A interferência de amigos sobre o comportamento de beber de adolescentes de ambos os sexos

Entre os adolescentes, já é conhecida a influência de amigos sobre o uso de drogas. Quanto ao uso de álcool, os fatores de risco parecem ser diferentes conforme o sexo do adolescente, de tal forma que as mulheres têm-se mostrado mais vulneráveis que os homens. A composição do grupo de amigos (se do mesmo sexo ou não) é fator de risco relevante. Assim, o objetivo desse estudo foi testar a influência entre o sexo do adolescente e o seu ciclo de amizades,. Na presença desta interação, investigar se seria mediada por mecanismos genéticos ou ambientais.

Como participantes, aproveitou-se de um estudo longitudinal finlandês (FinnTwin12) sobre o desenvolvimento comportamental e os fatores de risco durante a adolescência. Tal estudo foi conduzido entre gêmeos e seus familiares. Esta pesquisa utilizou-se dos dados dos adolescentes quando completaram 14 anos, momento em que foram introduzidos tópicos sobre o uso de drogas no questionário de entrevista. Quanto ao uso de álcool, em especial, obteve-se a participação de 4709 adolescentes, dos quais 1488 eram gêmeos do mesmo sexo, divididos em monozigóticos (gêmeos idênticos – 706 homens e 752 mulheres e dizigóticos (800 homens e 718 mulheres). Entre eles, as variáveis medidas foram: 1) início do uso de álcool; 2) características dos amigos quanto ao uso de álcool, cigarro e incidência de comportamentos delinquentes, ou seja, se os amigos se envolviam em problemas ou eram desonestos e, finalmente 3)o sexo dos amigos.

Conforme os autores, as características do ciclo de amigos diferiram conforme o sexo. As mulheres têm maior probabilidade de terem amigos que já beberam, enquanto que os adolescentes do sexo masculino tinham com maior freqüência amigos que já se envolveram em problemas ou delinqüência.

Aos 14 anos, apenas 35% dos adolescentes relataram já ter bebido, sendo a prevalência pouco maior entre as mulheres desta faixa etária. Esse uso, de certa forma, parece relacionar-se ao sexo dos amigos, de tal forma que, os adolescentes (seja homem ou mulher) que tivessem amigos do sexo oposto apresentavam 3 vezes mais chances de já terem experimentado álcool. Já o risco de beber em função das características dos amigos (ter amigos que bebessem, fumassem ou que já tivessem se envolvido em problemas) foi maior entre as mulheres. Paralelamente, ao comparar gêmeos mono e dizigóticos, os autores concluíram que a influência de amigos sobre o comportamento de beber, entre adolescentes do sexo feminino, possivelmente estivesse relacionada a fatores genéticos e ambientais, enquanto que entre os homens as influências eram preferencialmente ambientais.

Assim, conforme os autores, no que concerne ao uso de álcool, as mulheres estão mais predispostas a fatores de risco durante a adolescência, entre eles, a influência dos amigos, principalmente do sexo oposto. Os autores sugerem que a convivência com amigos do outro sexo tornaria os adolescentes menos inibidos ou funcionaria como uma pressão para seu engajamento em comportamentos precoces à sua faixa etária, entre eles, o comportamento de beber. As mulheres, quando comparadas aos homens, parecem beber mais precocemente em função de componentes genéticos, que as faz aproximar de amigos que tenham os mesmos valores. Já entre os homens, o comportamento é essencialmente influenciado por fatores ambientais, porém, essas diferenças entre os sexos tendem a desaparecer com o transcorrer da adolescência.

Em contrapartida, o estudo apresenta uma série de limitações. Como a pesquisa é transversal, conclusões sobre a relação de causalidade são impossibilitadas. Soma-se a isso, o fato de que as medidas adotadas são simples e por vezes, inapropriadas. Mas, de forma geral, esses resultados fornecem informações de relevância a possíveis programas de prevenção e intervenção.

Título: Gender Differences in Friends’ Influences on Adolescent Drinking: A Genetic Epidemiological Study
Autores: Danielle M. Dick, Jason L. Pagan, Candice Holliday, Richard Viken, Lea Pulkkinen, Jaakko Kaprio e Richard J. Rose
Fonte: Alcoholism: Clinical and Experimental Research, 31 (12): 2012-2019.
IF.: 2,933
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool