Dependência já atinge crianças

Uma das faces mais dramáticas do impacto do crack sobre a demanda por internações psiquiátricas no Estado se encontra em uma ala do São Pedro destinada a crianças.

Ali, dos 10 leitos reservados para pacientes de até 12 anos, a metade costuma ser ocupada por pequenas vítimas das pedras.

– Estamos perdendo uma geração para o crack. O crescimento no número de casos é assustador – surpreende-se o psiquiatra Alceu Gomes, diretor-técnico interino da instituição.

Na ala destinada a adolescentes, a situação é ainda mais grave. De outros 10 leitos garantidos para jovens entre 13 e 17 anos, nove invariavelmente recebem garotos com a saúde e o futuro comprometidos pelo vício. Esse fenômeno demonstra a mutação no perfil dos usuários da droga que vem se processando no Rio Grande do Sul.

Se até poucos anos os dependentes eram jovens pobres, hoje as pedras atingem vítimas com idade cada vez menor e classes sociais mais diferenciadas. Uma das razões para o salto vertiginoso do tóxico entre os gaúchos é a dependência quase imediata provocada pela substância.

– Em três ou quatro semanas, o usuário já adquiriu uma dependência grave – afirma Gomes.

Não há dados estatísticos recentes, mas um estudo realizado com as cidades de mais de 200 mil habitantes pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) demonstrou que, entre 2001 e 2005, a proporção de usuário mais do que dobrou na Região Sul – passando de 0,5% para 1,1% da população. Se esse índice for aplicado somente sobre a população gaúcha com mais de 12 anos, já significaria um público-alvo do crack de 72 mil pessoas.

– Antigamente, uma pessoa podia levar 20, 30 anos para se tornar um alcoolista. Hoje, o crack acabou com isso. É imediato, o que é um desafio muito maior para a rede de atendimento – compara o diretor-geral do São Pedro, Luiz Carlos Illafont Coronel.
Autor: geral
OBID Fonte: Zero Hora – RS