Entrevista com Dra. Magda Vaissman – Álcool e Trabalho

Publicado em 30/01/2008

Curriculum Vitae
1) Atualmente diversos estudos têm apontado uma importante contribuição do ambiente de trabalho e suas características psicossociais para o desenvolvimento do uso/abuso de álcool. Em sua opinião, considerando-se o ambiente de trabalho, quais são os fatores de risco de maior relevância?
Devemos considerar, em primeiro lugar, ao relacionarmos “Álcool e Trabalho”, a própria organização do Trabalho e sua complexidade no mundo globalizado de hoje. Sabemos que ambientes laborais desfavoráveis que podem ensejar um sofrimento psíquico e consequentemente o uso abusivo de álcool pelo trabalhador como um sintoma dentro da psicopatologia do trabalho. Não se pode afirmar, no entanto, que haja um nexo causal entre estes, mas não restam dúvidas na literatura que certos tipos de trabalho favorecem mais o consumo do que outros. Por exemplo, trabalhos em condições físicas desfavoráveis como os de lixeiros, pessoas que lidam com esgotos e saneamento, coveiros, etc. Por outro lado, temos trabalhos que requerem altos níveis de estresse como altos executivos, jornalistas e redatores, médicos e os da área de segurança publica como os policiais e os de segurança privada como guardas e seguranças. Temos também certos tipos de trabalho em que a disponibilidade de álcool é grande e muitas vezes sua ingestão até se faz necessária durante o trabalho, como é o caso de garçons, experimentador de vinho e/ou cervejas, recepcionistas e artistas.

2) Como a empresa pode identificar o dependente de álcool?
De modo geral, as empresas de médio e grande porte possuem serviços de medicina do trabalho, cuja finalidade é dar assistência medicossocial ao trabalhador. Assim, ao realizarem os exames admissionais e os periódicos de rotina podem avaliar seus empregados, se adequadamente treinados, para observar alguns sinais que podem eventualmente fazer suspeitar de alcoolismo, tais como: faltas sucessivas ao trabalho, muitas vezes alegando mal-estar gástrico ou outros comprometimentos físicos; sair antes da hora do termino do expediente ou não voltar após o almoço, dívidas financeiras recorrentes, atrasos no trabalho e faltas às segundas-feiras, desleixo com os móveis e instrumentos do trabalho, hálito etílico, etc. Do ponto de vista estritamente médico, temos: enzimas hepáticas aumentadas como a GGT, TGO e TGP, aumento do volume corpuscular médio e aumento da amilase e lipase. Do ponto de vista social poderá haver queixas, problemas em família ou no casal.

3) Qual a postura das empresas ao identificar o dependente de álcool? Atualmente, há tolerância e investimento à recuperação da saúde do funcionário ou opta-se pela demissão?
Hoje as empresas estão investindo muito mais nos seus trabalhadores, pois ao invés de despedi-los simplesmente, procuram ajudar o empregado a buscar tratamento ou mesmo autoriza-lo a freqüentar grupos terapêuticos ou consultas com os profissionais de saúde envolvidos com tratamento. Vale investir no seu empregado do que substituir a mão de obra, que cada vez fica mais escassa frente a necessidade de trabalhadores muito bem treinados.

4) No que concerne ao sexo, há diferenças quanto ao comportamento de beber no ambiente de trabalho? As empresas tomam atitudes distintas para homens e mulheres?
Não há distinção quanto ao comportamento de beber entre os gêneros, mas certamente a prevalência de uso abusivo de álcool e/ou dependência é muito menor entre as mulheres, pois estas bebem menos que os homens. O alcoolismo no Brasil ainda é um transtorno masculino. No caso da mulher que bebe esta o faz, geralmente, em casa e solitária, dentro do ambiente familiar. No entanto, há mulheres que também bebem com seus colegas de trabalho, principalmente após o horário de trabalho, nos “happy-hours”, mas o hábito da alcoolização se dá de modo mais moderado face ao preconceito que gera a “mulher embriagada”. Temos que as empresas não tomam atitudes diferentes, mas certamente o diagnóstico precoce da mulher trabalhadora é muito mais imperceptível que no sexo masculino.
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool