chama a atenção para as crises de abstinência, gerada pelo desejo da droga, chamado de ´fissura´. O psicólogo denuncia que não existe um lugar público para internar os dependentes químicos de Fortaleza. Atualmente, dos 35 internos no Instituto Volta Vida, 80% foram usuários de crack. A maioria dos usuários já experimentou mais de um tipo de droga.

Por outro lado, Marcelo Fialho, que integra o colegiado da Coordenação de Saúde Mental do Município, é categórico: ´Menos de 10% das pessoas em Fortaleza com quadro de dependência química precisam de internação´. Na sua opinião, a reforma psiquiátrica surge como uma luz no fim do túnel, no que diz respeito ao atendimento aos dependentes químicos, principalmente dando enfoque na redução de danos. Antes, o tratamento era limitado a internações em hospitais psiquiátricos.

Em outras palavras: não existe um modelo único de tratar a dependência química, justificando que não se trata apenas de desintoxicar o usuário. Ou seja, a internação é uma modalidade, como existem várias outras, explica, citando desde os 12 passos utilizados pelos Alcoólicos Anônimos, passando pela desintoxicação, entrevistas motivacionais, uso de medicamentos, entre outros.

O modelo da redução de danos é aplicado com bons resultados no Canadá e na Grã-Bretanha, não originário propriamente da saúde mentalm, mas dos programas de controle das DST-Aids. ´Existem aqueles que não podem deixar o vício e os que conseguem´, esclarece o psiquiatra, daí o objetivo do tratamento que reduz ao máximo os danos e trata as pessoas na própria comunidade. Porém, Marcelo Fialho assegura que está sendo negociado com o Ministério da Saúde a construção de uma unidade de desintoxicação em Fortaleza, o Serviço Hospitalar de Referência em Álcool e Droga.

O psicólogo Valton Miranda Jr., coordenador do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Droga (CAPs-AD) da Secretaria Executiva (SER-II) afirma que, dos pacientes atendidos no CAPs, a metade tem algum sucesso com o tratamento. Dependendo do paciente, pode resultar em internação entre 10 a 15 dias em uma das 10 unidades ofertadas pelo Hospital de Saúde Mental de Messejana.

O monitoramento da abstinência, na maior parte das vezes, é feito no ambulatório. ´A gente compreende que o uso da droga é uma fuga´, revela o psicólogo, considerando fatores importantes como a auto-estima, a vida afetiva e a construção de um projeto de vida. Estes são os fatores que contribuem para uma pessoa se tornar viciada.
Autor: Cidades
OBID Fonte: Diário do Nordeste-CE