Violência cresce onde o Estado falta

BRASÍLIA – É onde o Estado não chega que a violência cresce. O segundo ´´Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros´´, divulgado ontem pela Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (Ritla), mostra que onde cresce o desmatamento, a grilagem de terras, o contrabando de armas e o tráfico de drogas é onde estão também os maiores números de homicídios do País, proporcionalmente ao tamanho das populações.

Longe das capitais, em cidades pequenas, nas fronteiras e no interior do País, as taxas de homicídio chegam a ultrapassar 100 mortes para cada 100 mil habitantes.

Campeões em desmatamento na Amazônia, Pará e Mato Grosso têm, juntos, 11 dos 45 municípios mais violentos do País. E os dados do Mapa da Violência mostram que a situação vem piorando. Em 2007, no primeiro estudo, realizado com dados até 2004, seis dessas cidades eram menos violentas e, em alguns casos, como os municípios de Itanhangá (MT) e Nova Ubiratã (MT), nem sequer apareciam entre os 556 mais violentos do País.

Cumaru do Norte (PA) era o 323º mais violento. Hoje, é o 28º. E, não por coincidência, Cumaru é um dos que está na lista dos 36 com maiores taxas de desmatamento em 2007.

´´São áreas onde há uma ausência total do poder público, onde impera a lei do mais forte e há um desrespeito quase absoluto aos direitos humanos´´, afirmou o autor do estudo, o pesquisador Julio Jacobo Waiselfisz. ´´É um círculo vicioso iniciado pelo desmatamento ilegal. Quem comete um crime, comete dois, comete cinco´´.

Esse mesmo raciocínio se aplica a outras cidades que estão no topo da lista da violência, como Foz do Iguaçu (PR), Guairá (PR) e a campeã deste ano, Coronel Sapucaia (MS). Nenhuma das três fica em áreas de desmatamento, mas todas estão em áreas de fronteira – nesse caso, com o Paraguai. Contrabando de armas, drogas e roubo de carros marcam as cidades.

Coronel Sapucaia – terceiro lugar no mapa anterior -, com pouco menos de 15 mil moradores, teve uma taxa média nos últimos três anos de 107 mortes por 100 mil habitantes. Pela fronteira entram no Brasil maconha, cocaína e parte das armas usadas pelo tráfico no País.

Foz do Iguaçu também vem subindo na lista. Era a 11ª. Hoje, é a 5ª. ´´Durante 20 anos, deu-se pouca atenção a Foz do Iguaçu. Tratava-se apenas como um problema social, das pessoas que viviam do contrabando. Essa permissividade exacerbou os problemas e hoje há máfias internacionais agindo ali´´, disse o secretário-executivo do Ministério da Justiça, Luís Paulo Telles Barreto.

O secretário garante que o governo está prestando atenção à região. Abriu postos da Polícia Federal e da Receita Federal. Mas, em 2006, 326 pessoas foram assassinadas na cidade. Em 2002, foram 265.

O Mapa levantou os 10% de municípios brasileiros com as maiores taxas de homicídios. São 556 cidades que concentram 73% de todas as mortes violentas ocorridas no País entre 2004 e 2006. Da primeira, Coronel Sapucaia, até a 556ª, que é Marechal Floriano, no Espírito Santo, a taxa cai de 107 mortes por 100 mil para 29,3 por 100 mil.

Ainda assim, todas estão dentro da faixa que o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) considera como ´´ruptura total dos mecanismos de segurança pública´´ – quando a população não confia mais que possa contar com a polícia para resolver seus problemas.

A taxa de mortes vem caindo. Em 2007, no primeiro mapa, a taxa da primeira colocada – Colniza (MT), hoje em segundo lugar – era de 156 por 100 mil habitantes. Coronel Sapucaia, que é hoje a primeira, tem 106,4 por 100 mil. As quedas, de acordo com o autor do estudo, se devem a políticas específicas e, até 2005, pelo impacto da campanha de desarmamento – que o Ministério da Justiça agora promete retomar. ´´Foi a melhor notícia que tive. Não há porque parar com uma campanha que teve um impacto tão claro. Eu sei, o governo sabe´´, afirmou Waiselfisz.

Mas, apesar da queda e da melhoria de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, agora mais capitais fazem parte da lista de cidades mais violentas. Hoje, 25 das 27 capitais estão entre as 10 mais violentas. Apenas Boa Vista e Natal ficam de fora. No Mapa anterior, sete não estavam entre as piores.

Recife é a primeira capital a aparecer na lista. Assim como Pernambuco sempre figura entre os três primeiros lugares como Estado mais violento. ´´A situação de Recife é inexplicável. Eu vivo lá, estudo a situação e até hoje não conseguimos entender o que faz essa cidade ter uma situação tão complicada´´, afirma Waiselfizs.

Em homicídios juvenis, Recife está em segundo lugar – perde apenas para Foz da Iguaçu. Junto com Serra, na zona metropolitana de Vitória, e Santa Cruz de Minas, são as quatro cidades em que a taxa de mortalidade juvenil – até 24 anos – ultrapassa os 200 por 100 mil habitantes. Em 20 cidades brasileiras, os jovens são mais de 60% das vítimas de assassinatos. ´´São municípios onde as autoridades deveriam pensar políticas específicas para a juventude, porque claramente há alguma coisa muito errada´´, afirmou o autor do estudo.

Metodologia

Os dados usados para compor o ´´Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros´´ são retirados do Subsistema de Informação de Mortalidade (SIM), coletado pelo Ministério da Saúde desde 1979 com a causa da morte, local, sexo e idade da vítima, entre outras informações. Os dados usados são aqueles relativos a homicídios e acidentes de transporte, além de uma subdivisão apenas com os dados de mortes por armas de fogo.

Para fazer o Mapa, o pesquisador utiliza uma média de mortes dos últimos três anos – para evitar que um ano atípico influencie o resultado de um município, especialmente os com populações muito pequenas – e cria uma taxa das mortes para cada 100 mil habitantes.
Autor: País/cidades
OBID Fonte: Tribuna da Imprensa-RJ